sábado, 3 de dezembro de 2016

Domingos Rebelo (1891-1975)

Domingos Rebelo
Retrato de João Soares Cordeiro. Óleo sobre tela, 1912 (Museu Carlos Machado)



Domingos Maria Xavier Rebelo (Ponta Delgada, 3 de Dezembro de 1891 - Lisboa, 11 de Janeiro de 1975), mais conhecido por Domingos Rebelo, foi um professor e pintor açoriano.


Os Emigrantes
(1926)


Foi autor de algumas das imagens mais emblemáticas da iconografia dos Açores, com destaque para
Os Emigrantes, provavelmente a imagem mais reproduzida no arquipélago.

Biografia

Domingos Rebelo, filho de José Eduardo Rebelo, guarda fiscal, e de Georgina Augusta Pereira Rebelo. De posses modestas e quatro filhos, a família Rebelo atribuía grande importância à vida familiar e à actividade religiosa, aspectos que seriam marcantes tanto na vida como na obra do pintor.


A família Rebelo valorizava a educação dos filhos, e Domingos Rebelo teve a oportunidade de fazer um percurso educativo então acessível a poucos: depois de aprender as primeiras letras com as senhoras Pereira, na rua da Arquinha, frequentou o Instituto Fischer, onde recebeu uma educação com uma forte componente católica, o que veio reforçar as crenças religiosas familiares. Tendo desde muito cedo revelado propensão para o desenho e para a pintura, ingressou na Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral, a antecessora institucional da actual Escola Secundária Domingos Rebelo, cursando desenho.

O pintor Artur Jaime Viçoso May, director da Escola, reconheceu o talento artístico do aluno e incentivou a produção das suas primeiras obras. Foi graças a esse apoio que Domingos Rebelo, com apenas 13 anos de idade, pela primeira vez expôs uma das suas obras, colocando um quadro seu na montra da Loja de Duarte Pereira Cardoso, sita à rua Nova da Matriz, actual rua António José de Almeida, no centro de Ponta Delgada.

A obra exposta e o apoio de Viçoso May levaram o talento de Domingos Rebelo à atenção dos condes de Albuquerque, os quais, impressionados com a qualidade da sua arte, se ofereceram para custear os estudos artísticos.

A descoberta de São Miguel (1940)
Com o apoio de Duarte de Andrade Albuquerque de Bettencourt, o 1.º conde de Albuquerque, e de Viçoso May, foram criadas condições para que Domingos Rebelo pudesse prosseguir os seus estudos em Paris. Tinha 15 anos de idade quando deixou Ponta Delgada a caminho da grande metrópole europeia.




A descoberta de São Miguel (1940)
Domingos Rebelo permanece em Paris seis anos, onde frequentou a Académie Julien, onde foi discípulo de Jean-Paul Laurens, e o curso livre da Académie de la Grande Chaumière, onde contactou com mestres como Léon Bonnat. Conviveu ainda com grandes nomes da pintura portuguesa que iam passando por Paris, como Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor, Emmerico Nunes, Dórdio Gomes, Eduardo Viana, Manuel Bentes e Pedro Cruz. Foi nesse meio artístico, onde se fazia sentir a originalidade dos modernistas Paulo Cézanne, Henri Matisse e Amedeo Modigliani, que Domingos Rebelo aperfeiçoou a sua formação técnica e ganhou a mundividência que demonstrou na sua obra.



Em 1911 participou na Exposição dos Livres no Salão Bobone, em Lisboa, ao lado de Eduardo Viana, Emmerico Nunes, Alberto Cardoso (1881-1942), Francisco Smith, Manuel Bentes e Francisco Álvares Cabral (1887-1947).

O tocador de viola da Terra
(Bilhete Postal - Edição dos CTT)
Casou com Maria do Carmo Berquó de Aguiar, natural de Ponta Delgada, que faleceu muito cedo, sem deixar descendentes. Voltou a casar, em 1921, com Maria Josefina de Oliveira Correia, natural de Viseu, que seria a sua companheira inseparável e de quem teve cinco filhos, um dos quais foi o arquitecto João Correia Rebelo.

