quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Castelo de São Sebastião


O CASTELO DE SÃO SEBASTIÃO
 DE ANGRA DO HEROÍSMO


Castelo de São Sebastião
(Castelinho)
A pirataria aparece nos mares dos Açores logo nas primeiras décadas do século XVI, mas só pelos anos cinquenta surgiu fundado receio de que as acções de pilhagem pudessem atingir o próprio porto de Angra, na Ilha Terceira, então escala obrigatória nas viagens de retorno das Índias.

1881 - Planta do Castelinho (Damião Pego)
Simultaneamente com o artilhamento do Castelo de São Cristóvão (Memória), manifestamente inócuo na perspectiva defensiva da baía, Tomasso Benadetto, de Pesaro, traça, em 1567, o plano defensivo da ilha Terceira, nomeadamente da nóvel cidade de Angra. Peça fundamental desse plano, foi o Castelo de São Sebastião, vulgo Castelinho, cuja construção se terá iniciado em 1572, mas cujas obras já estariam suficientemente adiantadas em 1576 para ser-lhe atribuída alcaidaria.


Séc. XIX - Castelinho

Torna-se o Castelo de São Sebastião, a partir dessa data, não apenas num reforço substancial do sistema defensivo anterior, mas no garante efectivo da segurança do porto oceânico de escala obrigatória das rotas marítimas intercontinentais. Graças a ele, a cidade pôde desenvolver-se e prosperar. Defesa tão eficaz que afasta a esquadra de D. Pedro de Valdez, em 1581, levando-o ao malogrado desembarque na Salga. Em 1582, chegado vencedor da batalha naval de Vila Franca do Campo contra a esquadra francesa enviada aos Açores em apoio da causa do Prior do Crato, o Marquês de Santa Cruz, ao serviço de Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal, não se atreve a acometer a cidade (nem a Ilha); e, no ano seguinte, é na baía das Mós que desembarca vitorioso, entrando em Angra pelo portão de São Bento, vedado que lhe fora o acesso por mar, pelo poder de fogo do Castelo de São Sebastião -agora já secundado pelo forte de Santo António que Ciprião de Figueiredo mandara construir na ponta sudeste do Monte Brasil -.E no Castelo de São Sebastião receberá a rendição formal das tropas francesas.
Séc. XX - Castelinho

Já sob o governo de espanhol João de Horbina, em 1589, o corsário inglês Francis Drake -ascendido a sir pelas suas vitórias contra o império de Filipe II, nomeadamente, sobre a Armada Invencível -vê frustrada a sua tentativa de saquear os navios carregados de importantes drogas, vindas das possessões ultramarinas surtos no porto de Angra, face à ameaça que o Castelo de São Sebastião representava. Em 1597, idêntico episódio acontece com o conde de Essex que sulca as nossas águas com cerca de 140 velas, e que impusera pesado saque à ilha do Faial.

O estabelecimento em Angra de uma guarnição espanhola se, como se vê, concitou maiores perigos para a cidade, reforçou, também, o valor estratégico da sua fortaleza. Logo nesse mesmo ano de 1583 se iniciam obras de melhoramento na Castelo de São Sebastião, com especial destaque para algumas instalações para homens e materiais, e para o reforço da frente voltada a terra onde a muralha era baixa e desprovida de qualquer sistema protector. Com efeito, a construção do Castelo de São Filipe do Monte Brasil nasce, essencialmente, da incapacidade fisica do Castelinho, desde o início vocacionado para a defesa marítima, de albergar e proteger os homens e os armamentos que o rei de Espanha queria colocar estrategicamente a meio caminho entre a Europa e as Américas. Mas a defesa específica do porto de Angra, essa continua confiada ao Castelo de São Sebastião, tal como reconhece um século depois o Padre Maldonado: este castelo é de notável importância, e tanto que dele depende a segurança da cidade enquanto ao mar. E como confirmam os acontecimentos ocorridos e 1641 e 1642. Perante os fundados receios de que, da parte dos terceirenses, pudesse vir um movimento restaurador com o consequente ataque ao Castelo de São Filipe, o governador espanhol diligenciou para que o Castelo de São Sebastião fosse demolido. Por temer que daí fosse atacado o Castelo de São Filipe? A questão estava - foi - no controlo do porto de Angra. Primeiro, o curioso episódio da conquista do Castelinho pela companhia e pelas mulheres da Ribeirinha, com a ajudinha traiçoeira do artilheiro português ao serviço dos espanhóis, Caldeirão. Depois, as tentativas frustradas do governador estrangeiro, D. Álvaro de Viveiros, para enviar ao seu rei pedido de auxílio a partir do porto de Angra, e o desembarque aqui negado a reforços espanhóis, vindos em apoio dos citiados no Castelo de São Filipe. Com o Castelo de São Sebastião no centro de tudo isso!

