terça-feira, 21 de novembro de 2017

A Festa Brava na Terceira


A FESTA BRAVA NA TERCEIRA
(Breve história da sua origem)

Tourada na Ladeira de São Bento
Angra do Heroísmo


Desde os primórdios do descobrimento das Ilhas açorianas, aquando da descoberta da terceira ilha, densa em florestação como as demais, foi largado gado vacum como outras tantas espécies domésticas, que se tornaram selvagens e típicas desta região, causadas pelas condições climatéricas e demográficas das nossas ilhas. Com o cruzamento de diversas raças de gado vacum em regime de total liberdade, a quando do povoamento desta ilha, as gentes oriundas do centro /sul do país, encontraram uma espécie pequena em dimensão e bravia devido ao seu estado selvagem. Imaginando a época vivida, século quinze, depressa se tira a conclusão de como os povoadores capturavam e matavam as reses para a sua alimentação.




Tourada no Largo de São Bento
Angra do Heroísmo
Os antigos diziam que a carne de um animal cansado era mais tenra e suculenta do que a de um animal descansado, ainda no tempo do meu avô se tomava como certa esta sentença, sendo assim e depois de serem laçados e capturados, era nos adros das Igrejas que se corriam e cansavam os animais bravios de então, para depois se proceder à sua matança. Esta tradição não era só típica da Ilha de Jesus Cristo, era praticada um pouco por todas as restantes ilhas que compõe o arquipélago açoriano, esta manifestação foi proibida pelo Bispo de Angra nas “Constituições Sinodais do Bispo de Angra” de 1559 onde se proibia de correr toiros nos adros das igrejas.

Tourada no Pico da Urze
Angra do Heroísmo
Com o passar do tempo, por ser Angra uma cidade nobre e burguesa e por ser o povo terceirense um entusiasta das festas populares, se continuou esta pratica de correr os toiros nas ruas de toda a ilha.

O culto do Divino Espírito Santo propagou-se por todo o arquipélago devido à fé inabalável dos açorianos na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade face às atrocidades do tempo, da vida e da terra. No caso da Ilha Terceira foi-se associando o religioso e o profano advindo daí ao que hoje se assiste nas festas profano religiosas um pouco por toda a Ilha. A tourada à corda evoluiu com o passar dos tempos, mas nem sempre a tourada à corda foi o que hoje se vê e se assiste nas estradas da Ilha Terceira, alguns escritores da época relataram algumas atrocidades cometidas pelos homens de então com os seus bordões de aguilhões montados. Como tudo na vida a evolução do homem e da cultura fizeram com que o espectáculo chegasse até aos dias de hoje e se tornasse no ícone da tauromaquia insular.

Tourada no Largo do Posto Santo
Angra do Heroísmo
Ao mesmo tempo que se desenvolveu a tauromaquia de rua, as touradas de praça, como são chamadas aqui para as diferenciar das outras, mantiveram-se na Ilha Terceira pela concentração da nobreza na capital da Ilha e pelo porto a ela associado, porto este importante na rota da prata. Os espectáculos e jogos taurinos eram realizados na praça principal da cidade de Angra, a chamada hoje Praça Velha, onde se colocavam palanques em volta, inseridos num rectângulo. Aí os nobres mostravam a sua destreza a cavalo alanceando os toiros, outras danças executadas por angrenses alegravam as festas, antes faziam-se cavalhadas em honra de São João, perfilavam-se duas alas de cavaleiros, uma para a Rua de São João e outra no sentido descendente da Rua da Sé, aí se celebrava no canto destas duas ruas, onde outrora existiu uma capela, uma missa em honra do patrono das hoje festas maiores do Concelho de Angra do Heroísmo.

Praça de Toiros de São João
Angra do Heroísmo


Sempre houve da parte dos terceirenses uma paixão frenética pela festa dos toiros, desde os espectáculos de rua aos de praça, mas é nos primeiros que reside a sua maior aficion.
Praças de toiros houve várias, a da Canada do Barreiro, a do Espírito Santo na Miragaia, a de São João, onde hoje se situa o Centro Cultural de Angra, chegando até hoje e já com vinte e cinco anos de existência a Monumental Praça de Toiros Ilha Terceira.

Enfim a festa brava e os terceirenses juntos desde os primórdios da existência humana nestas ilhas atlânticas.




Fonte: Duarte Bettencourt in "Terceira Taurina"




Tourada no Largo de São João de Deus
Angra do Heroísmo
Tourada à corda, toirada à corda ou corrida de touros à corda, é um divertimento tauromáquico tradicional nos Açores, com particular expressão na ilha Terceira, acreditando-se ser a mais antiga tradição de folguedo popular do arquipélago. A modalidade tauromáquica é específica dos Açores e caracteriza-se pela corrida de 4 touros adultos da raça brava da ilha Terceira ao longo de um arraial montado numa rua ou estrada, num percurso máximo que regra geral é de 500 m. O animal é controlado por uma corda atada ao seu pescoço (daí a designação do tipo de tourada) e segura por 6 homens (os pastores) que conduzem a lide e impedem a sua saída para além do troço de via estipulado. A lide é conduzida por membros do público, em geral rapazes, embora seja admissível a presença de capinhas contratados. Após a lide, os animais são devolvidos às pastagens sendo repetidamente utilizados, embora com um período de descanso mínimo de 8 dias.



