domingo, 26 de março de 2017

Gervásio Lima (1876-1945)

Gervásio Lima

Gervásio da Silva Lima, escritor açoriano, com uma vasta obra em prosa e em verso que inclui contos, peças de teatro e ensaios de etnografia e de história, nasceu na Praia da Vitória em 26 de Março de 1876. Morreu em Angra do Heroísmo no dia 24 de Fevereiro de 1945.


Perdeu o pai aos 5 meses de idade e viu-se forçado a ingressar no mundo do trabalho, logo após a conclusão dos estudos primários. Foi essencialmente um autodidacta, desenvolvendo desde cedo, e sem frequentar mais nenhuma escola, uma escrita cuidada e erudita e um notável acervo de conhecimentos sobre a historiografia local.


Residiu até 1914 na Praia da Vitória, onde fundou e dirigiu os periódicos “Cartão” (1903), “A Primavera” (1905) e “O Imparcial” (1907-1913). 


Com a publicação destes jornais e com o início da sua produção escrita, foi ganhando notoriedade no meio intelectual da ilha, o que lhe valeu ser contratado para a Biblioteca Municipal de Angra.


Fixou-se então em Angra do Heroísmo, onde iniciou uma carreira de 31 anos, como bibliotecário adjunto até 1917 e como bibliotecário de 1917 a 1945, o que lhe permitiu acesso permanente aos arquivos municipais e às obras existentes na Biblioteca Municipal. Naquela biblioteca procedeu à catalogação e ao estudo das mais de 3 000 obras de temática açoriana.

No campo da história não foi um investigador preocupado com o rigor científico dos temas tratados, escrevendo obras de pendor romântico, reveladoras do seu patriotismo e do amor à terra em que nasceu. Deu corpo e alma a heróis terceirenses, transformando-os em verdadeiros mitos populares.

Mantendo a actividade de jornalista, dirigiu os periódicos “O Democrata” (1914-1920), “ABC“ (1920) e “Cantos & Contos” (1935), colaborando igualmente noutros jornais.

Paralelamente estabeleceu uma vasta rede de contactos com academias e instituições científicas, o que o levou a ser sócio da Academia de Cádis, da Academia de Sevilha, da Sociedade de Geografia de Lisboa e das Sociedades de Geografia de Paris, de Genebra e de Itália.

Quando se iniciou o movimento intelectual que pretendia criar academias nas cidades açorianas, foi sócio fundador do Instituto Histórico da Ilha Terceira.

Também se empenhou na divulgação de factos e personagens ligados à história da Terceira, organizando eventos comemorativos de acontecimentos históricos, jogos florais e homenagens a terceirenses ilustres. Interessado pela etnografia e pelo folclore, recolheu e publicou textos de cantadores populares, contos e tradições orais da ilha.

A sua obra, pela divulgação que teve, foi fundamental para a construção de uma memória histórica terceirense e açoriana.

O seu prestígio era tal que lhe foram prestadas homenagens públicas pelas Câmaras Municipais de Angra do Heroísmo (1928) e da Praia da Vitória (1934), que incluíram a colocação de placas comemorativas nas casas em que viveu em ambas as localidades. Foi agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago.


Homem generoso, entregava para fins de caridade parte do produto da venda de algumas das suas publicações. Nos finais da década de 1930, viu-se obrigado a pedir uma pensão ao Estado, pois os rendimentos que auferia não eram suficientes para se sustentar a ele e a sua mãe. Faleceu pobre.

As cidades de Angra e Praia recordam Gervásio Lima na sua toponímia.

Fonte: Blog Topatudo

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Hospital dos Descobrimentos





1492
 O HOSPITAL DOS DESCOBRIMENTOS

I
OMBRO A OMBRO COM A HISTORIA

Século XVIII - Igreja da Misericórdia

A expansão ultramarina portuguesa, ini­ciada com a conquista de Ceuta, abriu a era das descobertas com a chegada ao Porto Santo, em 1417. Em 1512, António de Abreu chegava às Molucas e ao Pacífi­co, roçando a Austrália (1) e atingindo partes que Fernão de Magalhães alcançaria em 1522 pelo hemisfério espanhol. O Tratado de Saragoça (1529), deslo­cando 17 graus para Leste o meridiano de Tordesilhas, completava o abraço que os povos ibéricos deram à volta do mundo.

António de Abreu, no seu regresso a Portugal, veio morrer aqui nos Açores, e quem sabe se teria sido um dos moribundos acolhidos no Hospital do Santo Es­pírito, fundado duas décadas atrás.
É que – assim nos vamos distraindo de marcos da nossa História – foi no mesmo ano em que Colombo atingiu as Caraíbas, e até uns meses antes dessa via­gem, que se instituiu, na que então era a vila de Angra, um hospital sob a in­vocação do Espírito Santo. 
Passaram já mais de 500 anos sobre esta instituição. E é a comemoração deste acontecimento notável que nos reúne agora aqui.

O texto que se conhece como carta da fundação do hospital foi divulgado há mais de 20 anos pela mesa da Santa Casa da Misericórdia de Angra, segundo a leitu­ra dele feita por João Afonso, membro dela e do Instituto Histórica da Ilha Terceira.  É o seguinte :



«Anno do nascimtº de nosso Sor. Jesu Christo de mil, e quatro centos, e noventa e dous annos, aos quinze dias do mes demarço da ditta era em ailha Terçeira na villa dangra dentro em a caza de Santo espirito daditta vila estando o Sr joão Vaaz corte real capitão, e João Borges cavaleiro da ca­za DelRei nosso Snr., e João de laguos Juiz doditto hospital, e Afonso An­nes da Costa, e João de lameguo mordomo da ditta confraria e assi os con­frades da ditta confª, que forão todos chamados á campa tangida, e com elles Vasco Fz escudeiro delRei nosso Snr. que ora tem carreguo de prove­dor das capellas, e hospitaes, & Alberguarias em todas hestas ilhas dos assores. E loguo por todos os sobredittos juntam.te foi ditto que por ser­viço de Deus e louivor do espirito santo em hesta villa se ordenara de se fazer heste hospital, E porquanto pª semelhantes hospitaes e couzas que dão agrado e serviço de Deus era mtº necessario todallas couzas suas an­darem por regra, e ordenança em guiza que tudo viesse a boa arrecadação e nosso S.or for servido, e as almas delles todos que esta obra comessa­rão, e fazem e ordinario fazerem sejão satisfeitos e comprido pª sempre o que elles; e cada hu Delles mandão fazer nos encargos, comque dão suas fazendas pª o ditto hospital forem compridos, e andar todo emverdadeira ordem : assi o que aguora he aoprezente, como o que depois usar em tal guiza que toda seja a serviço de deus como ditto he : Disserão que era necessario fazer-se entre elles hu compromisso da ordem, e maneira, que se em o ditto hospital ha-de estar para sempre : e assi hu livro de tom­bo, em que todalas couzas hajão de ser muito declaradam.te, e os sobredit­tos todos fizerão, e ordenarão heste compromisso nesta maneira, que sese­gue.(...)» (2)
  
O Hospital começou, pois, como obra da irmandade do Espírito Santo. Só mais tarde – bastante mais tarde, diga-se – se juntou com a «Casa da Santa Mi­sericórdia». Foi em 1556, e o acordo sobre este ajuntamento também faz parte daqueles documentos publicados em 1970 : são agora os «capitolos, que sefize­rão pª o ajuntam.to das cazas do hospital, e misa. desta cidade de Angra dai­lha terceira» «aos doze de abril de mil, e quinhentos, sincoenta, e seis annos». Incluem minuciosas reservas, conservatórias dos antigos direitos da irmandade do Hospital, agora absorvida pela Misericórdia, de protecção real. Essas caute­las e ressalvas não vão ser agora aqui expostas, por falta de tempo, e só mais adiante se referirá um aspecto delas. Mas sente-se que houve uma conquista ­– um pouco como a sucessão filipina na coroa portuguesa e as garantias pres­tadas pelo rei espanhol nas Cortes de Tomar.