Em 1913, regressou à ilha de São Miguel onde permaneceu trinta anos, deslocando-se de vez em quando a Lisboa e participando com regularidade nas exposições anuais da Sociedade Nacional de Belas-Artes, de que era sócio e de que seria mais tarde dirigente.

A fase regionalista (1913-1942)


Pescadores de Rabo de Peixe (1937)
Apesar da sua prolongada estada em Paris e das suas variadas deslocações a Lisboa, Domingos Rebelo permaneceu sempre ligado aos Açores, ligação que se acentuou depois do seu segundo matrimónio.
Fixado em Ponta Delgada, dedicou-se à docência, trabalhando na escola onde tinha estudado, ao mesmo tempo que continuou a pintar, expondo localmente mas mantendo uma importante presença em Lisboa, nos eventos patrocinados pela Sociedade Nacional de Belas-Artes, com algumas participações internacionais.
A devoção que sentia pela sua terra natal está patente na grande maioria das suas telas deste período, nas quais retratou costumes, tradições e usos do povo açoriano, com destaque para as actividades tradicionais do mundo rural, as alfaias, os aspectos religiosos, as festividades, música e danças. Esta predominância de temas etnográficos marcam decisivamente a pintura de Domingos Rebelo, a ponto de alguns críticos o apelidarem de pintor-etnógrafo.

Igreja da Sé em Angra do Heroísmo (1920)
Ao longo das décadas de 1920 e 1930 Domingos Rebelo foi definindo a sua personalidade como pintor, afirmando um gosto cada vez mais insular. Foi este o período mais rico e criativo da sua vida, produzindo os seus melhores trabalhos e revelando a sua tendência regionalista. Na altura, vivia-se nos Açores, e em particular na ilha de São Miguel, uma complexa dinâmica social e política entre as tendências autonomistas, com raízes na Primeira Campanha Autonómica e o (re)nascimento do nacionalismo português da fase final da Primeira República Portuguesa e do período conturbado da transição da Ditadura Nacional para o Estado Novo. Neste contexto, a intelectualidade açoriana sucumbe ao chamado ‘’regionalismo’’, surgido então como uma espécie de síntese, onde sem negar a portugalidade imposta pelo crescente nacionalismo, se exaltavam valores de açorianidade. Nesta linha surgem obras como a de Gervásio Lima, de Armando Narciso ( e o Primeiro Congresso Açoriano) e de Domingos Rebelo, onde repassa um quase-romantismo serôdio, exaltando os valores açorianos, representados pelo costumes ancestrais do povo açoriano, ao mesmo tempo que se tecem loas às lusas virtudes pátrias.

Varando o Barco (1924)
Uma boa definição do movimento é dada por Luís Bernardo Athayde, então director do Museu Carlos Machado, que em 1921 publicou um artigo onde refere que o verdadeiro artista regionalista é aquele que, através da sua arte, procura contribuir para o renascimento da sua pátria e despoletar na alma portuguesa o amor pela terra natal. O regionalismo é a valorização daquilo que é popular e único na cultura de um povo e que se mantém vivo na alma e no quotidiano ao longo dos séculos. O povo torna-se objecto de estudo e campo de análise.

O regionalismo não se fazia sentir apenas na literatura, mas invadia as outras vertentes da criação intelectual, estando patente na historiografia da época (com um culto exagerado da heroicidade açoriana ao serviço da gesta lusa), na poesia, na música e nas artes plásticas. Assistia-se a uma influência mútua, onde as diversas formas de criação convergiam numa complexa, e por vezes verdadeiramente contraditória, teia de interacções.