Século XIX - Planta do Castelinho
A partir daí o Castelinho entra em declínio? Seguramente, não! (Ou tão só na medida em que o porto de Angra perde importância estratégica.) No reinado de D. Pedro II, em 1698, importantes obras são efectuadas na Castelo de São Sebastião. Tão importantes que na lápide evocativa dessas obras, colocada sobre o portão, é usado o termo reedificaram.


Em 1767, João Júdice, na revista que fez a todos os fortes da ilha, regista alguma ruína na fortaleza, não mais do que no Castelo de São João Baptista. É o reflexo do abandono a que a defesa militar dos Açores fora votada há muitas décadas. Como naquela data regista João Júdice, a artilharia que então por cá existia era exactamente a mesma e apenas a que os espanhóis haviam deixado em 1641. A guarnição do Castelo de São Sebastião era, então, dada pelo Castelo de São João Baptista, sob o comando de um capitão. Isto é, continuava a ter guarnição permanente. E o cargo de Capitão do Castelo era disputado, movendo influências na corte. Por este tempo o Castelo de São Sebastião terá sido objecto dos necessários melhoramentos, tal como parte da restante fortificação da ilha.

 Séc. XX - Castelinho (Tourada no Porto de Pipas)
No final do século, a partir de 1797, é grande o temor de que os Açores possam ser atacados pelas tropas francesas. Numa situação de penúria extrema de armas e munições, o armamento do Castelo de São Sebastião sempre esteve nas preocupações dos responsáveis pela defesa da ilha. Ele continuava imprescindível para a defesa da cidade. Como imprescindível se mantinha em 1822, a crer na planta do sistema defensivo da baía de Angra, desenhada por José Carlos de Figueiredo.

Castelinho (Vista aérea)
Extraordinária relevância foi dada pelos liberais no sistema defensivo mantido para contrariar qualquer tentativa de desembarque das forças absolutistas (1828-1832).

Foram executadas importantes obras na frente voltada ao mar com a construção da bateria da heroicidade; o Castelo teve governador próprio.

Com a saída das tropas liberais, ter-se-á dado início a um processo de degradação da fortaleza. Pelos anos cinquenta são propostas obras de restauro, mas uma relação de 1862 já o dá em bom estado de conservação, o que significa que ainda valia como posição estratégica a contar na defesa do porto de Angra. E um relatório do Corpo de Engenharia, datado de 1868, informa que ele estava guarnecido, tal como o Castelo de São João Baptista, de que dependeria.

Castelinho (ao fundo)
lnsubstituível na defesa da baía de Angra durante três séculos, agente do desenvolvimento da cidade cosmopolita, o Castelinho foi, entretanto, testemunha e espaço de muitos episódios da vida social e política local e regional, servindo, nomeadamente de prisão a perseguidos pela justiça ou pelos poderes públicos, e de depósito de recrutas vindos das diversas ilhas do Arquipélago nas frequentes levas, nomeadamente, do século XVIII, enquanto aguardavam embarque para o Reino, para o Brasil ou para outras paragens lusas.