Rua Direita em Angra do Heroísmo
(ao fundo a Igreja da Misericórdia)
2. Por isso, a igreja do Hospital é conhecida como a igreja da Misericór­dia. E provavelmente foi a Misericórdia que a construiu – e não só esta, em que estamos, mas a primitiva, que se implantava aqui também. A igreja actual, hoje a findar a sua reconstrução, é uma das mais modernas da cidade de Angra. Data do século XVIII e a sua traça interior assemelha-se aos vários templos de uma só nave e da mesma época que se encontram, por exemplo, na cidade de Lisboa. A igreja primitiva seria, provavelmente, já do século XVI. É certo que o segundo documento publicado pela mesa da Misericórdia em 1970 e que é de 1497 tem uma epígrafe que refere, como se fosse um título : «Seguemse os Assentos.e Acordos sobre as missas do hospital e confraria do Spirito Santo. E das mais couzas dellas pertencentes. E à igreja do Spirito Santo e Caza do hospltal. que se diga missa todas as quintas feiras do anno em louvor do Spi­rito Santo». Mas esta epígrafe não é o documento de 1497 o qual, após nomear os confrades presentes, se limita a dizer que «assentarão, que se digua missa do spirito santo todas as quintas feiras de cada hu ano por louvor do Spirito Santo». É, por isto e à falta de outros elementos, mais presumível que a missa das quintas feiras fosse  celebrada em uma capela do próprio hospital e não ainda na igreja que António Cordeiro nos descreve no roteiro da cidade de Angra: «Tem mais a dita cidade, ao entrar do porto, pela famosa Rua Direi­ta, e à mão direita também, a Real Misericórdia com o seu Hospital anexo, e tudo primo fundado por el Rei, e aumentado depois por várias pessoas; é igre­ja que corre com a rua, sem se afastar da direitura da casaria, e por isso muito larga, de três naves e três como altares mores, e outros vários à roda, e menos funda do que pedia a largura, por lhe correr por detrás a rua de San­to Espírito; mas ainda assim tem todas as casas e repartições que costuma ter uma nobre Misericórdia; e logo na rua de Santo Espírito tem seu Real Hospital, e com mais largueza para trás (...) e tem a Misericórdia tantos capelães com seus ordenados, que celebram cada dia os ofícios divinos em seu coro juntos» (3).

1903 - Igreja da Misericórdia
Aqui já se apercebe uma igreja, enquadrada por duas ruas da cidade e como que condicionada por elas – feita, portanto, quando essas ruas existiam já –; e com os seus capelães e actos de culto diários.
O que resta desta primeira igreja?

As obras de consolidação e restauro da actual revelaram o que parecem ser os caboucos da igreja anterior, efectivamente voltada à Rua Direita, lar­ga e curta. Esses caboucos podem visitar-se, pois se lhes tem acesso por de­baixo do sobrado da igreja agora restaurada. Vêem-se restos mortais de gente que foi enterrada nessa primeira igreja. E sentimo-nos tentados a supor que as duas capelas que se projectam sobre a Rua do Santo Espírito possam corres­ponder a dois daqueles «como altares mores» que António Cordeiro registou. 

O hospital, «anexo», como reza a descrição, ficava do outro lado da Rua, mas ligava-se à igreja por uma passagem coberta que atravessava a mesma rua, como um arco. Linschöten desenhou assim o Sprital na sua carta de Angra, de 1595.


II
OS AÇORES NOS DESCOBRIMENTOS

Brasão de Armas Real
3. «O Senhor João Vaz Corte Real, capitão»... Quando se reflecte naquilo a que João Vaz deveu a sua capitania de Angra, mergulhamos de chofre em um capítulo da história dos Descobrimentos portugueses. Um dos mais obscuros, para não dizer mesmo um dos mais misteriosos – e por isso mesmo merecedor de uma atenção mais cuidada – : o das viagens para o Ocidente.

Gaspar Frutuoso, nas páginas que dedica a este homem – e em que, até pe­lo modo como o conta («alguns querem dizer», «dizem também») aparece a lenda e a confusão entre João Vaz e o seu próprio pai, Vasqueanes Corte-Real (4) é peremptório numa coisa : «Estando (a ilha Terceira) sem capitão, vieram Ter a ela dois homens fidalgos, por nome um deles João Vaz Corte Real e outro Á­lvaro Martins Homem, os quais vinham da Terra do Bacalhau que, por mandado de el-rei, foram descobrir e (...) a pediram de mercê por seus serviços à infan­ta D. Beatriz (...) a qual lhes fez mercê dela, e ambos a partiram pelo meio, e lograram, e possuíram seus descendentes (...)» (5).

Álvaro Martins Homem

Esta viagem ocorreu por 1472 e a doação das capitanias é de 2 de Abril de 1474; sendo que Angra se achava ao tempo já fundada e dotada mesmo de uma infra-estrutura industrial, que outra coisa não era a levada da Ribeira dos Moinhos. Por esta obra, devida a Álvaro Martins Homem – o verdadeiro fundador de Angra e seu inventor como futura cidade marítima – foi ele indemnizado quando teve de deixar a povoação ao seu companheiro mais qualificado, João Vaz, o principal daquela empresa à Terra do Bacalhau. 


Que significado teria a «descoberta» da Terra do Bacalhau, para tornar esses dois homens merecedores do prémio de uma capitania para cada um, com to­dos os seus poderes senhoriais?

4. Os historiadores contemporâneos, retomando a etimologia correcta, alargaram o conceito do adjectivo «Mediterrâneo» – inicialmente aplicado àque­le mar interior, fechado entre a Europa do Sul, a África do Norte e a Ásia Ocidental – à qualificação de outros mares entre outras terras que por via deles se relacionavam. É assim que se fala do «Mediterrâneo Nórdico» (o Mar do Norte com o Báltico) e do «Mediterrâneo Gaélico» (6).


Este último, cuja vida se anima durante a Idade Média, é um espaço marítimo que se estende da Península Ibérica à Escócia, pelo Golfo da Biscaia e o Mar da Irlanda. Ao longo deste espaço – que, nas terras circundantes, se traduz na presença de povos com raiz céltica – se desenvolveu, durante a primeira Dinastia portuguesa, boa parte das relações externas de Portugal.


João Vaz Corte Real

O pequeno país – reino, como então se dizia – que se emancipara de Leão e Castela no século XII cedo teve que se voltar para as actividades marítimas.
A sua longa costa tinha muitos portos e ancoradouros e do mar vieram importantes e decisivas ajudas para as conquistas dos primeiros réis. 
No tempo de D. Dinis, pescadores portugueses iam já pescar a águas inglesas, e os salvo­-condutos de 1294, confirmados em 1308, bem como a criação de uma bolsa de co­mércio na Flandres, atestam a intensidade destas relações (7). 