O Jardim das Senhoras (1923)
Bem significativa deste enquadramento intelectual é a passagem de uma carta endereçada por Domingos Rebelo ao seu grande amigo Armando Cortes-Rodrigues, datada de 14 de Dezembro de 1923, onde Domingos Rebelo afirma: creio que desta vez encontrei aquilo que desejava. Depois de tantas hesitações cheguei à conclusão de que o meu temperamento era realista e que a minha Obra tem de ser feita aqui, Regionalista, sentida com máxima justeza. Este sentimento explica a tendência popular regionalizante de grande parte da pintura de Domingos Rebelo, a qual faz parte deste conjunto indissociável de obras de todos os géneros, cuja linha comum é a procura da herança primitiva, de cariz popular, presente nas manifestações mais relevantes do povo açoriano, como as festividades do Espírito Santo e do Senhor Santo Cristo dos Milagres, bem como nas paisagens e nas cenas da vida rural, abundantemente descritas e magistralmente pintadas por Domingos Rebelo.

Vacas e Fardos de Palha (1932)
Neste contexto merece referência o quadro Os Emigrantes, justamente considerado o ex-libris da pintura açoriana e a obra-prima de Domingos Rebelo. Naquela composição, a viola da terra, instrumento intrinsecamente açoriano, o registo do Senhor Santo Cristo dos Milagres e as vestes e expressões dão uma imagem pungente da açorianidade vista pelos olhos do regionalismo. A obra, considerada como uma referência obrigatória no panorama regionalista, é seguramente a imagem mais vezes editada e com maior circulação de toda a iconografia açoriana, estando presente em todo o mundo graças à diáspora açoriana. Só esta obra basta para fazer de Domingos Rebelo o pintor açoriano mais conhecido e representativo.

A Raposa (1905)
Embora residindo nos Açores, Domingos Rebelo manteve uma presença regular em certames realizados em Lisboa. Das obras apresentadas neste período, três foram adquiridas para o Museu de Arte Contemporânea, e um retrato do marechal Gomes da Costa para o Museu da Marinha.

Em 1920, com 28 anos de idade, deslocou-se ao Brasil, onde foi distinguido com a medalha de prata numa exposição efectuada no Rio de Janeiro. Alcançou também os prémios Silva Porto (com a obra Retrato de Família de 1937), Rocha Cabral e Roque Gameiro, todos galardões criados sob a égide da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Em 1922, Domingos Rebelo realizou uma exposição individual no salão nobre do Governo Civil de Ponta Delgada, no Palácio da Conceição.
A Velha com Capa (1906)

Em 1925 ganhou a medalha da Sociedade Nacional de Belas-Artes, com um magistral retrato de Viçoso May.

Em 1937, expôs no salão de festas de O Século, com honras de visita do Presidente da República. Nessa exposição, Domingos Rebelo apresentou a magnífica pintura a óleo intitulada Supremo Refúgio, uma das suas melhores composições.

Em 1939, participou numa exposição em São Francisco da Califórnia, com artistas de 79 países. Uma das suas obras foi adquirida pela entidade organizadora.

Em 1940 foi nomeado director da então Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada (hoje Escola Secundária Domingos Rebelo), cargo que exerceu até à sua partida para Lisboa, em finais de 1942. Nesse mesmo ano, realizou no ginásio do Liceu Antero de Quental, de Ponta Delgada, a sua última exposição nos Açores.



Pintor e mestre em Lisboa (1942-1975)


Infante D. Henrique (1945)
Assembleia da República
A partir de 1942 Domingos Rebelo estabeleceu-se definitivamente em Lisboa, tendo como primeira grande encomenda completar a obra a fresco iniciada pelo pintor expressionista Adriano Sousa Lopes no Palácio de São Bento, a então Assembleia Nacional, sendo da sua autoria quatro dos sete grandes painéis de temática histórico-colonial que decoram o Salão Nobre daquele palácio, hoje paços da Assembleia da República.

Como bolseiro do Instituto de Alta Cultura pôde percorrer em 1950 várias cidades italianas, visitando museus e colecções de pintura. De regresso a Lisboa, pintou os frescos da Igreja de São João de Deus, iniciando uma fase já desligada do regionalismo, durante a qual produziu centenas de quadros de temática diversificada que hoje se encontram dispersos por museus, igrejas e colecções particulares.

