sexta-feira, 25 de maio de 2018

Ermelindo Ávila (1915-2018)

 
Ermelindo Ávila
18 Setembro 1915 / 25 Maio de 2018

Ermelindo Ávila, nasceu na vila das Lajes, no Pico, a 18 de Setembro de 1915. Casou com Olga Lopes Neves, e teve nove filhos. Comendador da Ordem de Mérito (Presidência da República) e recebeu a Insígnia Autonómica de Reconhecimento, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores.

 Estudou Filosofia no Seminário de Angra e, entre 1938 e 1954, foi ajudante do Cartório Notarial e dos serviços de Registos e do Notariado. Em 1940 foi nomeado Administrador do Concelho das Lajes do Pico e Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal. Em 1941 é nomeado Presidente da Câmara deste concelho. Ingressou no quadro administrativo da Câmara Municipal das Lajes do Pico em 1954. Foi chefe de secretaria da Câmara Municipal da Madalena e na Câmara Municipal das Lajes do Pico, onde se aposentou em 1984 como Assessor Autárquico.



 Recebeu a medalha de prata do concelho, pelos serviços prestados durante 46 anos e, nas comemorações do V Centenário do concelho das Lajes do Pico, foi-lhe entregue a chave número um do Município.


 Ermelindo Ávila iniciou a sua atividade jornalística em 1932, no semanário O Dever, de que foi editor entre 1938-1954, e colaborou em vários jornais e rádios regionais. Foi também correspondente dos jornais O Século e Diário de Notícias de Lisboa.





 Proferiu palestras sobre a história e cultura picoenses na ilha do Pico, noutras ilhas açorianas e em comunidades emigrantes dos Estados Unidos e Canadá.




 Com dezenas de livros publicados as suas últimas obras foram, Crónicas e Contos de Natal do Avô Ermelindo lançado no dia 25 Abril passado no Auditório do Museu dos baleeiros, A Matriz da Santíssima Trindade das Lajes do Pico (2017), Culto Mariano na Ilha do Pico (2016), Nossa Senhora de Lourdes (2015) e A Terra e o Mar. Crónicas do meu sentir (2015). 


 Membro e sócio de variadas associações culturais, recreativas, desportivas e de beneficência ao longo da sua vida, desempenhando vários cargos nessas instituições. De destacar o seu papel na comissão instaladora do Museu dos Baleeiros da qual foi um dos seus fundadores e mentor.


 Faleceu aos 102 anos após uma longa vida a defender as sua ideias e a sua terra que tanto amava.






Texto obtido no Facebook, página Cultura Açores, criado por Rui Brum Ávila

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Simbologia Açoriana


O Brasão

1820 - Brasão de Armas

O Brasão de Armas da Região Autónoma dos Açores foi aprovado pelo artigo 3.º do Decreto Regional n.º 4/79/A, de 10 de Abril. O brasão é uma nova representação heráldica já que tradicionalmente (pelo menos desde os anos 80 do século XVIII) os Açores (embora sem sanção oficial) aparecem associados heraldicamente a um açor estilizado (semelhante ao incluído no actual brasão) rodeado por nove estrelas, geralmente de cinco pontas.




Descrição do Armorial

A descrição completa do brasão de armas é a seguinte:
  • Escudo: de prata, açor estendido de azul, bicado, lampassado, sancado e armado de vermelho, bordadura de vermelho, carregada de nove estrelas de cinco raios de oiro;
  • Elmo: de frente, de oiro, forrado de vermelho;
  • Timbre: açor sainte de azul, bicado e lampassado de vermelho, carregado de nove estrelas de cinco raios de oiro;
  • Paquife: de azul e prata;
  • Suportes: dois toiros de negro, coleirados e acorrentados de oiro, sustendo o da dextra um balção da Ordem de Cristo, com lança azul, ponta e copos de oiro, e sustentando o da sinistra um balção vermelho, com uma pomba estendida de prata, com lança azul, ponta e copos de oiro;
  • Divisa: «Antes morrer livres que em paz sujeitos».