Praça de Toiros do Espírito Santo
Angra do Heroísmo
O primeiro registo conhecido da realização de uma tourada à corda data de 1622, ano em que a Câmara de Angra organizou um daqueles eventos, enquadrado nas celebrações da canonização de São Francisco Xavier e de Santo Inácio de Loiola. Contudo, presume-se que as corridas de touros à corda nos folguedos populares já ocorressem há muito, o que justifica a inclusão daquele evento numa festividade oficial.




Praça de Toiros de São João
Angra do Heroísmo
A realização de corridas de touros à corda foi adquirindo ao longo dos tempos um conjunto de características, fixadas por normas e regras de cariz popular que hoje se encontram legalmente codificadas. Aquelas normas estabelecem os procedimentos de saúde e bem-estar animal a seguir em relação aos touros, os sinais correspondentes aos limites do arraial (riscos no chão), os sinais a utilizar na largada e recolha do touro (foguetes). Para protecção dos espectadores os touros não estão "em pontas", isto é, têm sempre a ponta dos chifres cobertas por algo que proporcione a protecção do espectador, as regras a seguir na armação dos palanques e na protecção dos espectadores e ainda a actuação dos capinhas (toureiros improvisados que executam sortes recorrendo a um guarda-sol, uma varinha, um bordão enconteirado ou uma samarra).


PRAÇA DE TOIROS
 DA ILHA TERCEIRA

Inaugurada em 1986




MONUMENTO AO TOIRO






Sobrescrito de 1º. dia comemorativo da inauguração do
Monumento ao Toiro e do 45º. aniversário da
Tertúlia Tauromáquica Terceirense

Selo Personalizado


Bilhete Postal de Boas Festas
Casa Agrícola José Albino Fernandes

Sobrescrito comemorativo da 1ª. Corrida, no Campo Pequeno, de
uma ganadaria açoriana (Rego Botelho)

Selo Personalizado

Bilhete Postal comemorativo da
lide no Campo Pequeno









 

O Açúcar nos Açores



A Origem do Açúcar
(Breve história)


Século VI a.C.

“O berço de uma cana muito doce”

Antes de existir o açúcar, tal como o conhecemos hoje, existiam apenas duas fontes de sabor doce no mundo: o mel e a cana-de-açúcar.


No que se refere à cana de açúcar, não se sabe ao certo de onde veio, mas crê-se que há mais de 20 mil anos, os povos das ilhas do Sul do Pacífico terão descoberto as propriedades e as características desta planta alta, que crescia espontaneamente nas suas terras.

Segundo informações mais recentes, admite-se que a cana-de-açúcar foi cultivada pela primeira vez na Nova Guiné, onde a sua existência era tida como planta silvestre e ornamental. A partir desta zona a cultura estendeu-se a outras ilhas vizinhas, como as Fiji e a Nova Caledónia.


Mais tarde, a cana-de-açúcar prosseguiu a sua viagem e chegou a outras zonas, actualmente as Filipinas, a Indonésia, a Malásia e a Índia. Terão sido os indianos o primeiro povo a extrair o suco da cana e a produzir, pela primeira vez, açúcar “em bruto”, por volta de 500 a.C.


Não é por acaso que o nome para “açúcar” é originário do sânscrito “çarkara”, que significa “grão” e do qual vai derivar o nosso “açúcar”, “sukkar” para os Árabes, ”saccharum” em latim, “zucchero” em italiano, “seker” para os turcos, “zucker” para os alemães, “sugar” em inglês e “sucre” em francês, entre outros.

Foi nesta época que Darius, o imperador persa, ao chegar à Índia, observou que ali havia “canas que dão mel sem a ajuda das abelhas”. A novidade foi levada para casa e mantida em segredo durante muito tempo. 

Século VII /XII

“O segredo da cana chega ao Mediterrâneo”

O Mediterrâneo no Séc. XV
O desembarque da cana-de-açúcar na Europa Oriental aconteceu no século IV a.C., como consequência das viagens de Alexandre Magno, desde a Macedónia até àÁsia.

Dos gregos, o Império Romano herda aquele a que chamam “sal indiano”, muito apreciado pelas suas propriedades gastronómicas e medicinais. Mas são os Árabes juntamente com os chineses, os responsáveis pela expansão do açúcar nas regiões banhadas pelo Mar Mediterrâneo e pelo Oceano Índico. Assim, graças aos Árabes iniciase a produção de açúcar sólido ao longo do Mediterrâneo, arte aprendida com os Persas.

No século VII, a cultura do açúcar chegava, assim, ao Chipre, a Creta, a Rodes e a todo o Norte de Africa, embora com as devidas adaptações ao solo e ao clima variável.

Os Romanos no Mar Mediterrâneo
No século XII, as tentativas de cultivo estendem-se às regiões da Grécia, do Sul de Itália e do Sul de França, mas a produção continua a ser muito reduzida, permanecendo os orientais como os maiores fornecedores de açúcar do mundo ocidental.