Para além da sua actividade como pintor, manteve-se ligado à docência e foi director da Biblioteca-Museu do Ensino Primário, instalada em Benfica, Lisboa, junto da antiga Escola do Magistério Primário de Lisboa.

Foi director e vogal da Academia Nacional de Belas Artes entre 1947 e 1970. A partir dessa data passou a ser vogal honorário.


Tomada de Ceuta (1945)
Assembleia da República
A sua ligação estreita aos Açores manteve-se, tendo permanecido largos períodos no arquipélago em períodos de lazer e para executar obras encomendadas por instituições públicas ou particulares, com destaque para os frescos que servem de fundo às salas de audiência dos tribunais de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada.

Fazem parte da obra do artista composições para tapeçarias que figuram no campus da Universidade de Coimbra, bem como miniaturas em barro de cariz etnográfico que se encontram no Museu Carlos Machado.

Domingos Rebelo manteve sempre uma postura de mestre, acarinhando os jovens pintores açorianos em início de carreira, particularmente aqueles que se deslocavam a Lisboa.

Domingos Rebelo faleceu em Lisboa no dia 11 de Janeiro de 1975. Foi um homem que orientou a sua vida segundo princípios morais e religiosos muito rigorosos e através da arte procurou a verdade e a tranquilidade da sua consciência.

Tomada de Malaca (1945)
Assembleia da República
A valorização do ambiente familiar do papel da família na sociedade constituía uma crença indiscutível para Domingos Rebelo, o mesmo acontecendo, como reflexo da sua educação, com o destaque dado à prática religiosa. Estes aspectos estão bem patentes na obra do pintor, como bem o exemplifica a tela Natal, datada de 1926, onde figura o próprio Domingos Rebelo e a sua esposa Maria Josefina, com um filho ao colo. Este mesmo culto da família e da religiosidade está muitas outras telas do pintor, numa obra onde a religião foi uma presença marcante.


Tendo sido aluno, professor e director da antiga Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, Domingos Rebelo foi escolhido em 1978 para patrono daquele estabelecimento, que a partir de 1 de Janeiro de 1979 se denomina Escola Secundária Domingos Rebelo, uma das maiores e mais prestigiadas escolas secundárias dos Açores. Por feliz coincidência, as actuais instalações da Escola situam-se na imediações do Papa-Terra, o bairro de Ponta Delgada onde o pintor viveu e trabalhou.

In: Wikipédia


Altar na Igreja de S. João de Deus, Lisboa.
Frescos de Domingos Rebêlo, de 1952.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Independência de Portugal

Ficheiro:Joao IV proclaimed king.jpg

(Aclamação de D. João IV como Rei de Portugal a 15 de Dezembro de 1640)


Painel de azulejos alusivo à conspiração de 1640,
 Palácio dos Almadas ou da Independência, Lisboa
Em 1640, quando a burguesia e a aristocracia portuguesas, descontentes com o domínio castelhano sobre Portugal que se propunha efectivar o valido Olivares, terminando com a Monarquia Dual, quiseram restaurar a dinastia portuguesa, foi ele o escolhido para encabeçar a causa. Dom João aceitou a responsabilidade com relutância, diz a lenda que incentivado sobretudo pela sua mulher Dona Luísa de Gusmão. Este facto ter-se-á devido à prudência que se impunha na escolha da conjuntura favorável, e do tempo preparatório necessário para o efeito, visto Portugal nessa época estar quase desarmado, e Castela ser ainda ao tempo a maior potência militar na Europa. Dona Luísa de Gusmão, sendo irmã do Duque de Medina Sidónia que sonhou revoltar-se com a Andaluzia de que chegou a sonhar ser rei, estaria talvez influenciada por ele.