O açor estendido representa as ilhas, numericamente definidas pelas nove estrelas de cinco raios de oiro; o esmalte (vermelho) da bordadura e o metal (oiro) dos seus móveis (estrelas) são idênticos às cores da bordadura do Brasão de Portugal. O açor de azul e o campo de prata definem as cores dos Açores, que são, de resto, as que sempre foram historicamente utilizadas desde o tempo da monarquia constitucional.

Os suportes (toiros) acorrentados pretendem simbolizar uma das mais importantes fontes de riqueza dos Açores, ou seja a bovinicultura, simbolizando o animal ao serviço do açoriano. Os dois balções (lanças com bandeira) representam a Ordem de Cristo, donatária dos Açores ao tempo da colonização, e o símbolo do Espírito Santo (a pomba), um dos mais antigos e fervorosos cultos da gente dos Açores.
A versão autêntica do brasão foi publicada em anexo ao Decreto Regulamentar Regional n.º 41/80/A, de 31 de Outubro.

A Divisa


Brasão de Armas do Exército
no Castelo de São João Batista
em Angra do Heroísmo
A divisa Antes morrer livres que em paz sujeitos é retirada de uma carta escrita a 13 de Fevereiro de 1582 por Ciprião de Figueiredo, então corregedor dos Açores e grande apoiante de D. António I, Prior do Crato, ao rei Filipe II de Castela recusando-lhe a sujeição da ilha Terceira em troca de mercês várias. Em resposta à proposta de Filipe II, Ciprião de Figueiredo diz:

 "… As couzas que padecem os moradores desse afligido reyno, bastarão para vos desenganar que os que estão fora desse pezado jugo, quererião antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores desta ilha outro conselho … porque um morrer bem é viver perpetuamente



Antes de ser adoptada pelo parlamento açoriano como divisa da Região Autónoma dos Açores, a frase já era utilizada como moto das diversas unidades militares que ao longo dos últimos três séculos estiveram aquarteladas no Castelo de S. João Baptista do Monte Brasil, em Angra do Heroísmo.






O Hino dos Açores

Aristides Moreira da Mota

O Hino dos Açores terá sido tocado em público pela primeira vez pela Filarmónica Progresso do Norte, em Rabo de Peixe, São Miguel, a 3 de Fevereiro de 1894.

Nesse mesmo dia, António Tavares Torres, então presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal da Ribeira Grande, acompanhado de um grupo de amigos e da Filarmónica Progresso do Norte, foi a Ponta Delgada apresentar o hino.

Depois da Filarmónica o ter executado em frente das residências dos membros da Comissão Eleitoral Autonómica, ao anoitecer, reuniu-se no Campo de São Francisco um largo grupo de apoiantes da autonomia, que depois percorreu as ruas da cidade em direcção ao Centro Autonomista frente ao qual se realizou um comício autonomista da campanha para as eleições gerais daquele ano. No comício discursaram, entre outros, Caetano de Andrade, Pereira Ataíde, Gil Mont'Alverne de Sequeira e Duarte de Almeida.


Gil Mont'Alverne de Sequeira
A 14 de Abril de 1894, dia das eleições gerais em que foram eleitos deputados autonomistas os Gil Mont'Alverne de Sequeira, Pereira Ataíde e Duarte de Andrade Albuquerque, realizou-se um cortejo pelas ruas de Ponta Delgada, integrando filarmónicas que tocavam o Hino da Autonomia, que os acompanhantes cantavam.

A 9 de Março de 1895, as filarmónicas também tocaram o Hino da Autonomia na Praça do Município de Ponta Delgada, numa festa organizada para assinalar a promulgação do Decreto de 2 de Março de 1895, que concedia, embora mitigada, a tão desejada autonomia.