Por isso, o açúcar permanecia como um produto gastronómico e medicinal e de luxo, vendido nos boticários (as farmácias de então), ao alcance de muito poucos. Na verdade, durante centenas de anos, o açúcar foi considerado uma especiaria extremamente rara e valiosa. Apenas nos palácios reais e nas casas nobres era possível consumir açúcar, visto que este atingia preços altíssimos, sendo apenas acessível aos mais poderosos.

Nesta altura, eram os mercadores venezianos os principais intermediários deste comércio: em Alexandria compravam o açúcar proveniente da Índia, fazendo-o depois chegar ao resto da Europa.







Madeira




Século XV

“A cana e a Madeira dão-se bem”

No início do século XV, a história começa a ficar mais doce. O infante D. Henrique resolve introduzir a cultura da cana na ilha da Madeira. A planta adaptou-se muito bem às características desta região e assim se lançou o negócio: Portugal começa a vender açúcar para o resto da Europa. Nesta época, Portugal iniciava a sua política de expansão comercial por meio da conquista de novos mercados. Foi numa das tentativas de chegar às Índias que o Brasil foi descoberto, por Pedro Álvares Cabral em 1500. O cultivo da cana-de-açúcar estende-se a outras ilhas – Açores, Cabo Verde, São Tomé e as ilhas Canárias, o que vai ser determinante para a sua exploração no Novo Mundo. A acrescentar ao optimismo, o caminho marítimo para a Índia abre-se em 1948 pelas mãos de Vasco da Gama, tornando Portugal no maior negociante de açúcar e Lisboa, a capital de refinação e comércio deste produto.
“ A colonização da Madeira”

“Esta ilha da Madeira mandou-a o dito senhor infante D. Henrique habitar pelos Portugueses. Fez capitães dela dois cavaleiros, um dos quais chamado Tristão Teixeira e o outro, João Gonçalves Zarco.

Tiveram os primeiros (habitantes) que a quiseram habitar de lhes deitar fogo. É muitíssimo fértil, pois produz muito trigo. O dito senhor infante D. Henrique mandou (depois) pôr cana-de-açúcar, que deu muito boa prova. Tem bons vinhos, mesmo muitíssimo bons.”


Rotas do açúcar


BRASIL

Século XVI

“Terreno fértil para a cana no Novo Mundo”

Engenho do açúcar no Brasil
Paralelamente, a descoberta do Novo Mundo (América) vai introduzir a viragem derradeira na história da introdução do açúcar nas nossas mesas. Na sua segunda viagem, em 1493, Cristovão Colombo leva consigo alguns exemplares de cana-de-açúcar, oriunda das Canárias, para São Domingos, actual República Dominicana. No continente, a cana vai encontrar excelentes condições para se desenvolver, e não foram precisos muitos anos para que, em praticamente todos os países recém colonizados, os campos se cobrissem de cana-de-açúcar. Os solos eram férteis, o clima o mais adequado e o sucesso foi tal que, por volta de 1584, havia no Brasil cerca de 115 engenhos, funcionando graças ao esforço de 10 000 escravos, que produziam mais de 200.000 arrobas de açúcar por ano, cerca de 3000 toneladas. Em suma, em resultado do incremento da colonização, o Brasil conheceu um rápido desenvolvimento: milhares de colonos, servindo-se de índios, mestiços e escravos africanos, arrotearam terras e expandiram culturas agrícolas (em particular a (cana-de-açúcar).

Engenho do açúcar no Brasil
Assim, com o descobrimento da América o açúcar produzido pela rápida difusão da cana-de-açúcar neste novo continente, ainda sob condições pouco desenvolvidas, passou a ser uma mercadoria acessível a todas as camadas sociais. Seguiu-se uma época de grande prosperidade para a cultura e comercialização deste alimento, protagonizada por Portugueses e Espanhóis, com especial destaque para as plantações no Brasil.

A cobiçada especiaria ganhou mesmo honras de metal precioso.

Chamavam-lhe o “ ouro branco”, tal era a fortuna que gerava.


Século XVI (Domínios Portugueses)


“A acção dos Portugueses no Brasil”

O comércio triangular
“ A riquesa desta terra é principalmente em açúcares (...). Há no Brasil, em cento e cinquenta léguas de costa, de Pernambuco até para lá da Baía, perto de 400 engenhos.

(...) Aqui os escravos de África são muito procurados porque os moradores do Brasil têm grande necessidade deles para os seus engenhos (...). E prezam mais um escravo negro do que três do Brasil, que não são tão fortes (...) mas gente branda e frouxa”.





Século XVII

“ Adoçante de bebidas novas”


A exploração de escravos, que se praticaria desde o século XVI até princípios do século XIX, viabiliza a expansão da indústria do açúcar de uma forma irreversível, com plantações praticamente em todo mundo, desde as Índias Ocidentais às Américas. O uso do açúcar vulgarizou-se, principalmente para adoçar as novas bebidas, também de origem exótica, como o café, o chá e o cacau, o açúcar conhece um maior consumo, embora v ainda no currículo restrito das classes abastadas.