Castelinho - Portão de Armas
Quando em 1885 grassou em Espanha uma epidemia de cho/era morbus e se receou, com justos motivos, que ela invadisse Portugal e pudesse chegar aos Açores, o Governo Civil do Distrito de Angra do Heroísmo pediu ao Ministério do Reino que obtivesse do Ministério da Guerra autorização para construir, no Castelo de São Sebastião, um lazareto, a fim de ali serem tratados, vigiados e saneados todos os indivíduos que chegassem à Ilha, vindos de portos suspeitos de tal epidemia. Não havendo razões que contrariassem esta pretensão, face ao clima de segurança militar que então se vivia no Arquipélago, foi ela satisfeita, e instalado o lazareto no terrapleno baixo -Bateria da Heroicidade -, com trânsito directo para o Porto das Pipas por uma pequena porta aberta na muralha.

Um relatório de 1887 regista o mau estado de conservação da fortaleza, propondo e seu encascamento e a reposição de pedras em falta nas raízes das muralhas.

1942 - Carta censurada e perfurada  (para ser desinfectada)
 expedida de Londres para Angra
Nos primeiros anos do passado século, a Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo satisfazendo a uma necessidade há muito reclamada pelos povos deste distrito encomendou um projecto (1902) e deu início à construção (1904) de um Posto de Desinfecção Terrestre e Marítimo no Castelo de São Sebastião.





A localização deste posto no Castelinho foi bem escolhida. Destinado à desinfecção de pessoas, roupas, bagagens e mercadorias que por mar chegassem, ficava mesmo ali à mão, à saída do cais do Porto das Pipas; mas concebido, também, para responder ao frequente aparecimento e desenvolvimento na Terceira de doenças de carácter classificado de epidémico, tais como febre tifóide, meningite cérebro-espinal, difterias, varíola, tuberculose, escarlatina, carbúnculo, sarampo, situava-se à distância de isolamento necessária, relativamente ao aglomerado urbano de então.

Castelinho - Brasão de Armas
Não foram, porém, pacíficas estas obras. Do projecto constava o rasgamento da muralha a Oeste, para acesso ao interior do forte, o que levou o Exército a pedir o embargo das obras. Reconhecendo que o Posto de Desinfecção era indispensável para a cidade e que o forte era o local adequado para a sua instalação enquanto razões de ordem defensiva não se sobrepusessem, o Exército opôs-se a alterações na estrutura arquitectónica, pelo seu grande valor como monumento histórico, valor este proveniente da sua antiguidade e dos feitos heroicos que a ele estão ligados.

De forma diversa se pronunciou o Presidente da Junta Geral de Angra do Heroísmo para quem o Castelo de São Sebastião [...] Como monumento histórico ou de arte é também de pouco valor, pois não possue obras de arquitectura que o recomendem, nem a ele se acham ligados factos da nossa história militar ou política que lho avolumem. E para acabar com as disputas, propunha a cedência definitiva da propriedade à Junta Geral.

Castelinho - Ponte sobre o fosso (Acesso)
A postura esclarecida e o prestígio do Exército venceram, e, por auto de cedência precária, de 10 de Julho de 1905, o Castelinho foi entregue à Junta Geral para conclusão das infraestruturas do Posto de Desinfecção, obras a todo o tempo removíveis, com reserva absoluta de intervenção nas muralhas ou outras obras defensivas sem prévia autorização do Exército.

Só em 1935 o castelo de São Sebastião voltou à posse do Exército.


Castelinho - Vigia
Por entretanto o Posto de Desinfecção ter sido transferido para outro local da cidade? Por necessidade de instalações do Exército na previsão de novo conflito armado? O estado lamentável em que se encontravam as instalações do Posto de Desinfecção, paralelamente com a construção de novas instalações algures na cidade sugere que, se tratou da dispensa do Castelo para esse fim, por falta de condições. Não só, aliás, as instalações do Posto de Desinfecção estavam degradadas, mas toda a estrutura defensiva se encontrava profundamente arruinada, passado que fora mais de meio século sem que obras de manutenção fossem feitas.