Ao longo dos anos, e em função da evolução política, o hino terá tido várias letras.



A primeira que se conhece é a do Hino Autonomista, na realidade o hino do Partido Progressista Autonomista, liderado por José Maria Raposo de Amaral, então maioritário em São Miguel.

A composição é da autoria do poeta António Tavares Torres, natural de Rabo de Peixe e militante daquele partido. Fruto do calor autonomista do tempo, a versão original do hino tinha a seguinte letra:



Voz:
O clamor açoriano,
Em sã justiça fundado,
Pede essa ampla liberdade
Que se deve a um povo honrado.
Refrão:
Para nós é vergonhosa
A central tutela odiosa,
Que em nossos lares recai.
Povos! Pela autonomia
Batalhai com valentia,
Com esperança batalhai!
Voz: Autonomia... eis o lema
Do ideal açoriano
Negá-la seria um crime;
Combatê-la desumano.
Refrão:
Para nós é vergonhosa
...................
Voz:
Quando um povo se ergue à altura
Da sua nobre missão,
Põe na Carta d'Alforria
A mais nobre aspiração.
Refrão:
Para nós é vergonhosa
...................
Voz:
Quase em cinco séculos temos
Sempre honrado a pátria glória.
Deve a pátria agora honrar
Os anais da nossa História.
Refrão:
Para nós é vergonhosa
...................
Voz:
Eia! Avante Açorianos,
É já tempo, despertais!
Pela santa Autonomia
Com denodo trabalhai.
Refrão:
Para nós é vergonhosa
...................


O texto do Hino dos Açores, da autoria de Natália Correia, oficialmente adoptado pelo Decreto Regulamentar Regional nº 49/80/A de 21 de Outubro, é o seguinte:

Deram frutos a fé e a firmeza
no esplendor de um cântico novo:
os Açores são a nossa certeza
de traçar a glória de um povo.
Para a frente! Em comunhão,
pela nossa autonomia.
Liberdade, justiça e razão
estão acesas no alto clarão
da bandeira que nos guia.
Para a frente! Lutar, batalhar
pelo passado imortal.
No futuro a luz semear,
de um povo triunfal.
De um destino com brio alcançado
colheremos mais frutos e flores;
porque é esse o sentido sagrado
das estrelas que coroam os Açores.
Para a frente, Açorianos!
Pela paz à terra unida.
Largos voos, com ardor, firmamos,
para que mais floresçam os ramos
da vitória merecida.
Para a frente! Lutar, batalhar
pelo passado imortal.
No futuro a luz semear,
de um povo triunfal.


A Bandeira dos Açores




A Bandeira dos Açores foi aprovada pelo Decreto Regional nº 4/79/A, de 10 de Abril, e regulamentada pelo Decreto Regulamentar Regional nº 13/79/A, de 18 de Maio. Corresponde, com pequenas alterações de estilização e com a adição do escudete português no canto superior, à bandeira hasteada pela primeira vez em 1893, na Ilha de São Miguel, durante a primeira campanha autonomista do século XIX.
Nos termos do artigo 2.º do diploma legal que a aprovou, a bandeira dos Açores tem a seguinte descrição vexilológica:
  • A bandeira tem a forma rectangular, sendo o seu comprimento uma vez e meia a altura.
  • A bandeira é partida de azul-escuro e branco.
  • A divisão do lado da haste tem dois quintos (40%) do seu comprimento, tendo a outra divisão três quintos (60%).
  • Ao centro, sobre a linha divisória, tem um açor voante, de forma naturalista estilizada, de oiro.
  • Por cima do açor, e em semicírculo, tem nove estrelas iguais, de oiro, com cinco raios.
  • Junto da haste, no canto superior, tem o escudo nacional português.
1830 - D. Maria II
As cores que são as mesmas da bandeira da monarquia liberal portuguesa que foi aprovada por decreto de 18 de Outubro de 1830, assinado em Angra, onde então estava instalada a Regência do Reino. Aquela bandeira foi hasteada pela primeira vez no Castelo de São João Batista no Monte Brasil, da cidade de Angra ainda nesse ano. A primeira bandeira hasteada, e que se conserva no Museu de Angra do Heroísmo, diz-se ter sido bordada pessoalmente pela rainha D. Maria II de Portugal.