Século XIX


“ Chega uma nova planta doce: a beterraba”

Apesar do desenvolvimento das técnicas para produção de açúcar mostradas pelos europeus no século XVI, foi somente no século XIX, com a introdução da máquina a vapor, da evaporação, dos cozedores a vácuo e das centrífugas, como reflexo dos avanços. Francisco P. Laval, Diário de Viagem, apresentados pela Revolução Industrial, que a produção comercial de açúcar experimentou notáveis desenvolvimentos tecnológicos.

Desta forma, o comércio do açúcar tornou-se bastante lucrativo o que terá preocupado Franceses e Alemães, que se viam a pagar caro um produto que nunca vingaria nas suas terras mais frias. Impulsionado pelo seu governo a investigar outras fontes de sacarose (açúcar vulgar), Andreas Margraff, um químico alemão, obtém os primeiros cristais a partir do suco extraído de raízes de beterraba, em 1747.

Passados cinquenta anos, o discípulo de Margraff, Franz Carl Achard, instala a primeira refinaria de açúcar de beterraba da Europa. O produto não tinha, no entanto, a qualidade desejada e, para além disso, era bastante caro.

Só durante as guerras napoleónicas, devido ao bloqueio britânico e ao consequente racionamento do açúcar, é que a nova indústria teve finalmente oportunidade para se desenvolver e aperfeiçoar. Inicia-se uma guerra entre os importadores do açúcar de cana e os produtores de açúcar de beterraba. A abolição da escravatura vai dar vantagem aos segundos e penalizar os primeiros.

No princípio do século XX, a beterraba vence a cana de forma decisiva, cobrindo 3/5 do consumo mundial. Mais tarde, curiosamente, a balança irá inverter-se com 3/4 da produção de açúcar a serem fornecidos pela antiga cana.

Século XX

“ O açúcar no século XX: a abundância”

No início do século XX, o planeta já produzia 9 milhões de toneladas de açúcar e consumia apenas 8 milhões.

Mas a Primeira Guerra Mundial veio travar drasticamente a produção de açúcar.

Fruto dos combates, as regiões produtoras são devastadas, assim como as refinarias.

Faltando mão-de-obra e matéria-prima para o cultivo da beterraba açucareira , a cana-de-açúcar,produzida longe deste cenário de destruição, conhece algum desenvolvimento até ao fim do conflito. No pós-guerra, a produção restabelece-se e ganha mesmo maior dinamismo, a tal ponto que, em1920, com o açúcar de cana e de beterraba, o excedente mundial alcança as 4 milhões de toneladas. Como consequência os preços descem e levanta-se a primeira de muitas crises para regulamentar este negócio. Em 1937 é realizado o primeiro acordo internacional para regular o mercado, do qual sai também o primeiro Conselho Internacional do Açúcar.

Em 1953, sob a égide da ONU, assina-se o Acordo Internacional sobre o Açúcar, que estabelece um sistema de quotas de exportação.

Em 1968 cria-se o mercado comum do açúcar, que levou a Comunidade Europeia a tornar-se o primeiro produtor mundial de açúcar de beterraba.


Séc. XXI

“O açúcar no 3º milénio”




Hoje, entre 111 países produtores de açúcar, 73 cultivam cana-de-açúcar e são responsáveis por fornecer 3/4 da produção mundial de açúcar. O maior produtor é o Brasil, seguido pela Índia e por Cuba. O açúcar tornou-se um alimento comum na dieta de todos os países, constituindo uma fonte de energia de fácil e rápida assimilação.

Consumido com moderação contribui para uma dieta equilibrada, proporcionando um sabor agradável aos alimentos. Para além disso, o sabor doce é um dos mais apreciados pelo ser humano, o que torna o açúcar um dos alimentos capazes de oferecer momentos de bem-estar e de prazer.

Portugal tem uma quota de produção de 360 mil toneladas de açúcar por ano, das quais cerca de 275 mil são consumidas.






AÇORES





O açúcar nas ilhas portuguesas do Atlântico séculos XV e XVI


Na ilha de Santa Maria, e a mando do Infante dom Henrique, se terão começado as primeiras plantações. Um catalão, mestre António, teria sido para aí enviado com esse propósito. E "deram-se muito boas". Mas ainda não havia moendas, o que exigiu que as canas fossem levadas para São Miguel, "e fez-se delas muito bom açúcar". Porém, ou "pela pouca curiosidade dos homens, ou por não haver regadias, ou pelo pouco poder, cessou a granjearia delas". Falta de interesse, de capitais e escassez de águas.

Nos finais do século XV a ilha rendia bem em trigo e em urzela, mas não há vestígios de açúcar. Nas outras ilhas também se experimentou, mas o êxito terá sido sempre limitado, salvo em São Miguel. A conjugação de abundantes chuvas com temperaturas relativamente quentes não era fácil de ocorrer num clima atlântico temperado. Mas algum açúcar se ia fazendo.