A nomeação do Duque para governador-geral das armas de Portugal veio a ser o motor da revolta, propiciando-a. Nos fins de Junho de 1639 esteve em Almada, sendo visitado por muitos nobres, desesperados alguns com as violências do governo filipino. Entre eles, Pedro de Mendonça Furtado, acima referido, Jorge de Melo (irmão do Monteiro-mor), D. Antão de Almada e o velho D. Miguel de Almeida (da casa de Abrantes). O plano da conjura teria sido então apresentado ao Duque: eles, e seus parentes e amigos, aclamavam-no em Lisboa, apoderando-se do Paço, matando o detestado Miguel de Vasconcelos. Mas o Duque recusou, pela consciência de que «não havia ainda ocasião» e aconselhou prudência aos mais exaltados. No dia 1º de Julho, o Duque foi a Lisboa saudar a princesa Margarida e teve calorosa recepção da parte da nobreza, dos membros do clero e do povo.


1640 - A morte de Miguel de Vasconcelos

Eram factores vivos de revolta a forçada presença de muitos nobres portugueses em Madrid, e a novidade de um recrutamento de tropas lusitanas para irem ajudar a reprimir a independência recentemente declarada da Catalunha. Em Agosto de 1640, Filipe III de Portugal pretendeu convocar Cortes nos seus outros reinos de Aragão e de Valência, para aquietar o espírito dos catalães, ordenando que o acompanhassem nessa jornada também fidalgos portugueses, sobretudo aqueles que eram comendadores das ordens militares. «Todos compreenderam que partindo para a Espanha iriam acelerar o processo de absorção política que o conde-duque de Olivares pretendia», segundo Veríssimo Serrão, e «na recusa de muitos em cumprir o mandado régio terá de ver-se o detonador do movimento que veio a estalar em 1º de Dezembro seguinte.»


Houve então uma reunião em 12 de Outubro em casa de D. Antão de Almada. Mendonça Furtado foi a Évora, sondar o Francisco de Melo, marquês de Ferreira, também ele um Bragança, e outros nobres, e depois a Vila Viçosa, onde não escondeu ao Duque a urgência dos conjurados em lançarem o movimento. Para a aceitação de Dom João teriam contribuído António Pais Viegas e a duquesa D. Luísa que, segundo a tradição romântica tardia, «de maneira varonil, quebrara os receios do marido ao afirmar que antes queria morrer reinando do que acabar servindo.»


A 1 de Dezembro deu-se o golpe palaciano e, em 15 de Dezembro foi aclamado Rei de Portugal.

Fonte: Wikipédia



1952 - D. João IV (nota de 500$00)
Séries comemorativas 
da Independência de Portugal

1926 - 1ª. Emissão



1927 - 2ª. Emissão


1928 - 3ª. Emissão

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Fado - Património Cultural





O FADO
Património Cultural Imaterial 
da Humanidade





Rui Vieira Nery estuda o fado há duas décadas.

Nos últimos dez anos, fê-lo no âmbito da sua candidatura a Património Imaterial da Humanidade.

O musicólogo considera que o fado voltou a estar na moda em Portugal e que é procurado também pelos estrangeiros, fruto da visibilidade que o reconhecimento da Unesco trouxe.









Apresentou na estação de correios de Angra do Heroísmo o livro "Fado - um património vivo". Esta publicação resume o trabalho que foi feito, no âmbito da candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco?


Este livro é uma síntese do meu trabalho de investigação sobre a história do fado nos últimos 20 anos. Parte desse trabalho foi feito no contexto da preparação da candidatura e beneficia de tudo aquilo que fomos aprendendo ao longo desse processo. Umas das coisas que eu considero mais importantes na candidatura foi o processo de aprendizagem, que nós fomos todos tendo, em relação à história do fado. Fomos recolhendo informação que nunca tinha sido estudada, fomos conversando com as pessoas no terreno, com os fadistas mais velhos, que nos contaram memórias que nós fomos registando.