Bandeira bordada por
D. Maria II
Na bandeira dos Açores, para além do escudete português, simbolizando a ligação do arquipélago e dos açorianos a Portugal, foi incluído um açor, ave associada ao nome do arquipélago, e nove estrelas de cinco raios que simbolizam as nove ilhas habitadas que compõem o arquipélago.

O desenho oficial da bandeira foi publicado em anexo ao Decreto Regulamentar Regional n.º 13/79/A, de 18 de Maio, tendo-se optado pela utilização na parte azul-escuro da bandeira do designado azul ultramarino.


A bandeira dos Açores foi oficialmente hasteada pela primeira vez a 12 de Abril de 1979 nas sedes dos departamentos da administração regional autónoma, havendo nessa tarde o encerramento de todos os serviços oficiais (Despacho Normativo n.º 21/79, de 12 de Abril, e Despacho Normativo n.º 22/79, de 12 de Abril).






1986 - Freguesia dos Ginetes - São Miguel





1980 - Moeda comemorativa da RAA



1895/1995 - Moeda comemorativa
do Centenário da Autonomia dos Açores

1986 - Moeda comemorativa
do 10º aniversário da Autonomia dos Açores



1895/1995 - Medalha comemorativa
 do centenário da Autonomia dos Açores

1895/1995 - Medalha comemorativa
do centenário da Autonomia dos Açores

domingo, 20 de maio de 2018

Em Louvor do Divino

 




AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO NA TERCEIRA







 










Império da Serreta - Terceira
Espírito Santo... Deus... Misericórdia..., assim reza o nosso povo.

          E é em louvor do Divino que vou explicar:




Império de São Sebastião - Terceira
Casa do Imperador, altar armado de cetins, lumes e flores, a coroa é feita em lata pobre, mas com a maior devoção do mundo está em destaque no cimo do altar.

À noite parentes e amigos rezam o terço, porque depois há lugar à folia numas quadras mal rimadas ao desafio ou num bailo armado onde nunca falta a chamarrita.

Ao lado tudo está pronto, porque no Domingo depois da missa todos se apressam não vá faltar lugar para comer umas sopas e saborear a alcatra bem regada com o vinho de cheiro que abundantemente circula de mão em mão em canjirão cheio e fresco.

As festas na Ilha Terceira iniciam-se no limiar do ano novo e terminam na noite de S. Silvestre.       



Império das Quatro Ribeiras
Praia da Vitória
O dia de Pentecostes é festejado popularmente em todas as Ilhas dos Açores, como sendo um dos mais importantes celebrados pelo mundo católico. Não há em todas as outras solenidades religiosas, como Natal e Páscoa, Corpo de Deus e Imaculada Conceição, o mesmo entusiasmo, a euforia, a mesma alegria comunicativa, que se regista no dia de Pentecostes e no da Santíssima Trindade sobretudo, na Terceira, os festejos populares do Espírito Santo, chegam a atingir o auge. Não sendo de uma solenidade religiosa levada a efeito na Igreja, é o povo que os promove reunindo-se, para tal fim em associações a que embora chamem irmandades, não se podem canonicamente considerar como tal por não, serem eretas, em igrejas ou capelas públicas.

É nisto, que está a maior prova da devoção pelo Espírito Santo por tais festejos não partirem da igreja, mas do povo que espontaneamente os promove, conservando assim uma tradição de séculos.