O que era uma esperança de mais rendimentos: o foral da alfândega dos Açores, de 1499, ainda o referia. E de 1502 a 1505 a fazenda régia arrecadou 5 mil arrobas cada ano no arquipélago. O que pode significar um total de 15 mil arrobas de produção. Em 1509, será da ordem das 20 mil arrobas, enquanto na Madeira atingiria por esse tempo as 70 mil. Não era abundante, nem viera para ficar. Quando muito interessava para o consumo local, longe de atingir a qualidade e as quantidades de uma colheita para exportação como a que se instalara na Madeira. Em 1515 o rei dom Manuel faz mercê à Misericórdia de Ponta Delgada de 2 arrobas de açúcar "para provimento dos doentes que à sua casa se vem curar". Açúcar a ser retirado dos rendimentos dos quintos do açúcar da Madeira.

Pouco em quantidade seria em São Miguel e, provavelmente, também pouco seguro seria que o houvesse todos os anos. Tinha acabado o "tempo dos açúcares" – que nunca chegara a ser.
Todavia, a cultura sacarina não terá ficado completamente esquecida: por 1540 houve algumas tentativas de retomar o cultivo – talvez como resposta a uma crise generalizada na agricultura regional – e também pela sua baixa na Madeira.

Aconteceu em São Miguel, na fachada sul da ilha, nas imediações de Vila Franca do Campo. Trazendo mesmo mestres de engenhos da Madeira. Parecia que as coisas iam bem, e estiveram os engenhos "moentes e correntes alguns anos". Em 1552 na ilha Terceira há uma tentativa de plantar cana na esperança de que se dê açúcar, "como se dá na ilha de São Miguel". Era ainda uma experiência, que o requerente queria fazer, para o que pedia a utilização de águas de um ribeiro.

Na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, em 1554, mais de 517 arrobas houve de produção, estando em laboração pelo menos um engenho. A qualidade do açúcar e a forma de o tratarem pode ter contribuído para o insucesso dos carregamentos. Pelo menos isso aconteceu em 1563 em Vila Franca, em que venderam os açúcares "sem serem purgados e os estrangeiros que os levaram escandalizados d'isso, dizem agora que nem de graça tomarão açúcar d'esta ilha". Problemas com a transformação e com a qualidade que dela resultava. Por não ser bem purgado nem ficar enxuto como convinha.

Porque o mercado externo era exigente, havia que pôr todo o cuidado na preparação do que se exportava. Sob pena de se arredar a procura. O que significa que os compradores sabiam bem o que queriam, talvez por habituados aos muitos cuidados que a produção madeirense e editerrânea conheciam. Com mestres sabedores na feitura, com alealdadores competentes na verificação da qualidade. Destes não os havia nos Açores, e como resposta a estas queixas a prevenção não era a mais capaz, pois encarregava a câmara de Vila Franca de atestar a bondade do produto quando a venda passasse as 2 arrobas….

Em finais do século XVI o cronista das ilhas, Gaspar Frutuoso, já diz que numa ribeira em São Miguel "estiveram quatro engenhos de açúcar, no tempo em que as canas dele floresciam (…) e estes todos estão desfeitos de tudo, sem haver sinal deles, depois que o bicho das canas prevaleceu". Mas ainda se insistia nessa safra, e em 1584, algum açúcar se fazia, embora "não tão bom como na ilha da Madeira".

Por finais do século ainda próximo de Vila Franca um engenho rendia muitas arrobas de açúcar. Em 1597 os assaltantes ingleses ainda aí acharam açúcar para saquear.

Também na Ribeira Grande, os "moradores não são tão ricos como honrados e nobres, por perderem muito de suas fazendas com fianças e invenções de canas-de-açúcar que o bicho comeu". Mesmo nas serranias do meio da ilha se tentou o cultivo, sem êxito. Na ilha das Flores se deram "canas-de-açúcar, mas, por não acharem proveito nelas, as deixaram". Entusiasmados com a fortuna que se sabia que o produto podia proporcionar, muitas teriam sido as tentativas. Mas o rendimento obtido desencorajava a continuação. Enquanto na Madeira o açúcar "alevantava e engrossava muito os homens," nos Açores os canaviais "somente estavam viçosos".

Interessaria à fazenda real que o açúcar se tivesse expandido nos Açores? Talvez não, num primeiro momento. A estas ilhas destinava-se a produção de trigo que interessava ao Portugal deficitário em cereais – o que permitia ainda à ilha da Madeira dedicar-se ao açúcar, recebendo o pão dos Açores. A especialização ocorreu. E a cultura da cana doce, por fracos rendimentos iniciais, terá sido abandonada, ou menos prezada. Por 1540, para fazer frente a dificuldades grandes, tentou-se retomar uma produção que em outros lados se sabia que tinha mercado no exterior. E que permitia diversificar as culturas, pelo menos na ilha de São Miguel. Com resultados que não atingiram o que se pretendia. Por razões naturais, pela pouca aptidão do clima em especial. Sem que se esqueçam as razões comerciais. É que nos finais do século XVI já nem a qualidade do açúcar madeirense podia fazer frente à produção brasileira. Porque esta era agora a região exportadora de açúcar. Com dois concorrentes tais – apesar de ocorrerem em dois tempos diferentes –, o açúcar açoreano nunca se destacou no mercado internacional. E acabou por ser quase esquecido: no século XVII não há vestígios dessa cultura nas posturas municipais de Ponta Delgada. Fora um breve namorico.
Ilha do Corvo


Mas em Vila Franca do Campo repegou. Por meados do século XVII aí se assinalam "muitos e bons açúcares pela muita lavrança de canas que hoje na dita vila há". Mas não seria muita, pois o açúcar continuava a vir também do Brasil.