          Tais relações estreitam-se com a Inglaterra e a Flandres em termos polí­ticos durante a guerra dos 100 anos, que se estendeu de 1337 a 1453, definin­do uma linha de alianças que, de alguma maneira, apartou a um lado a Europa continental e, a outro, as (futuras) potências marítimas, marginais do solo europeu e dele excluídas pela própria natureza das coisas. Vale a pena reme­morar isto mesmo agora, com as clivagens que se vão desenhando relativamente à ainda problemática união europeia.

João Vaz Corte Real - Estátua existente no
 Museu de Angra do Heroísmo
Essas relações com a Inglaterra – e com os flamengos, seus aliados – ­atingem um ponto alto desde meados do século XIV. 
O Tratado de Londres, de 29 de Outubro de 1353, entre Eduardo III de Inglaterra e D. Afonso IV, depois o Tratado de Tagilde (10 de Julho de 1372) e o de Westminster (16 de Julho de 1373) entre Eduardo 111 e D. Fernando de Portugal, seguidos do Tratado de Windsor (9 de Maio de 1386) entre Ricardo II e D. João I, confirmam-no (8).

 Por outro lado, o casamento da Infanta Isabel com o Duque de Borgonha, senhor da Flandres, encontra-se nesta mesma linha. Este relacionamento económico-po­lítico vem a projectar-se nos Açores logo que, na segunda metade do século XV, as ilhas são povoadas e entram na História. Os flamengos estão presentes entre os primeiros povoadores. E a relação marítima com a Inglaterra tem, co­mo um dos seus expoentes, João Vaz Corte-Real, como depois teve com João Fer­nandes, o Lavrador.

Terra do Lavrador
Bristol – a antiga Brygstowe, depois Bristowe – desenvolveu-se como por­to mercantil fundamental do Mediterrâneo Gaélico. No fim do século XIV era o segundo porto da Inglaterra – o primeiro, Londres, voltava-se mais para o Me­diterrâneo Nórdico – Bristol ficava no centro de uma linha de tráfego por onde saiam panos ingleses e por onde passavam pescado do Mar do Norte, vinho, azeite e mesmo ferro da Península Ibérica (9).

 Navios portugueses lidavam nes­te tráfego e o próprio Cristóvão Colombo, na sua estância em Portugal, por ele andou, indo até à Islândia e recolhendo informes das viagens que se fa­ziam e tinham feito por essas partes do Norte. João Vaz Corte Real era homem do mar e andou por Inglaterra. Se foi ele ou o pai, Vasco Anes (Vasqueanes) o cavaleiro da Jarreteira – como refere Frutuoso – não é bem claro (10). Mas não pode negar-se a prática deste homem quanto aos mares ao Norte da Penínsu­la. Foi numa dessas viagens que João Vaz raptou, na Galiza, Maria de Abarca, com quem casou. E, em 1472, porventura em articulação com uma expedição dina­marquesa, há a viagem à Terra do Bacalhau (11). 

Arquipélago dos Açores
Esta viagem retomava a antiga rota dos normandos que, no século VI, se haviam estendido da Islândia à Gronelândia e de lá a terras ocidentais, onde fundaram uma colónia (Vinland) depois abandonada. Na costa da Gronelândia man­teve-se uma pequena colónia dinamarquesa até ao fim do século XIV, altura em que se extinguiu, à míngua de forças, de interesse prático e de ligação às metrópoles de origem (12).

 Havia, pois, bem 100 anos que os estabelecimentos nórdicos para esses lados estavam abandonados. Os islandeses, marítimos por longa tradição, pescavam no Mar do Norte, que todo ele é um grande banco, com os seus fundos não excedendo os 500 metros. Conservariam na sua memória co­lectiva esses mares ocidentais onde o bacalhau abundava – predador natural de águas pouco profundas, onde se encontravam uma corrente quente e uma cor­rente fria –. Mas quem reabriu essa rota e a actividade pesqueira que ela facultava foram os portugueses, justamente nos fins do século XV.
A Partilha do Mundo
          5. Dos Açores viajava-se para Ocidente praticamente desde o princípio do Povoamento. A viagem de Diogo de Teive e de Pero Velasco (Pedro Vazquez de la Frontera) é referida pelos biógrafos de Colombo, e está documentada em testemunhos produzidos em processos que ele sustentou em Espanha (13).

     Esta viagem, durante a qual se «descobriram» as Flores e o Corvo, parece estar na ori­gem de um interesse, mais do que curiosidade, em procurar por esses lados uma passagem para a Ásia. Paolo daI Pozzo Toscanelli, em 1429 (14) havia sido consultado precisamente sobre este assunto.

 A carta de Toscanelli ao cónego Fernão Martins é de 1474 – e recomenda que se persista no rumo do Oci­dente para atingir a Ásia. É neste contexto – anterior à concessão e à viagem de Fernão Teles (1475) e às de Fernão Dulmo (1486), e à grande viagem de três anos de Pero Pinheiro de Barcelos e de João Fernandes, o lavrador (1492/95) – que se realiza a viagem de Corte Real e de Álvaro Martins Homem, logo pre­miados com as capitanias da Terceira, que ambos ganharam.


A Terra dos Corte Reais
Há, assim, um período de meio século durante o qual se persiste nesse rumo ocidental, mas sempre segundo a rota nórdica – que até, vista a esfericidade da terra, seria sempre a mais curta –. Colombo, que viajou com os portugueses até à Islândia, deu-se conta disso. E não é difícil, antes se impõe, arti­cular estas viagens com o relacionamento marítimo entre Portugal e a Inglater­ra, que neste país se fazia sobretudo por Bristol, donde se ligava às pescas do Norte. Ao norte estava a Islândia, estavam os seus pescadores batidos nos mares boreais. Foi justamente em Bristol que João Fernandes veio a instalar­-se após a sua viagem com Pero de Barcelos. Das informações que trazia, re­sultou o apetite do rei de Inglaterra – já então Henrique VII Tudor – em ex­plorar também a rota do Ocidente. O seu instrumento foi outro genovês, João Caboto, que viajou para a Terra Nova, também em busca da Ásia, em 1497 (15).


Índia
Mas as viagens sucediam-se. O Oriente é que não estava ali. Muito embo­ra o mapa de Cantino (1502) chame à Gronelândia «a ponta da Ásia», o curioso é que ele mostra, a sudoeste dessa ponta, uma Terra do Rei de Portugal : mos­tra-a como uma ilha, sem qualquer ligação às Antilhas, também no novo mapa assinaladas já como sendo do rei de Castela. Essa referência à ponta da Ásia traz-nos inevitavelmente à ideia da passagem do Noroeste, que na verdade se­ria a mais curta se fosse praticável e não houvesse os grandes obstáculos que são as imensidões geladas do Ártico. 

Desta avançada portuguesa, feita de tenteios persistentes, e sempre reto­mando a rota normanda abandonada, não resultou encontrar-se o caminho do Ori­ente, que levaria à Índia e às suas riquezas. Mas resultou localizarem-se, ou reconhecerem-se, os grandes bancos da Terra Nova, que são os maiores pesquei­ros de bacalhau do mundo, superiores aos do Mar do Norte, ao tempo então os únicos explorados pelos escandinavos e escoceses.