Império dos Quatro Cantos - Terceira
Como pródromo destas festas em Portugal, reportam-se os historiadores à confraria instituída por D. Isabel de Aragão, em Alenquer, a que chamaram Império, convocando no dia de Pentecostes do ano de 1296, clero, nobreza e povo, a tomarem parte nas solenidades religiosas realizadas quando da, sua inauguração. Deviam ser impressionantes todas as cerimônias realizadas nesse dia. De entre os pobres assistentes aos ofícios litúrgicos, realizados na capela real, convidou-se o mais pobre de entre eles a ocupar sobre o dossel da capela-mor, o lugar, do Rei, que lhe serviu de condestável e os áulicos de págens. Ali o pobre ajoelhou-se sobre rico almofadão destinado ao Rei e nessa postura o bispo do paço lhe colocou na cabeça a coroa real, enquanto, entoava o hino “Veni Creator Spiritus”.

Assim investido das insígnias reais, assistiu o pobre à celebração da missa, como igualmente assim se dirigiu depois ao paço real, onde lhe foi oferecido um lauto jantar servido pela Rainha.

“…  Tão tocante cerimônia encontrou eco nos fidalgos da corte, que, desejando seguir o exemplo da abnegada humildade dos seus soberanos, a quiseram pôr em prática. Com autorização do Monarca mandaram fazer coroas em tudo semelhantes à coroa do Rei, tendo no centro um medalhão com os símbolos da Santíssima Trindade, passando depois a fazer no dia de Pentecostes, cerimônias idênticas às do paço real …”

Foram precisamente essas coroas que os donatários das Ilhas dos Açores trouxeram para o Arquipélago, onde, no dia de Pentecostes passaram a usar o mesmo cerimonial iniciado na corte de D. Diniz e D. Isabel.

Presentemente as coroas já não são do mesmo tipo da época. Feitas de prata batida com relevo, assim como todo o seu conjunto, partem do largo aro, onde se vê uma pomba em relevo de asas abertas, quatro braços ou imperiais, que erguendo-se em forma convexa, se reúnem no topo, sustentando um globo sobre o qual se ergue uma cruz, ou pousa uma pomba em atitude de vôo. Quando a coroa não está na cabeça, o cetro é apoiado no aro, por entre os braços ou imperiais da coroa, descansando o todo sobre uma salva, ou seja, um prato liso de 

prata com cercadura lavrada, munida de um suporte, alargando na base, a que chamam o pé da salva e que serve para a apoiar com a coroa sobre o altar ou mesa. No lado detrás da coroa há um laço de largas fitas de seda branca, cujas pontas caiem, sobre as costas, quando a coroa está pousada na cabeça.



Coroação

Nestas Ilhas, a devoção dos fidalgos pelo Espírito Santo, passou ao povo, democratizando-se. Mas a tarefa era grande demais para um só e exigia o esforço de vários. Para a levar a cabo as populações dos diversos lugares e freguesias associaram-se, cada qual entre si, concorrendo com o seu óbolo, para que as festas do Espírito Santo em nada desmerecessem das dos fidalgos. Aqui e ali, fora de qualquer ação da Igreja, ergueram-se os impérios, espécies de capelas onde se colocam as coroas.




Os Foliões


Construídos a pedra e cal nos terreiros das freguesias, constam de uma pequena quadra de trinta metros quadrados, tendo ao centro uma porta e janela e no interior um altar com um trono. O frontispício, ergue-se em forma de ermida, cumulando com uma coroa de pedra e tem no tímpano uma pomba de pedra em relevo, com a legenda Glória ao Divino. Se a freguesia é muito dispersa e muito extensa há, por vezes mais de que um império, havendo freguesias em que se contam, dois, três e quatro impérios. Anexo ao império ou desviado dele, mas sempre nas proximidades, há a dispensa, edifício onde se arrecada o pão, a carne, o vinho e todos os utensílios do império. Junto à dispensa ergue-se um mastro ou mastaréu onde se iça uma bandeira em todos os domingos a partir do sábado, de Aleluia, até à segunda-feira seguinte ao domingo da Trindade. Estas bandeiras são de pano comum, geralmente branco e pintadas com ornamentos, que por via de regra, representam a pomba e a coroa




O Bodo no Posto Santo - Terceira
    
Nas freguesias rurais, os impérios constituem propriedades do povo desses aglomerados populacionais. Aos chefes das famílias e aos filhos varões de maior idade, compete a administração dos impérios, para os bodos e festejos a realizar nos domingos de Pentecostes e da Santíssima Trindade, havendo uma comissão para cada império.