Fomos refletindo, analisando estudando. Hoje em dia sabemos todos nós muito mais sobre o que foi e o que é hoje fado, do que sabíamos há 10 anos, antes de pensarmos nesta aventura. O livro é uma partilha com o público em geral dos resultados daquele que é o nosso conhecimento atual sobre o fado. Remete para bibliografia mais aprofundada, mas é um bom ponto de partida e tem a vantagem de estar também traduzido em inglês e, portanto, de poder ser um instrumento de divulgação internacional desse trabalho.


E consegue chegar ao público em geral?


Isso é a grande vantagem da edição dos CTT. Por um lado, os CTT têm uma tradição de edição com grande qualidade gráfica e com um design muito bonito. Por outro lado, tem uma rede de distribuição extraordinária. Se pensarmos que nas estações de correios de todo o país o livro está à venda, são muitos mais postos de venda do que as livrarias tradicionais. Isto assegura uma distribuição a nível nacional enorme. Estamos praticamente com metade da tiragem já vendida e com fortes possibilidades de esgotar nos próximos meses, o que é muito animador para um autor e com certeza para os editores também.


Havia uma lacuna de informação sobre o fado?




O fado foi vítima durante muito tempo de uma polémica muito grande à sua volta. Como o regime salazarista procurou, sobretudo a partir da II Guerra Mundial, colar-se muito ao fado e utilizá-lo como uma espécie de emblema, isto provocou uma hostilidade muito grande da parte dos setores da oposição democrática. Os rapazes e raparigas da minha idade eram educados a não gostar de fado, porque era um dos três F's do fascismo, para além de Fátima e do futebol. Isso fez com que não houvesse investigação e estudo sistemático da história do fado, durante muitos anos. Os homens e mulheres do fado achavam que eram umas inteletualices que não tinham interesse, os académicos achavam que era um tema que não tinha validade. Este trabalho, que foi feito a partir da candidatura, tem raízes anteriores. O primeiro grande marco foi a exposição "Fado, vozes e sombras", que teve lugar no Museu de Etnologia, no âmbito da Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura. Foi uma exposição organizada pelo antropólogo Joaquim Pais de Brito e foi a primeira vez que os académicos mexeram a sério neste tema. Depois não houve muito mais. Portanto estes últimos anos têm permitido que se vá trabalhar no arquivo, que se vá trabalhar sobre fontes que até agora eram desprezadas. O meu próprio livro "Para uma história do fado", em 2004, teve alguma importância, porque foi a primeira obra de fundo sobre a temática que foi publicada, desde há muitos anos. O que se escrevia sobre fado ou era uma defesa apaixonada ou era um ataque agressivo. Havia pouca investigação. Quer a favor, quer contra, o que se dizia não era muito fundamentado. Foi importante haver este movimento de interesse pelo estudo sério, rigoroso, científico desta realidade. Estamos ainda no princípio. Há muita coisa por estudar. Este livro representa uma etapa intermédia. Agora já podemos, com mais segurança, apresentar uma síntese com base mais seguras.


Estou contente com a utilidade que eu espero que este livro possa ter. Uma coisa que me tem dado muito gosto é ver como as pessoas do fado gostaram do livro. Os fadistas vêm dizer que gostaram, que se sentiram retratados, que se fez justiça àquilo que eles estavam a fazer, que se fez um testemunho de respeito pela memória do fado. E isso é a melhor recompensa que um investigador desta área pode ter.



Dedica este livro a Carlos do Carmo, porquê?