Novo Mundo
Destas viagens, que procuravam «ilhas, terra firme por costa», quiçá a «ilha das sete cidades», e com elas o Oriente, que bem podia confundir-se com umas e outras, ficou uma presença portuguesa nos mares do bacalhau. Esta presença foi hegemónica, se bem que não exclusiva, durante um século. Ela permite inclusi­vamente entender os bons três anos da expedição de Barcelos e do lavrador (16) e as tentativas de povoamento, a partir dos Açores e do continente português  da costa canadiana. Tal como sucedera com os normandos da Vinland e da Terra Verde, esta colonização falhou pelo dureza do clima e o isolamento da Europa. Descendentes de Pero de Barcelos tentaram-na no século XVI. E o me­lancólico nome de Porto de Enganos, ao Norte da ilha de Cabo Bretão – depois transformado em Ninganis e hoje em Ingonish, ficou a atestar essa coloni­zação frustrada e finalmente extinta (17). 

Mas não a actividade piscatória. Tão intensa que já em 1506 o rei de Por­tugal a taxava com direitos de importação. A Terra de Corte Real manteve o seu nome nos mapas de então e a hegemonia piscatória portuguesa foi aí res­peitada (18). Até que em 1583 os ingleses estabeleceram na Terra Nova a sua primeira colónia. Curiosamente, no mesmo ano em que a herdeira dos Corte­-Reais, casada com Cristóvão de Moura, orientava a família ilustre para Espanha e para o valimento de Filipe II, finalmente vencedor da Terceira e das restantes seis ilhas que o haviam posto em xeque durante os três anos da sua longa, porventura ingénua e sem dúvida sacrificada resistência, por fidelidade a um rei português.


III
O HOSPITAL DO MAR

Rampa de acesso à Igreja da Misericórdia
6. Em 1492 estava-se ainda longe destes últimos acontecimentos. A dinâmi­ca portuguesa era ascensional. A 15 de Março desse ano, data da instituição do hospital, talvez já Pero de Barcelos e o lavrador houvessem partido para a sua demorada expedição à Terra do Bacalhau, por onde João Vaz, o principal da confraria fundadora, navegara 20 anos atrás. Colombo ainda nem preparava a sua frota de três caravelas (18-A) que sairia de PaIos de Moguer apenas em 3 de Agosto seguinte. Em 15 de Maio, dois meses depois da instituição do hospital de Angra, lançava­-se em Lisboa a primeira pedra do Hospital de Todos os Santos, que tinha a fachada principal para o Rossio e se desenvolvia em grande parte no espaço que é hoje o da Praça da Figueira.


A dinâmica era ascensional e era marítima. O novo hospital da Terceira localizou-se, por isso, à beira do mar e chegava-se a ele subindo a rampa que havia, e há, a seguir ao cais da Alfândega. Este cais era diferente do actual. Enraizava-se no lado poente da antiga foz da ribeira dos Moinhos, que Álvaro Martins Homem transformara em fonte de energia motriz e passara a desaguar por uma boca estreita mais a nascente, à beira da rocha do Corpo Santo. A ponta deste cais virava-se a sul. E era mais baixo, com paredes oblíquas, pa­ra serem facilmente galgadas pelo mar e assim melhor resistirem a ele. O cais actual pretendeu «opor-se» ao mar. Por isso este periodicamente o destrói e deixa a descoberto as pedras do primitivo, que em boa parte ainda lá estão...

Mapa de Linschoten
Como se vê da gravura de Linschöten, a mais antiga que desta zona se conhe­ce, ao lado cais havia bicas de água; à direita, o matadouro, junto à boca da ribeira; à esquerda, as casas da Alfândega; e acima, o hospital. Frutuoso relata: «Saindo da porta do mar à rua direita principal está uma formosa ca­sa da Misericórdia, com seu hospital anexo (...) grande e proveitoso refúgio de muitos enfermos e pobres da terra, e de muitos mais que pelo mar vêm de fo­ra, de muitas partes, por ser o porto desta cidade escala de muitas navega­ções" (19).
Quando Gaspar Frutuoso escreveu isto, o hospital tinha (já !) 100 anos. A sua criação, na altura em que se deu, mostra uma visão – e antevisão – das coisas que nos deixa surpreendidos e que não é propriamente timbre dos portu­gueses de hoje e mesmo dos de ontem... A esse tempo, somente a volta da Mi­na tinha Angra como escala de retorno e mais algum navio da Madeira ou da cos­ta africana.


Baía de Angra do Heroísmo
(ao fundo a Igreja da Misericórdia)
Talvez também da Terra Nova, desenhando a elipse setentrional (20), com os seus frutos, que eram do mar e não da terra, e que João Vaz, o capitão de Angra, e Álvaro Martins Homem, o seu verdadeiro fundador, haviam revelado ao mundo de então. Esta vocação de hospital portuário, oásis na ter­ra para os homens do mar, ressalta da sua localização. Mais tarde, quando a Irmandade do Espírito Santo e a Misericórdia se «ajuntaram», os confrades do hospital fizeram questão de salvaguardar uma séria de condições que mostram muitas coisas, incluindo a garantia desta vocação e as especificidades que ela impunha. «Capítulos» lhes chamaram. Eles ficaram escritos e o provedor da Santa Casa – era João da Silva do Canto, filho e irmão do Provedor das Armadas, neto de Duarte Galvão, o cronista-mór do reino e pai de Violante do Canto – de­clarou aceitá-los, com os demais irmãos.


Vista parcial de Angra do Heroísmo
(ao fundo a Igreja da Misericórdia)
 Às tantas nesses Capítulos lê-se o seguinte:

«Que os infermos, que seouverem de recolher no ditto hospi­tal, pera se nelle curarem, senão recebão, senão na ditta meza da quinta feira, oqual estara prezente com oditto Juiz, mordomo, escrivão o ftzico da caza pa ver, e repairar, diguo pª ver, E ex aminar, se se pode o tal infermo curar na ditta caza, ou não, e assi pera dar informação de toda­las couzas, que tocarem de cura dos dittos infermos, epera mais não – E os ditos offes. tão bem farão Exame, Se otal infermo tem fazenda, por on­de se cure, porque tendoa, não he razão que acaza guaste a sua com elles, pois senão fundou, senão pª pobres. E tanto que for recolhido otal infer­mo, se escreverá em Livro, que pª isso avera, no qual se pora odia, e anno, em que serecolhe, e o seu nome, e sobre nome, e deque terra he, co­mo sechama seo pai, e sua may, Eluogo se entreguara ao mordomo, pª que o mande {...), e prover, e ante delhe fazerem mezinha algua corporal, cha­marão ao capellão da caza que o venha confessar, e dar o santissimo sacra­mento da Eu charystia; e tanto que assi for confessado e communguado, En­tão o comessara a fazer de curar, segundo acalidade desua infirmidade o requerer. (...) Porque muitas vezes aconteçe, e principalm.te noverão, quan­do vem as naos da. India,_e navios daguine, e armadas, trazerem m.tos in­fermos à caza do hospital, que tem muita neçessidade de ser curados, epor virem ao dia de quinta frª, correrião periguo, se por ella esperassem, Em tal cazo o mordomo com o fizico reco lhera os taes infermos, e lhe fa­ra os remedios neçessarios com toda charidade; E porem a quinta frª loguo seguinte dara razão na mo (...) dos dittos infermos que assi quaes, equan­tos são, pª hi serem examinados pelo Juiz, e officiaes, pera verem, sesão dos que acaza he obriguada a curar, e se fazerem sobre isso as mais dili­gençias neçessarias, e segundo o que se então na ditta meza assentar, as­si se uzara, e fara com os dittos infermos.» (21).