Castelinho - Vista sobre os ilhéus
Veio o Castelo de São Sebastião a acolher, sucessivamente, a Bateria de Artilharia de Defesa Móvel de Costa n.O 2, Depósito de Presos da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, Quartel das Forças Britânicas, 3.0 BE do GACA n.o 1 da Base Aérea n.o 4, Serviço de Obras de Engenharia do Comando Militar da Terceira, e Capitania do Porto de Angra do Heroísmo, ocupante até há pouco.

Para além do Castelo de São Sebastião ter sido uma presença constante e interveniente em mais de quatro séculos de vida de Angra do Heroísmo, importante é, também, no plano arquitectónico, pela sua tipologia.

Castelinho - Bateria baixa
De que há conhecimento, a primeira fortificação erguida em Angra (e nos Açores), data da segunda metade do século XV: o Castelo dos Moinhos ou de São Cristóvão. 

Necessariamente ainda de concepção medieval, pouco conhecemos da sua arquitectura, por falta de representações iconográficas credíveis. Dos pequenos fortes que se lhe seguiram no perímetro da baía de Angra, também pouco sabemos, embora, aqui, estejamos em crer que as construções já seriam muito mais adequadas às necessidades defensivas contra o poder de fogo da artilharia dos navios hostis. Mas é com a construção do Castelo de São Sebastião que Angra é dotada de uma moderna fortificação, à altura das necessidades defensivas de uma cidade que passara a estar na confluência das grandes rotas marítimas intercontinentais. Para o projectar, veio a Angra, como se disse, Tomaso Benedetto, engenheiro italiano, da pátria de Leonardo da Vinci e dos mestres construtores de fortificações no século XVI, nomeadamente Tiburcio Spanochi, o projectista do Castelo de São João Baptista do Monte Brasil.


1941 - Cartografia da Baía de Angra
As muralhas perdem a altura do castelo medieval e ganham a robustez necessária para contrariar o poder destrutivo da artilharia; as torres dão lugar a dois baluartes virados a terra, desenvolvendo-se duas ordens de baterias para o lado do mar. O interior é espaçoso, nele se erguendo até inícios do século passado, praticamente apenas a casa do Governador e a cisterna; ficando os alojamentos para o ajudante e a guarnição adossados aos baluartes; os próprios paios abriam-se sob o terrapleno dos baluartes.


1870 - Cartografia de Angra
Com objectivos exclusivamente estratégicos, quanto menos edificios comportasse, menor seria, logicamente, a destruição, em caso de ataque. Para além de ter sido concebido para ser guarnecido por ordenanças, gente do povo, com suas casas e família na cidade, que apenas ali permanecia o tempo necessário para prestar serviço. Um exemplar de excepção, pela tipologia e pelas ressonâncias históricas e sociais, do primeiro abaluartado nacional e da fortificação defensiva destas Ilhas.






Obras empreendidas pelos Monumentos Nacionais em meados dos anos noventa últimos, vieram reabilitar a antigo casa do governador e, parcialmente, o quartel do ajudante e caserna das praças. Por outras palavras, foram criadas as condições que permitiam o alojamento da Marinha nos edificios tradicionais do forte, e a remoção das construções recentes, sem qualidade estética, e perturbadores da harmonia arquitectónica e funcional do sistema defensivo. O Castelinho podia assumir plenamente a sua natural função cultural e pedagógica. Só que, pela mão do Governo da Região Autónoma dos Açores e da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, no interior é construída uma Pousada de Portugal, ficando do sistema defensivo do mais antigo edifício da cidade património mundial, referência monumental estruturante no processo da sua inclusão na lista de classificação da UNESCO, apenas as muralhas e os modestos alojamentos castrenses, transformados em mais valia ornamental do empreendimento turístico.