Primeiro, porque sou grande amigo dele. É um amigo muito próximo, muito firme, tanto ele como toda a família. Depois, porque ele me encorajou muito a escrever sobre fado, aliás como aconteceu com a Amália. Ambos diziam que era um escândalo que eu, que tinha formação de musicólogo e de investigador de história da música especializada, não utilizasse essa formação para estudar um tema de que estava tão próximo, de que gostava tanto e com o qual tinha relações familiares. Eu sempre tinha vivido nesse meio, tinha acesso fácil aos protagonistas do género e eles achavam um desperdício que eu não usasse a minha formação para aplicar a este tema. Este livro não seria possível sem este empurrão. Mas também, porque, no panorama do fado do século XXI, eu acho que o Carlos do Carmo é simultaneamente um pilar da transmissão da tradição e um pilar da procura da inovação. É um homem que ainda hoje faz coisas de um atrevimento extraordinário, de uma ousadia, de uma vontade de experimentar, que eu acho que é um exemplo para os jovens fadistas, alguns dos quais muito mais conservadores e tradicionalistas que o próprio Carlos do Carmo.

Que vantagens é que a classificação da Unesco trouxe?



A entrada da lista representativa em si mesma é como a entrada no guiness. É uma coisa simbólica. Não foi só a qualidade do fado que foi reconhecida, foi também a qualidade do trabalho de preparação. A nossa candidatura foi considerada exemplar. Entre 109 candidaturas foi uma das sete que foram consideradas como um exemplo a seguir.





Qual foi o segredo?


Acho que o segredo foi trabalhar de baixo para cima. Foi trabalhar a partir da comunidade. Nós, os académicos, trouxemos competências de investigação, mas em vez de irmos com uma atitude sobranceira, arrogante, fomos aprender com as pessoas do terreno. Conseguiu-se cruzar o conhecimento científico, académico, com o conhecimento substancial das pessoas que fazem o fado no dia a dia e com as memórias que essas pessoas transportavam. É por isso que outras candidaturas têm falhado, porque são feitas no gabinete, longe dos protagonistas efetivos do género.



Esta candidatura trouxe mais visibilidade ao fado?


Trouxe uma grande visibilidade ao fado. Nós sentimos que há cada vez mais convites internacionais a fadistas, para festivais, grandes salas de espetáculos, teatros de ópera, espetáculos de televisão... Há uma visibilidade que aumenta o interesse e a curiosidade por conhecer o fado. Isto tem tido um impacto grande. Mesmo do ponto de vista nacional. As agências turísticas, por exemplo, estão a pôr mais em destaque a importância do fado como um emblema identitário. Os turistas vêm à procura de encontrar espaços. Uma coisa que estava a acontecer em Lisboa era uma grande decadência da rede de casas de fado e estamos a sentir que começa a haver uma espécie de dinamismo adicional dessa rede. Por exemplo, reabriu agora recentemente a Adega Machado, que era uma das casas de fado mais antigas, que tinha fechado. O Luso foi remodelado com grande dinamismo. Sente-se, por outro lado, que o fado é o género de música popular portuguesa que mais vende no mercado discográfico. Os concertos de fado enchem e de gente muito nova.


O fado voltou a estar na moda?


Eu acho que está na moda, o que até é um perigo, porque, de certa maneira, hoje toda a gente quer tentar disfarçar o que está a fazer como se fosse fado. Às vezes estamos a vender gato por lebre. Está-se a fazer outra coisa que tem maior ou menor validade, por si própria, mas que não precisa da desculpa de se colar ao fado. Há uma reconciliação nacional com o fado. Acabou a fase das polémicas e a partir de agora nós percebemos que a cultura portuguesa é mais do que o fado, mas não era o que é se não tivesse também dentro dela a presença do fado.


O fado tem de ser triste?



Não. O fado somos nós postos em música. Nós temos um biorritmo natural como todos os povos. É verdade que há uma tradição lírica portuguesa que é sentimental, que é nostálgica, que tem aquela componente conhecida da saudade, que tem a ver com um país que está muito ligado à viagem, à partida, à ausência, à distância... Mas também é verdade que sabemos fazer festa e o fado também se adequa à celebração. É um género que tem lugar em todos os momentos do nossos quotidiano, felizes ou infelizes.





O fado é sentido da mesma forma em todos os cantos de Portugal?