7. Ajuntadas que foram as casas, o hospital permaneceu. E permaneceu com o seu nome, que era o da invocação sob que nascera – e que tinha força tamanha que ficou na própria rua (do Santo Espírito) para a qual abria e por cima da qual passou a comunicar com a sua igreja –. 



É de recordar que, no século XV, o Espírito Santo correspondia provavel­mente ao mais intenso culto português : e exprimia uma concepção inteiramente católica, porque universal, de um Cristianismo destinado a abarcar o mundo, to­dos os homens, por diferentes que fossem – e logo nessa altura em que, numa suces­são vertiginosa, novas terras, novas raças, novas gentes iam sendo encontra­das (22).


NOTAS

(1) K. G. MCINTYRE, «A descoberta secreta da Austrália», 66. O A. releva a prio­ridade para os portugueses na chegada ao Pacífico (Balboa só o alcançou no ano seguinte, nas costas ocidentais da América Central).
(2) «O Hospital de Angra nos Séculos XV e XVI», 4/5.
(3) «História Insulana das Ilhas a Portugal Sujeitas no Oceano Ocidental», 280.
(4) «Saudades da Terra», Lº VI, capº 8º; cf. ERNESTO DO CANTO, «Os Corte Reais», in «Arqº dos Açores» (AA), 1V, 394, com base em genealogistas portugueses.
(5) «Saudades...» cit., cap. 9º.
(6) F. MAURO, «Les Açores et la Dynamique de l'Atlantique du XV ème siècle à nos jours», in «BoI. do Instit. Histº da Ilha Terceira» (BIHIT), XLV, 1º, 12.
(7) CALVET DE MAGALHÃES, «Breve História Diplomática Portuguesa», 35/36.
(8) Ibid., 35/40.
(9) S. E. MORISON, «The European Discovery of America – The Northern Voyages», 161/166.
(10) E. CANTO, loc. cit., 386/390. Vasqueanes (pai) é que era o homem das for­ças lendárias; teria sido também o primeiro a entrar em Ceuta, e talvez um dos Doze de Inglaterra. Era filho de Vasco Anes da Costa, companheiro de D. João I.
(11) Sobre o nome «Terra do Bacalhau», E. CANTO (loc. cit., 415) duvida que lhe tenha sido dado nesse tempo. Porém LUÍS DE ALBUQUERQUE ("Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses, Séculos XV e XVIII», I, 150) refere que o nome já existia em Portugal no seco XV.
(12) S. E. MORISON, op. cit., 60/61.
(13) J. CORTESÃO, «A Expansão Portuguesa no Período Henriquino», 187/221.
(14) E. CANTO (AA, XVI, 355) situa a consulta no mesmo ano da resposta -147~~; Porém J. CORTESÃO demonstrou que em 1459 já Toscanelli tinha contactos com embaixadores do rei de Portugal («Descobrimentos Portugueses», 1141).
(15) S. E. MORISON, op. cit., 159 e ss..          
(16) E. CANTO, «Quem deu o nome ao Labrador?», AA, XII, 357 e ss. (docs. a pp.
        369 e 529).
(17) M. C. BAPTISTA DE LIMA, «A Ilha Terceira na Colonização do Continente Americano no Século XVI», BIHIT, XVIII, 5/37, e Adenda, I a XIII.
(18) V. MAGALHÃES GODINHO, «Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar», 237 e 480; F. MAURO, loc. cit., 23.
(18-A) As Capitulações de Santa Fé são de Abril. A escolha dos navios, de 30/31 de Maio. O recrutamento dos marinheiros está a decorrer a 15 de Julho (JACQUES ATTALI, «1492», 153/158, 161/162, 170.
(19) G. FRUTUOSO, loc. cit., 27 (cap. 3º).
(20) V. M. GODINHO, op. cit., 77,99, 103, 240.
(21) «O Hospital de Angra...» cit., 15/16.
(22) A. MONJARDINO, «Uma dinâmica espiritual», in BIHIT, XLV, tomo 1º, 93 e ss..

Transcrição parcial do texto do Dr. Álvaro Monjardino, escrito em 1992

sábado, 11 de março de 2017

Romeiros de São Miguel


Romeiros de São Miguel

A prática actual dos Romeiros de São Miguel, que outrora se designava por Visita às casinhas de Nossa Senhora, e que segundo a convicção actual tem a sua origem nos terramotos e erupções vulcânicas do século XVI, constitui um fenómeno etnográfico de grande interesse, não só pela originalidade de certos elementos que lhe são inerentes, mas também pela persistência dessa manifestação ao longo dos séculos. Podemos definir os Romeiros de São Miguel como grupos ou ranchos de penitentes que, durante uma das semanas da Quaresma, percorrem a pé a ilha de São Miguel e visitam todas as igrejas e ermidas onde haja exposta a imagem da Virgem Maria (cerca de 100 templos). Os ranchos de Romeiros constituem-se por freguesia e possuem uma dimensão variável, podendo ir de cerca 30 até aos 200 romeiros. Cada Romeiro apresenta-se vestido com o traje que usa diariamente, mas este traje é recoberto por acessórios que nada têm a ver com o modo de vestir do quotidiano micaelense: um xaile pelos ombros, um lenço ao pescoço; uma cevadeira às costas; um terço e um bordão na mão. O rancho, quando em marcha, adopta uma formação convencional constituida por três alas de romeiros. As alas dos lados são compostas pelos romeiros, estando à frente de cada ala os Guias. A ala do meio integra o Mestre, o Contra-Mestre, o Lembrador das Almas, o Procurador das Almas e o Cruzado.

Século XVI


1522-10-22 : subversão de Vila Franca do Campo (tremor de terra) da ilha de São Miguel, causando o soterramento da maior parte da vila, então capital de São Miguel e provocando a morte a alguns milhares de pessoas. O sismo causou ainda danos e mortes mortes em muitas outras povoações de São Miguel.


O tremor de terra de 1522 deu origem a procissões realizadas todas as quartas-feiras, à noite ou de madrugada na ermida de Nossa Senhora do Rosário construída em memória da catástrofe. A devoção à Nossa Senhora do rosário é o fundamento principal destas procissões. Alguns anos mais tarde, essas procissões foram realizadas anualmente, durante o dia e ao redor da ilha.

Esta tragédia de Vila Franca inspirou muitos escritos e pelo menos um romance de raíz oral intitulado De um Romance que se fez de algumas mágoas e perdas que causou este tremor em Vila Franca do Campo e em toda a Ilha. Este romance encontra-se registado no capítulo LXXIII do volume II do livro IV de Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso e em Cantos Populares do Arquipélago Açoriano de Teófilo Braga.


1563-06-25 : tremor de terra que causou muitas mortes e enorme destruição na ilha de São Miguel.


Durante toda a crise sísmica de 1563 foram realizadas um número considerável de procissões em toda a ilha de São Miguel. Gaspar Frutuoso enumera muitas destas procissões.



Século XVII


1630-09-02 : Tremores de terra e erupção vulcânica das Furnas, ilha de São Miguel que causou danos materiais e humanos. Foi chamado o « Ano da Cinza », pois a nuvem de cinza foi tão densa que foram necessárias tochas durante o dia e em todas as ilhas ficou a vegetação recoberta de cinza.


Durante toda esta crise de tremores de terra (durante todo o mês de Setembro e início de Outubro) foram realizadas várias procissões em toda a ilha.