Texto de : Manuel Faria 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Beato João Batista Machado (1617-2017)




Beato João Batista Machado
Padroeiro da Diocese de Angra
e Ilhas dos Açores

Martírio: 22-05-1617 (400 anos)
Beatificação: 07-05-1867 (150 anos)


 
 
 
 
 
Emissão comemorativa da Diocese de Angra
 
 
 

2017-05-22 - Selo e Sobrescrito comemorativo.
Edição nº 44 do NFAH
 

João Baptista Machado nasceu em Angra do Heroísmo entre 1580 e 1582 e foi batizado na Sé Catedral.

Aos 17 anos entrou na Companhia de Jesus, em Coimbra, com a intenção de ser missionário no Oriente, mais concretamente no Japão, onde os padres jesuítas exerciam intenso apostolado, bem como na Índia, Malaca, Macau e nas terras da Tailândia e Vietname.


Em 1601, embarcou com outros 15 companheiros para a Índia. Estudou Filosofia em Goa e Teologia em Macau. Em 1609, entrou no Japão e estudou a língua japonesa no Colégio Jesuíta de Arima.

Depois de uma intensa vida missionária, rebentou uma perseguição contra os missionários e católicos japoneses. O padre João Baptista Machado ficou disfarçado no Japão para acudir às necessidades espirituais dos cristãos.

Mas, em Abril de 1617, foi descoberto e preso. A 22 de Maio, Domingo da Santíssima Trindade, sofreu o martírio. Frei Pedro da Assunção foi seu companheiro de martírio.

Tinha então entre 35 a 37 anos de idade, havia 20 anos que entrara na Companhia de Jesus, 16 anos que saíra de Portugal e oito anos que estava no Japão.

Tão sincera foi a sua alegria de se saber condenado ao martírio por amor a Jesus Cristo que o Governador encarregado de transmitir a ordem do Imperador veio a converter-se também à religião cristã e, mais tarde, também foi mártir da fé.


Dois nobres japoneses foram destacados para executar a sentença. De um só golpe, foi cortada a cabeça de Frei Pedro. Chegando, porém, a vez de João Baptista Machado, o executor de tal modo se perturbou que, ao primeiro golpe, caiu por terra com o mártir. Levantaram-se os dois e novo golpe de catana foi vibrado, mas só ao terceiro golpe é que se consumou o martírio.


O padre João Baptista Machado foi beatificado pelo Papa Pio IX, em 07 de Maio de 1867, juntamente com outros 205 mártires.



In: Evangelho Quotidiano

sábado, 20 de maio de 2017

Em Louvor do Divino




AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO NA TERCEIRA






Império da Serreta - Terceira
Espírito Santo... Deus... Misericórdia..., assim reza o nosso povo.

          E é em louvor do Divino que vou explicar:



Império de São Sebastião - Terceira
Casa do Imperador, altar armado de cetins, lumes e flores, a coroa é feita em lata pobre, mas com a maior devoção do mundo está em destaque no cimo do altar.

À noite parentes e amigos rezam o terço, porque depois há lugar à folia numas quadras mal rimadas ao desafio ou num bailo armado onde nunca falta a chamarrita.

Ao lado tudo está pronto, porque no Domingo depois da missa todos se apressam não vá faltar lugar para comer umas sopas e saborear a alcatra bem regada com o vinho de cheiro que abundantemente circula de mão em mão em canjirão cheio e fresco.

As festas na Ilha Terceira iniciam-se no limiar do ano novo e terminam na noite de S. Silvestre.       


Império das Quatro Ribeiras
Praia da Vitória
O dia de Pentecostes é festejado popularmente em todas as Ilhas dos Açores, como sendo um dos mais importantes celebrados pelo mundo católico. Não há em todas as outras solenidades religiosas, como Natal e Páscoa, Corpo de Deus e Imaculada Conceição, o mesmo entusiasmo, a euforia, a mesma alegria comunicativa, que se regista no dia de Pentecostes e no da Santíssima Trindade sobretudo, na Terceira, os festejos populares do Espírito Santo, chegam a atingir o auge. Não sendo de uma solenidade religiosa levada a efeito na Igreja, é o povo que os promove reunindo-se, para tal fim em associações a que embora chamem irmandades, não se podem canonicamente considerar como tal por não, serem eretas, em igrejas ou capelas públicas.