Não. O fado ficou como um fenómeno fundamentalmente lisboeta quase até meados do século XX, pelo menos até ao segundo terço, com o efeito da rádio. Tinha tido até aí alguns veículos de difusão, desde logo Coimbra, para onde ele foi logo em meados do século XIX, mas depois autonomizou-se e transformou-se num género completamente diferente. Havia alguma difusão no Alentejo e na zona da grande Lisboa, mas à escala nacional, só a partir dos anos 30 e 40 é que começa a expandir-se. É diferente cantar o fado num bairro tradicional de Lisboa, na Mouraria, em Alfama ou na Madragoa, em que esse fado está ligado à existência daquela população pobre durante muitas gerações, ou cantar o fado para alguém que contactou com ele através dos discos, da rádio, da televisão ou agora da internet. Há tipos de relação com o género que são diferentes, mas isso não significa menos autenticidade na ligação ao fado. Um jovem que nos Açores começa a cantar fado, porque ouviu os discos da Amália e do Carlos do Carmo e gostou, não precisa de ter vivido 30 anos em Alfama para sentir o fado, mas vai senti-lo à sua maneira e vai misturar os sentimentos da festa do Senhor Santo Cristo e da Chamarrita e de tudo aquilo que são as tradições locais. A riqueza do fado é a capacidade de dialogar com tradições múltiplas e ser sentido de maneiras diferentes, mas o facto de todos nós nos encontrarmos nesse contexto do fado, mesmo que vejamos nele coisas diferentes, é o que faz dele um elo de união e um elemento identitário à escala nacional, hoje em dia.







Amália Rodrigues



Estranha forma de vida


Alfredo Marceneiro


É tão bom ser pequenino


Lançamento do livro em Angra do Heroísmo







Entrevista: Carina Barcelos
Fotografia: António Araújo
In DI (30-DEZ-2012)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dia da Mãe





O Dia das Mães também designado de Dia da Mãe é uma data comemorativa em que se homenageia a mãe e a maternidade. Em alguns países é comemorado no segundo domingo do mês de maio (como no Brasil). Em Portugal é comemorado no primeiro domingo do mês de maio em homenagem à Virgem Maria e a Nossa Senhora de Fátima, mas pelas pessoas mais antigas é ainda celebrado a 8 de Dezembro.

Nos Estados Unidos, as primeiras sugestões em prol da criação de uma data para a celebração das mães foi dada pela ativista Ann Maria Reeves Jarvis que organizou em 1865 os Mother's Friendship Days (dias de amizade para as mães) para melhorar as condições dos feridos na Guerra de Secessão que assolou os Estados Unidos no período. Mais cedo, em 1858, Jarvis fundou os Mothers Days Works Clubs com o objetivo de diminuir a mortalidade de crianças em famílias de trabalhadores. Em 1870 a escritora Julia Ward Howe (autora de O Hino da Batalha da República) publicou o manifesto Mother's Day Proclamation pedindo paz e desarmamento depois da Guerra de Secessão.


Mas reconhecida como idealizadora do Dia das Mães na sua forma atual é a metodista Anna Jarvis, filha de Ann Maria Reeves Jarvis, que em 12 de Maio de 1907, dois anos após a morte de sua mãe, criou um memorial à sua mãe e iniciou um campanha para que o Dia das Mães fosse um feriado reconhecido. Ela obteve sucesso ao torná-lo reconhecido nos Estados Unidos em 8 de Maio de 1914 quando a resolução Joint Resolution Designating the Second Sunday in May as Mother's Day foi aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos instalando o segundo domingo do mês de maio como Dia das Mães. No âmbito desta resolução o Presdiente dos Estados Unidos Thomas Woodrow Wilson proclamou no dia seguinte que no Dia das Mães os edifícios públicos devem ser decorados com bandeiras. Assim, o Dia das Mães foi celebrado pela primeira vez em 9 de maio de 1914.

Com a crescente difusão e comercialização do Dia das Mães Anna Jarvis afastou-se do movimento, lamentou a criação e lutou para a abolição do feriado.


9 de Maio de 1914
Proclamação do Dia da Mãe