O Frei Agostinho Monte Alverne, na sua obra Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores (Vol. II) ao referir-se à erupção vulcânica de 1630 que destruiu as Furnas explica que os ermitas que habitavam na ermida de Nossa Senhora da Consolação no chamado Vale das Furnas foram obrigados a deixar o dito lugar e mudarem-se para a ermida de Nossa Senhora da Conceição, Val de Cabaços, em Água de Pau. Neste contexto, ele fala da existência de uma penitência realizada pelos moradores da ilha, a de correr as casas de Nossa Senhora da ilha a pé e descalços, de dia e de noite. Também indica o número de casas de N. Sra visitadas pelos romeiros, no ano de 1635 visitavam 61 Casas, incluindo a do Val de Cabaços para pernoitar.

1650 : Origem da devoção que tem os moradores desta ilha em visitar as Cazas de Nossa Senhora.



O manuscrito intitulado Creação e Progresso da Congregação Heremitica dos Padres e Irmãos do Valle das Furnas da Ilha de Sam Miguel escravos heremittas de Nossa Senhora da Consolação que depois com a imagem da mesma e por cauza do fogo vierão habitar em Val de Cabassos valle da Piedade na hermida de Nossa Senhora da Conceipção na costa da dita Ilha yunto ao porto da villa de Agoa de Pao e redigido em 1665 pelo padre Manoel da Purificação (160?-1678), ministro da Congregação dos eremitas narra de uma maneira geral a vida dos ermitas na ilha e descreve as romarias feitas pelos habitantes da mesma. O capítulo 35, intitulado De como os sinco heremitas continuarão na ermida de N. Sra da Conceipção no Valle da Piedade de Val de Cabassos ate o anno de 650 e o fructo que fizerão apresenta elementos e detalhes referentes à devoção de visitar as Casas de Nossa Senhora da ilha, fundamento principal da prática dos Romeiros de São Miguel.


É interessante notar que na margem esquerda da primeira página deste capítulo foram acrescentados (a caligrafia é diferente da do texto principal, mas com muitas semelhanças à escrita de um dos continuadores – provavelmente o ministro Francisco Pacheco de Santa Ana – deste manuscrito.) dois elementos. Há uma data : o ano de 1650, que corresponde ao último ano de ermitagem dos eremitas no na ermida de N. Sra. da Conceição do Vale de Cabaços em Água de Pau. De seguida, há uma nota ou título: Origem da devoção que tem os moradores desta Ilha em vizitar as Cazas de Nossa Senhora e que dá a impressão que o autor desta nota associa a origem da devoção às Casas de Nossa Senhora à catástrofe – tremores de terra e erupções vulcânicas – de 1630. No texto principal são descritas algumas das características inerentes a estas romarias, cujo principal objectivo era o de visitar as casas de N. Sra. da ilha, que no ano de 1650 eram 71. De seguida, o autor refere que homens, mulheres e até mesmo crianças participavam nestas romarias, o que deixa transparecer que, nesta época, esta prática era mixta. Os romeiros percorriam a ilha descalços. Eram romarias que duravam vários dias e se relaizavam durante o dia e a noite. No entanto, era durante o verão que havia um número bastante significativo de romeiros. Os participantes eram sobretudo pessoas do meio rural.


Relativamente a esta devoção, o padre António da Assumpção (1610-1680), eremita da congregação escreveu, na fase final da sua vida, um manuscrito, considerado hoje como desaparecido, intitulado Peregrinação que costumam fazer os moradores desta ilha de Sam Miguel visitando as Igrejas de Nossa Senhora. Este título confirma, uma vez mais, a existência das romarias com a devoção de visitar as casas de Nossa Senhora.




Século XVIII


1707-06-30 : proibição, por parte da hierarquia eclesiástica, de elementos praticados nas romarias : bailes, utilização de instrumentos de música e participação feminina.


O livro de visitas da paróquia de Nossa Senhora do Rosário (1600-1743) apresenta uma visita feita em 1707 que condena e proíbe alguns elementos existentes nas romarias que têm por devoção a visita às casas de Nossa Senhora da ilha.

No capítulo quarto, o Visitador, começa por descrever alguns costumes e usos de carácter lúdico e festivo: a existência de bailes durante as romarias, a presença de instrumentos de música (guitarra) e a participação da mulher. Ele caracteriza-os de indecentes e indecorosos.

Neste capítulo são apresentados outros elementos referentes a esta prática : os fregueses desta paróquia fazem as ditas romarias visitando as casa de Nossa Senhora e também os diversos santos da ilha ; a pernoita é feita em casas de romagens e ermidas.


A segunda parte deste capítulo refere-se à proibição da participação da mulher nas romarias. O Visitador ordena para que o poder masculino – os maridos, os pais, os irmãos e os tios – intervenha no impedimento desta participação feminina.


A terceira parte é dirigida aos padres com o dever de lerem estas ordens todos os meses e sobretudo no período em que se realizam as ditas romarias. A vigilância em relação aos transgressores e os respectivos castigos são aspectos realçados nesta parte.

É importante salientar que este texto repete-se em muitas das visitas partorais que datam de 1705 e 1707 feitas às várias paróquias da ilha : paróquia de São Miguel Arcanjo de Vila Franca do Campo; paróquia de S. Pedro de Nordeste; paróquia matriz de S. Jorge em Nordeste; paróquia de Nossa Senhora da Graça no Faial da Terra; matriz de São Sebastião de Ponta Delgada.


1743-09-16 : proibição, por parte da hierarquia eclesiástica, das romarias.


A visita pastoral datada de 16 de Setembro de 1743 à igreja de S. Pedro de Nordeste revela a insistência, por parte da autoridade eclesiástica, da proibição completa das romarias. O texto mostra que, apesar da proibição feita a 1705, os habitantes da ilha continuavam a praticar esta devoção eplo menos até 1743. Provavelmente que esta resistência tenha continuado ao longo dos anos, como aconteceu com outras manifestações (festas do Espírito Santo)e o que leva a sugerir que por esta razão as romarias continuaram a ser realizadas de forma autónoma e popular, fora do contexto religioso, dito oficial e institucionalizado, mas mais próximo da religiosidade popular.






Século XIX


1817-1818 : características da prática Romeiros de São Miguel.


John W. Webster (1793-1850), durante a sua estadia nos Açores (1817-1818), escreveu o livro A Description of the Island St. Michael em que fala sobre a religiosidade da população açoriana. Ele sublinha que a penitência mais vulgar na ilha consiste em percorrer a ilha descalço, rezando em todas as igrejas e capelas e diante de todas as imagens e cruzes. Esta informação demonstra que as romarias constituíam um fenómeno antigo enraizado no sistema cultural e religioso da ilha.



1835-04-30 : proibição da prática Romeiros de São Miguel pelo Prefeito da Província Oriental dos Açores.


A prática Romeiros de São Miguel foi proibida em 1835 pelo Prefeito da Província Oriental dos Açores. O número considerável de abusos cometidos durante estas romarias parece ser a causa principal desta proibição.

Designação e características das romarias : peregrinações de romeiros pelos diversos pontos da ilha no tempo da quaresma.


1839-03-08 : proibição da prática Romeiros de São Miguel pelo Administrador Geral do distrito de Ponta Delgada.


A prática Romeiros de São Miguel foi proibida em 1839 pelo Administrador Geral do distrito de Ponta Delgada.