Por 1460-1462 mais ilhas foram descobertas no Atlântico "contra Guiné através do Cabo Verde". Dever-se-á o achamento a Diogo Gomes e António da Noli, as cinco primeiras (Santiago, Fogo, Maio, Boavista e Sal) – e a Diogo Afonso, as restantes (São Nicolau, Santa Luzia, São Vicente, Santo Antão); só depois se verá a que denominaram Brava.


Ilha das Flores
Era uma nova formação insular de origem vulcânica, desabitada, que entrava na soberania portuguesa. Onde, uma vez mais, era preciso tratar primeiro do povoamento para se alcançar o aproveitamento econômico. Recebeu-as em senhorio, por doação da Coroa, o infante dom Fernando, irmão do rei dom Afonso V e filho adotivo do infante dom Henrique, já senhor da Madeira e de algumas das ilhas dos Açores. Que, como os outros infantes donatários, também se limitou a administrá-las de longe. Tendo continuado a delegar funções de administração direta em capitães escolhidos por ele. Com as limitações que já se tinham estabelecido para os capitães-donatários da Madeira e dos Açores.

Ilha do Pico
Logo por 1461 ou 1462 terão começado os propósitos de colonização da ilha de Santiago, com a costumada distribuição de sesmarias a genoveses e a portugueses.


Todavia, difícil e moroso se tornou encontrar gente disposta a ir para lá. Isto por "ser tão alongada de nossos reinos". Isto também apesar das isenções fiscais que o monarca concedeu. Mais: os moradores ficavam livres de pagamento de direitos alfandegários na introdução no reino de produtos do trato com as costas africanas fronteiras. Desde que os conseguissem por troca com "suas novidades e colheitas". O que acabou por significar fazer do arquipélago um entreposto no trato de escravos africanos, que era o que de mais comum e de maior valor os moradores traziam dos rios de Guiné. A que havia que juntar milho, arroz, marfim e cera, também daí provenientes.


Ilha do Faial
Ilhas que nos primeiros anos de colonização receberam degredados como povoadores que a isso se não podiam escusar. Mas estas ilhas na sua maioria áridas, com difíceis condições para a agricultura, não foram de imediato aproveitadas. Apesar disso logo em 1490 se assinala a existência de cana-de-açúcar na Ilha de Santiago.


Começa a colonização do arquipélago precisamente pela ilha de Santiago, a maior do conjunto destas ilhas, de razoáveis ancoradouros e com alguma água. A que se reconhece alguma fertilidade. "Esta ilha dá todas as frutas de Portugal que se nela plantam, figos, uvas, melões, açúcares, e todas as outras frutas há por todo o ano. Não dá trigo nem cevada. Dá milho e arroz como em Guiné. Ele tem grandes criações d'animálias e gados"; assim se pode ler no Códice de Valentim Fernandes (1506-1508), onde o mapa mostra um traçado bem próximo da realidade.


Ilha Graciosa
Mas com estes louvores habituais para terras novas não se enriquecia a população. Logo por 1512 se sabe que na "dita Ilha não há pão, nem vinho, nem azeite, nem ferramentas, nem pano de vestir. E tudo isto levam os mercadores de Lisboa, Setúbal, Algarve, ilhas da Madeira, Açores, Canárias, Castela". Em troca do que traziam escravos.


Mesmo assim, às vezes sofriam "muitas mínguas" de mantimentos. Porque Santiago interessava, mas como escala dos navios que iam e vinham para Guiné, Mina, Angola, Brasil e Índia e como fornecedor de algodão para com ele se resgatarem escravos nos rios de Guiné.


Como as temperaturas pareciam propícias, também em Cabo Verde se tentará aclimatar a cana doce. Mas aí não se poderão multiplicar explorações extensivas. Só se planta junto das ribeiras, que a água era escassa: "os frutos não se dão nesta terra senão de regadio".


Ilha de São Jorge
As boas terras de aluvião também não abundavam, limitando-se a alguns vales ou junto da costa. Os canaviais instalam-se próximos de outros cultivos, de árvores de frutos ou de legumes. E até de criações de gado. A policultura prevalece. Tirando em Santiago, os produtos agrícolas nas ilhas são poucos e difíceis de obter. Salvo a pecuária que, para ilhas não-ocupadas por humanos, vinha a contento. De onde algum rendimento se podia obter. Sebo e couros são os mais rentáveis dos recursos existentes, de gado solto — gado bravo que a gente era pouca para o apascentar. Ou cavalos, tratados com outros cuidados, que eram uma boa oferta para os escambos na costa africana. Ou a apanha da urzela espontânea, líquen que se propaga nas rochas junto ao mar e que continha uma substância corante que tinha procura na exportação para a Europa.