É nisto, que está a maior prova da devoção pelo Espírito Santo por tais festejos não partirem da igreja, mas do povo que espontaneamente os promove, conservando assim uma tradição de séculos.




Império dos Quatro Cantos - Terceira
Como pródromo destas festas em Portugal, reportam-se os historiadores à confraria instituída por D. Isabel de Aragão, em Alenquer, a que chamaram Império, convocando no dia de Pentecostes do ano de 1296, clero, nobreza e povo, a tomarem parte nas solenidades religiosas realizadas quando da, sua inauguração. Deviam ser impressionantes todas as cerimônias realizadas nesse dia. De entre os pobres assistentes aos ofícios litúrgicos, realizados na capela real, convidou-se o mais pobre de entre eles a ocupar sobre o dossel da capela-mor, o lugar, do Rei, que lhe serviu de condestável e os áulicos de págens. Ali o pobre ajoelhou-se sobre rico almofadão destinado ao Rei e nessa postura o bispo do paço lhe colocou na cabeça a coroa real, enquanto, entoava o hino “Veni Creator Spiritus”.

Assim investido das insígnias reais, assistiu o pobre à celebração da missa, como igualmente assim se dirigiu depois ao paço real, onde lhe foi oferecido um lauto jantar servido pela Rainha.

“…  Tão tocante cerimônia encontrou eco nos fidalgos da corte, que, desejando seguir o exemplo da abnegada humildade dos seus soberanos, a quiseram pôr em prática. Com autorização do Monarca mandaram fazer coroas em tudo semelhantes à coroa do Rei, tendo no centro um medalhão com os símbolos da Santíssima Trindade, passando depois a fazer no dia de Pentecostes, cerimônias idênticas às do paço real …”

Foram precisamente essas coroas que os donatários das Ilhas dos Açores trouxeram para o Arquipélago, onde, no dia de Pentecostes passaram a usar o mesmo cerimonial iniciado na corte de D. Diniz e D. Isabel.

Presentemente as coroas já não são do mesmo tipo da época. Feitas de prata batida com relevo, assim como todo o seu conjunto, partem do largo aro, onde se vê uma pomba em relevo de asas abertas, quatro braços ou imperiais, que erguendo-se em forma convexa, se reúnem no topo, sustentando um globo sobre o qual se ergue uma cruz, ou pousa uma pomba em atitude de vôo. Quando a coroa não está na cabeça, o cetro é apoiado no aro, por entre os braços ou imperiais da coroa, descansando o todo sobre uma salva, ou seja, um prato liso de 

prata com cercadura lavrada, munida de um suporte, alargando na base, a que chamam o pé da salva e que serve para a apoiar com a coroa sobre o altar ou mesa. No lado detrás da coroa há um laço de largas fitas de seda branca, cujas pontas caiem, sobre as costas, quando a coroa está pousada na cabeça.


Coroação

Nestas Ilhas, a devoção dos fidalgos pelo Espírito Santo, passou ao povo, democratizando-se. Mas a tarefa era grande demais para um só e exigia o esforço de vários. Para a levar a cabo as populações dos diversos lugares e freguesias associaram-se, cada qual entre si, concorrendo com o seu óbolo, para que as festas do Espírito Santo em nada desmerecessem das dos fidalgos. Aqui e ali, fora de qualquer ação da Igreja, ergueram-se os impérios, espécies de capelas onde se colocam as coroas.