O número considerável de abusos cometidos durante estas romarias parece ser a causa principal desta proibição. Existência de actos, durante as romarias, considerados como abusos e escândalo para com a Religião do Estado, originando perturbação de tranquilidade pública. Os infractores serão expostos e julgados pelo poder judicial. Neste contexto de uma época de regime liberal, importa sublinhar que não se trata aqui de uma proibição da autoridade religiosa, mas da autoridade administrativa. Designação e características das romarias : peregrinações tumultuárias que se costumam fazer nesta ilha em tempo da quaresma, de homens reunidos com o título de romeiros.



1851-1863 : proibição da passagem dos Romeiros em Ponta Delgada.

O artigo intitulado “Nota Histórica Os Romeiros” do jornal A Crença publicado em 1926 e redigido pelo padre João José Tavares informa que o governador civil Félix Borges de Medeiros (1851-1863) proibíu a passagem dos Romeiros por Ponta Delgada.

Século XX


1913-1919 : autorizações concedidas para a realização das romarias.


O Livro de Registo de Licenças para Actos Religiosos (n°367) do Fundo do Governo Civil de Ponta Delgada apresenta, entre 1913 e 1919, um registo de 35 autorizações referentes à prática dos Romeiros de São Miguel. Em 1913, quatro autorizações foram concedidas. O ano seguinte conta com nove autorizações. Em 1915 houve seis autorizações e em 1919 dezasseis. No entanto, não há referência de pedido ou concessão de autorizações durante os anos de 1916, 1917 e 1918. Neste contexto, é preciso não esquecer que Portugal entrou na Grande Guerra em 1916 e que o porto de Ponta Delgada, a partir dos finais de 1917, tornou-se numa base naval norte-americana, o que provavelmente explica a ausência de documentos.


Possuir a autorização oficial para a realização das romarias era uma exigência já existente no século XIX e que se prolongou durante o século XX. Todo o tipo de manifestação de ordem pública realizava-se sob o controlo do governo civil. Num estado repressivo, como o do Estado Novo, o pedido de autorização aparece como um facto normal. É de salientar, igualmente, que as romarias não se encontravam ainda oficializadas pela Igreja, sendo consideradas como uma prática autónoma e marginal, realizadas fora do contexto religioso e institucional. Esta autonomia encontra-se bem patente no livro de registo de licenças para actos religiosos. Neste livro, é importante sublinhar que os pedidos de licença referentes às romarias não são feitos pelos padres, mas sobretudo pelos próprios romeiros, pelos mestres ou responsáveis do rancho.

Segundo vários testemunhos orais da ilha (mestres e romeiros) o pedido de licença para passar por Ponta Delgada foi obrigatório durante toda a primeira metade do século XX. Com esta licença, o rancho podia passar, sem problemas, pela capital. No entanto, os ranchos que não possuíam licença evitavam a passagem por Ponta Delgada. As explicações dadas pelas testemunhas orais sobre esta proibição de passagem divergem. Para Adriano Couto de Medeiros (mestre do rancho de romeiros dos Arrifes), ela justifica-se pelo medo e receio dos habitantes, face aos Romeiros encarados como pessoas vestidas de forma estranha e de bordões na mão, suscitando sobretudo desconfiança do que compaixão. José João de Medeiros (antigo romeiro do rancho de Ponta Garça), conta que nas vilas e freguesias onde não saíam ranchos de romeiros, a pernoita nestes lugares era tarefa difícil e a passagem em silêncio nestas vilas e freguesias era reomendada pelo mestre do rancho. Esta observação é confirmada por Francisco Maria Supico no artigo « Romagens e Romarias » do volume I do seu livro Escavações.

De facto, este autor explica que nas vilas os Romeiros entram calados, tendo antes mostrado ao administrador do concelho a licença obtida pela autoridade administrativa do distrito. O antigo romeiro João José de Medeiros acrescenta que a passagem por Ponta Delgada e Ribeira Grande devia ser feita com grande cuidado e quase que de forma invisível, despercebida, a fim de evitar escarnecimentos e troças aos romeiros. António Freitas da Câmara – Tabico (mestre do rancho de Romeiros de São Miguel de Toronto) associa a proibição ao aspecto « pitoresco » desta forma de devoção, rejeitada e desprezada pelas elites, pelos « nobres », designação dada pelos informadores. Ele acrescenta, ainda, que os romeiros que atravessavam a cidade de Ponta Delgada eram obrigados a cobrir a cabeça com o xaile. Fernando Maré (antigo mestre do rancho de romeiros da Ribeira Seca da Ribeira Grande) confirma que esta condição imposta aos romeirso existia ainda em 1959.


1921-1923 : proibição da prática Romeiros de São Miguel pelo governador civil Horácio de Medeiros Franco.

Durante o governo de Horácio de Medeiros Franco (1921-1923), as romarias foram proibidas na ilha inteira. Este governador civil proibiu esta prática por motivos de “salubridade pública”. Parece que a ilha de São Miguel foi vítima da gripe espanhola e o risco de transmissão da doença deve ter sido a causa desta proibição. Mas, a causa desta proibição suscita algumas dúvidas. A pandemia propagou-se nos Açores desde 1918 sendo prolongada provavelmente até 1919. Apesar disso, dezasseis romarias foram autorizadas em 1919. Como explicar que em 1919 houve autorizações concedidas para a realização desta prática, durante ou logo após a epidemia da gripe espanhola, enquanto que de 1921 a 1923 elas foram proibidas por motivos de salubridade pública ?

Relativamente ao perído em questão (1921-1923), uma pesquisa foi feita nos jornais micaelenses e não foi encontrada nenhuma referência, informação ou artigo relatando a presença da gripe espanhola.

1929-03-09 : retomada da prática Romeiros de São Miguel.

Em 1929, os jornais A Crença e O Autonómico publicam artigos anónimos anunciando a retomada das romarias na ilha. Seria conveniente – no contexto açoriano – saber se todos os ranchos de romeiros obedeceram realmente às proibições. Pelos vistos, parece que não, pois foi possível constatar que ao longo da história destas proibições (séculos XVIII, XIX e XX) houve uma certa resistência e transgressões às leis impostas ; a realização « clandestina » das romarias é um facto bem provável.


1956 : iniciativa de criar um documento escrito que regulamentasse as romarias: “A Regra do Romeiro”.

Antes de 1956, o conjunto de regras referentes ao funcionamento das romarias e comportamento do romeiro foi transmitido oralmente de geração em geração, como quase que um direito consuetodinário, costumeiro. Tratava-se pois, de uma tradição “movente”. A iniciativa de criar um documento escrito – A Regra do romeiro – aparece só em 1956. A necessidade de criar este documento foi formulada pelo grupo de romeiros dos Arrifes com o apoio de alguns padres. Um dos membros deste grupo, Laurénio Fernandes, antigo romeiro do rancho dos Arrifes-Saúde, com a função de procurador das almas, investiu-se laboriosamente para a aprovação de um regulamento dos romeiros. Católico exemplar e muito próximo do clero, ele era sacristão na igreja do senhor Santo Cristo em Ponta Delgada.

O processo de composição, discussão e redacção da Regra durou cerca de 6 anos (a consulta dos vários documentos relativos a este processo de criação da Regra foi possível graças ao Padre José Correia Pacheco que possui uma cópia dos mesmos). Há 7 cartas redigidas por Laurénio Fernandes a propósito do futuro regulamento e enviadas à Diocèse de Angra. Durante esta correspondência, houve 5 respostas por parte da Diocese.