Ilha Terceira

A agricultura, salvo a do algodão na ilha do Fogo – cultura de sequeiro – para pouco chegava, tendo as subsistências muitas vezes de ser importadas. Para os que nas ilhas moravam e para fornecimento aos que iam aos tratos nos rios de Guiné vai biscoito de Lisboa, ou de Castela. Como vai farinha, trigo, passas, figos e outros comestíveis. E até mesmo algum açúcar das Canárias, em 1515. Embora exporte couros e mesmo alguma carne salgada. O atrativo comercial de Santiago residiu desde cedo nos escravos, que em grandes quantidades aí eram embarcados com destino à Europa ou à América.


Não era o açúcar, pois, uma produção que tivesse nas ilhas de Cabo Verde uma expressão que se destacasse. Mas nem por isso deixava de se tentar. Por 1540, se sabe que em Santiago dentro da fazenda da Trindade "estão dois engenhos trapiches de fazer açúcares, com todo o cobre e mais cousas necessárias aos ditos engenhos". Em Santa Cruz, uma outra fazenda do mesmo senhorio, se escreve que havia "um engenho trapiche de açúcar".


Açores - Turismo
Poucos engenhos se poderiam estabelecer nessa ilha, que poucas eram as águas correntes que podiam ser aproveitadas para isso. As pequenas produções pisariam as canas em pilões, trabalho penoso, manual. Pequenas áreas de cultivo de cana que teriam persistido, resistido às longas estiagens que afectam duramente as ilhas. Mas obtinham-se algumas quantidades açúcar, embora o ignore o piloto anónimo que cerca de 1540-1541 aí se detém contando dos produtos da terra.


O que significa que não dava nas vistas, mesmo a um visitante curioso dos recursos das ilhas. Em finais do século Gaspar Frutuoso assinala que a "ilha de Santiago dá muito açúcar, e fazem-se nela muito boas conservas, ainda que nada disto chega ao da ilha da Madeira".


Açores - Turismo
Tem de ser considerado exagero de quem ouviu contar sem ter observado. Porque isto se escreve num tempo em que o açúcar da Madeira já estava em perda e a ser substituído pela vinha e em que o açúcar do Brasil já estava presente no mercado europeu.


Embora continuando a ser cultivada, desde cedo se constatou que a cana doce apenas dava para algum abastecimento local em açúcar e em aguardente, não sendo suficiente para exportação. Abastecimento local, pois, e para o trato nos rios de Guiné onde a aguardente era apreciada e se tornará valiosa para a troca de mercadorias.


Na maioria das ilhas de Cabo Verde a secura e a aridez do clima não podiam ser vencidas. Os três meses de chuvas por ano, e por vezes escassas, para mais não dariam. E esses eram os principais obstáculos, porque não faltaria mão-de-obra servil, proveniente da costa africana fronteira para os trabalhos da plantação e mesmo da transformação.


Da colonização de Cabo Verde se pode dizer que se formou uma sociedade escravocrata. E encontram-se até escravos especializados em tarefas ligadas com o açúcar – mesmo um "mestre de açúcares".


Açúcar que não está isento do pagamento do terço ao rei, todavia avaliando-se pelos preços da ilha da Madeira.

Mas isso não basta. E os resultados dessa muito pequena produção ficam evidentes logo no princípio do século XVI: para 70 mil arrobas na Madeira (1508) e 20 mil nos Açores (1509), não mais de 4 nas ilhas de Cabo Verde (1508 e 1509).


Os portugueses persistem nos seus intentos de devassar o Atlântico para sul. Durante o período de arrendamento das explorações da costa africana a Fernão Gomes – 1469-1473 – os navegadores descobrem mais ilhas no golfo de Guiné. Serão Fernando Pó, Ano Bom, Santo António (depois chamada Príncipe) e São Tomé. Destas, pela sua posição e pela fertilidade do solo, será a de São Tomé que atrairá as atenções da Coroa. Também pela sua situação favorecer as relações marítimas.


E será essa uma ilha que satisfará plenamente os requisitos para a aclimatação da cana-de-açúcar – água em abundância, temperaturas elevadas, solo fértil – que primeiro havia que limpar da sua densa cobertura de árvores de grande porte. A colonização arrancou de forma mais lenta do que a das demais ilhas do Atlântico anteriormente achadas. A distância a que fica de Portugal explica essa demora. O senhorio da ilha sempre se manteve na posse da Coroa. Os infantes ou os seus sucessores não a receberam em doação, como ocorrera com as outras ilhas. Novos tempos em que a aristocracia já não tem o mesmo poder dos tempos anteriores? É muito provável.


Logo na carta de privilégios que segue de perto a doação ao primeiro capitão da ilha, o escudeiro João de Paiva, em 1485, se prevê a cultura da cana sacarina. Pelo mesmo tempo aos moradores é concedido o privilégio de navegarem para o litoral do golfo de Guiné, na região a que chamavam os "Cinco rios dos Escravos" que ficavam para além da Mina – ou seja, na costa norte do Golfo. Com excepção do resgate do ouro, que se reservava em monopólio para a Coroa.