Os Foliões


Construídos a pedra e cal nos terreiros das freguesias, constam de uma pequena quadra de trinta metros quadrados, tendo ao centro uma porta e janela e no interior um altar com um trono. O frontispício, ergue-se em forma de ermida, cumulando com uma coroa de pedra e tem no tímpano uma pomba de pedra em relevo, com a legenda Glória ao Divino. Se a freguesia é muito dispersa e muito extensa há, por vezes mais de que um império, havendo freguesias em que se contam, dois, três e quatro impérios. Anexo ao império ou desviado dele, mas sempre nas proximidades, há a dispensa, edifício onde se arrecada o pão, a carne, o vinho e todos os utensílios do império. Junto à dispensa ergue-se um mastro ou mastaréu onde se iça uma bandeira em todos os domingos a partir do sábado, de Aleluia, até à segunda-feira seguinte ao domingo da Trindade. Estas bandeiras são de pano comum, geralmente branco e pintadas com ornamentos, que por via de regra, representam a pomba e a coroa



O Bodo no Posto Santo - Terceira
    
Nas freguesias rurais, os impérios constituem propriedades do povo desses aglomerados populacionais. Aos chefes das famílias e aos filhos varões de maior idade, compete a administração dos impérios, para os bodos e festejos a realizar nos domingos de Pentecostes e da Santíssima Trindade, havendo uma comissão para cada império.

As comissões administrativas compõem-se de um presidente e de cinco vogais. Ao primeiro dá-se o nome de Procurador e aos outros o de irmãos esmolares, mordomos ou governantes, consoante os lugares. O procurador de uma gerência futura é sempre nomeado por sorteio, segundo os nomes apresentados pelo procurador e irmãos esmoleres da gerência anterior.






Coroação na Rua da Sé

As coroas do Espírito Santo, há uma para cada Domingo, são sorteadas pelas casas da freguesia a título precário, cabendo aos efeitos terem uma delas em suas casas pelo espaço de oito dias no tempo que decorre desde o domingo de Páscoa até ao domingo da Santíssima Trindade. Ao chefe de família ou filho - "a quem saiu o Senhor Espírito Santo" - chamam então imperador. A este ato do sorteio chamam tirar os pelouros. O acontecimento é igualmente anunciado da porta do império em alta voz.

Terminado o período de estação da coroa numa casa, sempre num domingo depois do entardecer, o imperador, a quem toca a coroa no período seguinte, vai buscá-la, trazendo-a para casa acompanhado de um cortejo de homens e mulheres em duas alas, que seguem caminho cantando a Avé Maria.
Independentemente dos pelouros para o sorteio da coroa, há ainda o de outros cargos e encargos, que também são sorteados e anunciados, como, por exemplo, o mordomo do fogo e os seus onze companheiros, que têm a seu cuidado a aquisição dos foguetes e fogo de artifício; o encargo de se celebrar cinco missas por alma de qualquer pessoa ou pessoas à discrição do sorteado, o de concorrer para o bodo do ano seguinte com vinte pães. Todos estes pelouros são anunciados do portado império à assistência que circula em frente, gozando o arraial que se desenrola em frente no terreiro.
                  
Fontes: Francisco Ferreira Drummond, in “Annaes da Ilha Terceira”
           www.portaldodivino.com


OS IMPÉRIOS DO DIVINO ESPÍRITO SANTO NA ILHA TERCEIRA

Com as primeiras famílias de colonos que vieram habitar os Açores após a sua descoberta no século XV, vieram as tradições etnográficas, a religiosidade, as crenças e um conjunto de factores que devido à insularidade das ilhas não permitiu grandes alterações até aos nossos dias.



                      Império do Outeiro
    Conceição, Angra do Heroísmo (1670)
Trata-se do Império mais antigo da Ilha Terceira
 e quiçá um dos primeiros, senão o primeiro,
a ser construído nos Açores.


Neste parâmetro temos o Culto ao Divino Espírito Santo com muito poucas alterações desde esses tempos remotos. No presente, onde as ligações por barco e mais destacadamente por meio dos aviões, entre a Europa ou Américas com os Açores, não levou o povo açoriano a abandonar, como aconteceu no Continente ao longo dos séculos, esta crença e devoção à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que foi iniciada, segundo a lenda, nos tempos da Rainha Santa Isabel, esposa do nosso Rei D. Dinis. Os açorianos souberam sempre manter bem viva esta chama na devoção ao Divino.