1958-01-30 : entrega da Regra intitulada “Como cantam e rezam os Romeiros na Ilha de S. Miguel” ao bispo Dom Manuel Afonso de Carvalho da diocese de Angra.

Na carta datada de 07 de Setembro de 1958, Laurénio Fernandes comunica que a Regra foi enviada no dia 30 de Janeiro de 1958 ao bispo Dom Manuel Afonso de Carvalho.

Esta Regra foi um projecto do regulamento oficial, apresentado em 1958 à diocese dos Açores para aprovação. Ela foi redigida em 1956 por Laurénio Fernandes.

A Regra, texto dactilografado com um total de 36 páginas, divide-se em três partes principais. Há uma página de abertura, apresentando alguns traços históricos das romarias. De seguida o conteúdo da Regra propriamente dita é constituido por 37 pontos ou artigos diferentes1, incluindo algumas fotos do rancho de romeiros dos Arrifes. E para terminar, um apêndice que contém algumas particularidades. A capa contém o título Como cantam e rezam os Romeiros na Ilha de S. Miguel e o nome do autor, Laurénio Fernandes. O livro começa por um texto intitulado ‘Protestação’, no qual o autor explica as razões que lhe levaram a redigir este regulamento. Este texto informa igualmente que esta Regra foi compilada numa linguagem simples e próxima do sentir popular, rejeitando a presença de uma linguagem técnica. A página seguinte à ‘Protestação’ é dedicada aos agradecimentos a duas pessoas que colaboraram na revisão e dactilografia do livro.

Os 37 pontos ou artigos descritos na Regra são os seguintes :

I. Do qual o caminho a seguir para se ser Romeiro
II. Das qualidades que deve ter o Romeiro
III. Do uniforme do Romeiro
IV. Do Mestre
V. Do Procurador das Almas
VI. Dos Guias
VII. Dos oradores de 1.a classe
VIII. Dos oradores de 2.a e 3.a classe
IX. De como os Romeiros devem comungar todos os dias e assistir à missa
X. Inexistente do título e conteúdo na cópia
XI. De como o Romeiro deve manter-se em estado de pureza durante a peregrinação
XII. Das orações obrigatórias do Romeiro
XIII. O jejum do Romeiro
XIV. Das ofertas a pagar nas igrejas
XV. Do auxílio aos indigentes
A) De como se faz penitência, subvencionando um Romeiro
XVI. Do Irmão extremamente pobre
XVII. Da bebida e do fumo
A) De como o Mestre encarrega dois Irmãos de munirem o Rancho com o necessário a uma frugal alimentação
B) De como o Romeiro se encontra com sua família
C) De como se procede com o Irmão ao encontro de quem não vai a família, por motivo de pobreza
XVIII. Do Romeiro que, por razões graves, não pode encorporar-se no Rancho, no dia da saída, mas que depois lhe vai ao encontro
A) De como devem os romeiros entrar e sair nas igrejas e de como devem respeitar os respectivos Párocos
XIX. Do Romeiro que tem de abandonar o Rancho por motivo grave, que não o da expulsão
XX. De como se deve portar o Romeiro dentro das freguesias
XXI. De como procede o Romeiro nos escampados
A) De como os Romeiros prestam comevedora homenagem ao Irmão tombado em Março de 1854
B) De como se procede, ao encontrarem-se dois ranchos de romeiros
C) De como comungam os Romeiros todos os dias
D) Inexistente na cópia (no corpus desta cópia, falta uma página que devia corresponder provavelmente ao ponto D)
E) De como é dirigida a oração ao orago dum templo distante do povoado
XXII. De como o mestre faz a paz entre os Irmãos que, ao iniciarem a viagem, estavam desavençados
XXIII. Do Romeiro expulso
XXIV. Nenhum Romeiro pode intrometer-se nas admoestações do Mestre
XXV. Do descanso do Romeiro
XXVI. De como se fazem colectas para algumas despesas
XXVII. Da pernoita
XXVIII. De como o Romeiro se deve portar na casa onde dorme
XXIX. De como são acordados os Romeiros, de manhã, ou chamados à continuação da penitência
XXX. Do Romeiro que, de manhã, não foi pontual
XXXI. Do Romeiro que adoece
XXXII. De como proceder em ocasião de chuva
XXXIII. Do modo como se deve beber água
XXXIV. De como se pode aceitar vinho oferecido
XXXV. De como o Romeiro entra na sua freguesia, depois da viagem
XXXVI. De como deve proceder o Romeiro, pela vida fora, com o Mestre, o Procurador das Almas e seus Irmãos
XXXVII. Dos motivos por que a mulher não poderá ser Romeiro


1962-03-25 : Aprovação e publicação do regulamento oficial das romarias: Regulamento dos Romeiros da ilha de São Miguel – Açores.

O regulamento oficial, intitulado Regulamento dos Romeiros da ilha de São Miguel – Açores foi revisto e corrigido por Dom Manuel Afonso de Carvalho da diocese de Angra. Ele foi aprovado e publicado no Boletim Eclesiástico dos Açores (Janeiro – Dezembro 1962). O regulamento é composto por 7 capítulos e 36 artigos.

Os 7 capítulos principais descritos no Regulamento são os seguintes :

I. Natureza e Fins dos Romeiros
II. Condições do Romeiro
III. Organizadores dos Romeiros
IV. Normas a observar pelos Romeiros
V. Recomendações e costumes a conservar
VI. Determinações especiais
VII. Penalidades



1989-01-13 : publicação de uma nova versão do regulamento oficial das romarias: Regulamento dos Romeiros da ilha de São Miguel.


Em 1989, aparece uma nova versão, actualizada desta vez pelo Grupo Coordenador das romarias de São Miguel, e aprovada por Dom Aurélio Granada Escudeiro. Este regulamento contém o mesmo título – Regulamento dos Romeiros da Ilha de São Miguel -, a mesma forma e o mesmo número de capítulos que o regulamento precedente (1962). No entanto, algumas modificações foram feitas e acrescentados novos elementos, sobretudo no que diz respeito à preparação religiosa dos romeiros, à composição dos principais membros do rancho ou ainda os deveres do romeiro no após-romaria.




Século XXI


2003-05-04 : publicação de uma nova versão do regulamento oficial das romarias: Romeiros de São Miguel Regulamento.

Em 2003 é actualizado e publicado o regulamento dos Romeiros de São Miguel. Redigido pelo Grupo Coordenador dos Romeiros de São Miguel e aprovado pelo actual bispo da diocese, Dom António de Sousa Braga, este regulamento é composto por 4 capítulos e 52 artigos. O regulamento apresenta-se em forma de livro intitulado Romeiros de São Miguel Regulamento com um total de 50 páginas. Muito mais extenso do que os regulamentos anteriores, ele aproxima-se consideravelmente, pela sua forma, conteúdo e linguagem técnica, do texto jurídico ; os capítulos estão subdivididos em secções e em subsecções, cada uma delas contendo um ou mais artigos.

Os 4 capítulos principais descritos no Regulamento são os seguintes :

Capítulo I – Das Romarias Quaresmais (pp. 11-37)
Capítulo II – Do Grupo Paroquial de Romeiros (pp. 39-42)
Capítulo III – Do Grupo Coordenador (pp. 43-48)
Capítulo IV – Diversos e Disposições Transitórias (pp. 49-50)





Texto obtido através do site:    http://www.tradicoes-acorianas.com , da autoria da Dra. Carmen Ponte