As comissões administrativas compõem-se de um presidente e de cinco vogais. Ao primeiro dá-se o nome de Procurador e aos outros o de irmãos esmolares, mordomos ou governantes, consoante os lugares. O procurador de uma gerência futura é sempre nomeado por sorteio, segundo os nomes apresentados pelo procurador e irmãos esmoleres da gerência anterior.

 


Coroação na Rua da Sé

As coroas do Espírito Santo, há uma para cada Domingo, são sorteadas pelas casas da freguesia a título precário, cabendo aos efeitos terem uma delas em suas casas pelo espaço de oito dias no tempo que decorre desde o domingo de Páscoa até ao domingo da Santíssima Trindade. Ao chefe de família ou filho - "a quem saiu o Senhor Espírito Santo" - chamam então imperador. A este ato do sorteio chamam tirar os pelouros. O acontecimento é igualmente anunciado da porta do império em alta voz.

Terminado o período de estação da coroa numa casa, sempre num domingo depois do entardecer, o imperador, a quem toca a coroa no período seguinte, vai buscá-la, trazendo-a para casa acompanhado de um cortejo de homens e mulheres em duas alas, que seguem caminho cantando a Avé Maria.
Independentemente dos pelouros para o sorteio da coroa, há ainda o de outros cargos e encargos, que também são sorteados e anunciados, como, por exemplo, o mordomo do fogo e os seus onze companheiros, que têm a seu cuidado a aquisição dos foguetes e fogo de artifício; o encargo de se celebrar cinco missas por alma de qualquer pessoa ou pessoas à discrição do sorteado, o de concorrer para o bodo do ano seguinte com vinte pães. Todos estes pelouros são anunciados do portado império à assistência que circula em frente, gozando o arraial que se desenrola em frente no terreiro.



 
 
Fontes: Francisco Ferreira Drummond, in “Annaes da Ilha Terceira”
 
  www.portaldodivino.com


OS IMPÉRIOS DO DIVINO ESPÍRITO SANTO NA ILHA TERCEIRA

Com as primeiras famílias de colonos que vieram habitar os Açores após a sua descoberta no século XV, vieram as tradições etnográficas, a religiosidade, as crenças e um conjunto de factores que devido à insularidade das ilhas não permitiu grandes alterações até aos nossos dias.




                      Império do Outeiro
    Conceição, Angra do Heroísmo (1670)
Trata-se do Império mais antigo da Ilha Terceira
 e quiçá um dos primeiros, senão o primeiro,
a ser construído nos Açores.


Neste parâmetro temos o Culto ao Divino Espírito Santo com muito poucas alterações desde esses tempos remotos. No presente, onde as ligações por barco e mais destacadamente por meio dos aviões, entre a Europa ou Américas com os Açores, não levou o povo açoriano a abandonar, como aconteceu no Continente ao longo dos séculos, esta crença e devoção à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que foi iniciada, segundo a lenda, nos tempos da Rainha Santa Isabel, esposa do nosso Rei D. Dinis. Os açorianos souberam sempre manter bem viva esta chama na devoção ao Divino.