Mas se olharmos pela Diáspora açoriana temos a prova da preservação deste Culto dos Açores mesmo daqueles que, no século XVII, emigraram para outras terras à procura de melhor futuro. Assim, por exemplo mais marcante, no Estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, existem cidades onde as maiores festividades estão ligadas ao Divino Espirito Santo, e muitas delas, como São José de Terra Firme, não existe diferença alguma com as que são realizadas nos Açores. Tudo, mesmo tudo, é uma cópia viva das que se realizam, nos nossos dias, por todas as ilhas açorianas, das quais destacamos as coroações, os estandartes, o Bolo de Leite, as filarmónicas, o cantar de porta em porta (por muitos conhecido por Pezinho) e outras tradições que não se diluiriam com o passar de mais de três séculos. Nos Estados Unidos da América do Norte onde as gentes açorianas se fixaram há mais de cem anos, tanto no Estado da Califórnia como na Nova Inglaterra, realizam-se por toda a parte, onde há açorianos, as festas em devoção ao culto do Divino Espirito Santo, sendo no presente a maior manifestação de fé fora do espaço físico da Região dos Açores, e que se realizam na cidade de Fall River, em Massachussets, onde anualmente se concentram mais de 150 mil devotos vindos, na sua maioria vindos, de cidades e vilas daqueles Estados à beira do Atlântico (Massachusets, Rhode Island, Connecticut, New Jersey, New York, New Humpshire e até do Canadá, principalmente das Provinciais do Ontário, Manitoba e Quebec).



Império de São Carlos
Terceira
Mas voltando aos Açores queremos dizer que em todo o arquipélago é na ilha Terceira onde as festas de devoção ao Divino Espirito Santo toma proporções maiores, tão grandes que tomamos a liberdade de afirmar que é, na prática, a continuação das celebrações da Páscoa, com o seu auge no Dia de Pentecostes onde se celebra em dois Domingos de Bodo, e do ressuscitar de Jesus, com a descida do Espirito Santo sobre os apóstolos. No entanto, em muitas freguesias daquela ilha, esta festividade é estendida para outros dias do ano.

Desde a povoação dos Açores, por gente do reino, após a sua descoberta pelos navegadores portugueses, que o Culto ao Divino foi a principal fonte da crença religiosa cristã até porque os cataclismos, na forma de terramotos e actividade vulcânica que se fazia sentir periodicamente, incutia o temor nas populações pelo que estas se refugiavam na fé e nas orações ao Divino Espirito Santo para desta forma obter a clemência do Criador e assim serem poupados da destruição e da morte.




Altar em Louvor do Divino
Por todas as ilhas existem pequenas capelas, na sua maioria na vizinhança das igrejas, onde os seus interiores são decorados sobriamente com um altar coberto por cetim imaculadamente branco e com flores frescas e aromáticas onde se encontra uma coroa de prata e ceptro que simboliza o poder da Trindade.






Mas é na ilha Terceira onde existe a maior
quantidade de Impérios, cerca de 70 se não estamos errados, com algumas freguesias com dois e três, como é, neste ultimo caso, a Ribeirinha. Todos estes Impérios começaram a ser edificados nos fins do século XVII e hoje quase na totalidade são de pedra ou bloco, materiais que substituíram os mais antigos então edificados em madeira dando-lhe uma maior consistência e segurança.

Também há algo que diferencia estes Impérios dos outros espalhados pelas restantes ilhas, pela pintura das paredes exteriores, de cores garridas e terem, todos eles, apenas duas janelas e uma porta na fachada principal sobre a qual se encontra normalmente uma coroa embora os haja com uma pomba, o símbolo do Espírito Santo.


Normalmente a área do interior não ultrapassa os 30 metros quadrados e muitos destes Impérios têm outra pequena adição, chamada de dispensa, onde é armazenado o pão, a carne e o vinho bem como outros materiais relevantes para os festejos.


Fonte: Carlos Morgadinho 







Arroz Doce
Em Louvor do Divino






Festas do Espírito Santo nos Açores





A Simbologia da Coroa do Espírito Santo