Mas se olharmos pela Diáspora açoriana temos a prova da preservação deste Culto dos Açores mesmo daqueles que, no século XVII, emigraram para outras terras à procura de melhor futuro. Assim, por exemplo mais marcante, no Estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, existem cidades onde as maiores festividades estão ligadas ao Divino Espirito Santo, e muitas delas, como São José de Terra Firme, não existe diferença alguma com as que são realizadas nos Açores. Tudo, mesmo tudo, é uma cópia viva das que se realizam, nos nossos dias, por todas as ilhas açorianas, das quais destacamos as coroações, os estandartes, o Bolo de Leite, as filarmónicas, o cantar de porta em porta (por muitos conhecido por Pezinho) e outras tradições que não se diluiriam com o passar de mais de três séculos. Nos Estados Unidos da América do Norte onde as gentes açorianas se fixaram há mais de cem anos, tanto no Estado da Califórnia como na Nova Inglaterra, realizam-se por toda a parte, onde há açorianos, as festas em devoção ao culto do Divino Espirito Santo, sendo no presente a maior manifestação de fé fora do espaço físico da Região dos Açores, e que se realizam na cidade de Fall River, em Massachussets, onde anualmente se concentram mais de 150 mil devotos vindos, na sua maioria vindos, de cidades e vilas daqueles Estados à beira do Atlântico (Massachusets, Rhode Island, Connecticut, New Jersey, New York, New Humpshire e até do Canadá, principalmente das Provinciais do Ontário, Manitoba e Quebec).




Império de São Carlos
Terceira
Mas voltando aos Açores queremos dizer que em todo o arquipélago é na ilha Terceira onde as festas de devoção ao Divino Espirito Santo toma proporções maiores, tão grandes que tomamos a liberdade de afirmar que é, na prática, a continuação das celebrações da Páscoa, com o seu auge no Dia de Pentecostes onde se celebra em dois Domingos de Bodo, e do ressuscitar de Jesus, com a descida do Espirito Santo sobre os apóstolos. No entanto, em muitas freguesias daquela ilha, esta festividade é estendida para outros dias do ano.

Desde a povoação dos Açores, por gente do reino, após a sua descoberta pelos navegadores portugueses, que o Culto ao Divino foi a principal fonte da crença religiosa cristã até porque os cataclismos, na forma de terramotos e actividade vulcânica que se fazia sentir periodicamente, incutia o temor nas populações pelo que estas se refugiavam na fé e nas orações ao Divino Espirito Santo para desta forma obter a clemência do Criador e assim serem poupados da destruição e da morte.





Altar em Louvor do Divino
Por todas as ilhas existem pequenas capelas, na sua maioria na vizinhança das igrejas, onde os seus interiores são decorados sobriamente com um altar coberto por cetim imaculadamente branco e com flores frescas e aromáticas onde se encontra uma coroa de prata e ceptro que simboliza o poder da Trindade.






Mas é na ilha Terceira onde existe a maior
quantidade de Impérios, cerca de 70 se não estamos errados, com algumas freguesias com dois e três, como é, neste ultimo caso, a Ribeirinha. Todos estes Impérios começaram a ser edificados nos fins do século XVII e hoje quase na totalidade são de pedra ou bloco, materiais que substituíram os mais antigos então edificados em madeira dando-lhe uma maior consistência e segurança.

Também há algo que diferencia estes Impérios dos outros espalhados pelas restantes ilhas, pela pintura das paredes exteriores, de cores garridas e terem, todos eles, apenas duas janelas e uma porta na fachada principal sobre a qual se encontra normalmente uma coroa embora os haja com uma pomba, o símbolo do Espírito Santo.





 

2014-08-14 - Sobrescrito e carimbo comemorativos
do Bicentenário do Império de São Carlos

 
 

Normalmente a área do interior não ultrapassa os 30 metros quadrados e muitos destes Impérios têm outra pequena adição, chamada de dispensa, onde é armazenado o pão, a carne e o vinho bem como outros materiais relevantes para os festejos.


Fonte: Carlos Morgadinho 








Arroz Doce
Em Louvor do Divino






Festas do Espírito Santo nos Açores





A Simbologia da Coroa do Espírito Santo