Poderoso incentivo, este do trato de escravos. Que depressa se desenvolve. Atenta às primeiras experiências de aclimatação de plantas logo a realeza se convenceu que aí as "canas crescem três vezes mais que na ilha da Madeira", o que implica alguma observação já feita. Mas o primeiro donatário, como o segundo, o fidalgo João Pereira, em 1490, não conseguiram que se iniciasse a colonização da ilha. O falhanço destas primeiras tentativas não apressaria a chegada de povoadores, embora se presuma que alguns tenham ido. Com a entrega da capitania ao fidalgo da casa real Álvaro de Caminha, que para lá se deslocou em 1493, então sim se começa o povoamento de mais uma ilha.

Com ele foram uns 2 mil meninos de 8 anos para baixo, que tinham sido retirados aos pais, judeus castelhanos, e enviados depois de baptizados à força. Cerca de 600 terão sobrevivido, contribuindo para o povoamento de São Tomé. Também seguiram degredados, como tinha acontecido para a Madeira e para os Açores, e para aqui em bom número.

Poucos anos depois aí se contavam uns mil moradores, alguns que para lá foram "por seu grado (…), deles por soldo, deles pelo resgate de Guiné, porém os mais são os degredados". Sociedade que arranca logo com uma ampla base de escravos. A cada degredado mandava o rei que fosse entregue um escravo ou uma escrava negra "para sua ajuda e serviço qual ele quisesse." Depressa se instalam e multiplicam os servos, "que lhe trabalham e roçam e criam inhames e milho com que ganham bem". Mais de 2 mil seriam os escravos na ilha, em princípios de quinhentos, a que há que somar os que por lá transitavam, por vezes 5 ou 6 mil.

Aproveitando a abundância de águas e as elevadas temperaturas equatoriais, logo se plantam "grandes canaviais de açúcar e as canas maiores que da ilha da Madeira, de que já fazem melaço e daqui avante quer o capitão mandar fazer açúcar e cada dia cresce mais".

Em 1499 ainda se não fazia açúcar, embora o capitão tivesse consigo os necessários utensílios de cobre para as operações. Era a espera para ver o que dava a produção dos canaviais. Poucos anos depois, em 1506, se escreveu que nesta "ilha se criam as canas d'açúcar em tanta vantagem das outras partes que não pode mais ser". O que coloca o plantio da cana doce já bem dentro do século XVI, a que se vai juntar alguma produção na pequena e próxima ilha do Príncipe. Mas os colonos de São Tomé ter-se-iam dedicado de início sobretudo aos negócios no espaço marítimo em que se encontravam, e muito em especial navegando para São Jorge da Mina. No trato de escravos.

O binómio açúcar-escravos instala-se pela primeira vez no império português. Porque se o trabalho escravo já ocorrera nas outras ilhas, nada de semelhante dimensão até então acontecera. Em 1515 e em 1517 os escravos e descendentes dos que acompanharam os primeiros povoadores foram alforriados. Faziam parte do grupo diversificado que iniciara a exploração da ilha e teriam relações de trabalho e de solidariedade com os colonizadores europeus que primeiro se instalaram. Ligações de interesses que se estabelecem em sociedades isoladas. Mas ficariam a formar um grupo social bem distinto. Como antigos servos que se não confundem com os escravos que continuamente vêm de Benim, de Guiné, do Gabão e do Manicongo. A somar – e a complicar – esta diversidade estavam os mestiços que entretanto se criaram. Que formariam um estrato social crioulo diferenciado.

Primeiro houve que desbravar a ilha, desbastando a cobertura vegetal cerrada. Derrube e queima, que deixaram tratos de solos bons para o plantio das canas-de-açúcar, sobretudo junto das costas. Porque a exuberante floresta equatorial continuou no interior montanhoso. A produtividade logo se revela alta, e contínua: "em todos os meses as plantam e cortam [as canas]". O número dos engenhos vai multiplicar-se, sobretudo no Nordeste da Ilha, com boa aptidão para a cultura canavieira.

Por 1517 já a cana doce devia produzir com toda a pujança. Tratava-se então de construir o terceiro engenho, grande, que dois outros já laboravam. Havia água, não faltava lenha. "E as canas as mais façanhosas que em minha vida vi. (…) Há cá muitas canas tão grandes que nenhum homem em pé alevantado a mão lhe pode alcançar. E pela mor parte são todas tais". A cana estava em plena expansão. Em 1522 teme-se na Madeira a concorrência desta nova produção. Que por 1525 devia atingir as 111 mil arrobas ou talvez mais. E que tinha saída para a Flandres. Em 1532 a câmara de Lisboa proibiu o uso do açúcar de São Tomé misturado com açúcar da Madeira em conservas, o que indignou os mercadores e confeiteiros da capital. O próprio rei negocia em açúcar que manda comprar na ilha.

Em 1540-1541 contam-se ali "cerca de 60 [engenhos] movidos a água, com a qual se mói e espreme a cana". "Esta ilha produz à volta de 150 mil arrobas de açúcar e até mais". O surto açucareiro de São Tomé contou com a ida de homens da ilha da Madeira, experimentados na fabricação. Já então era comum a ida de navios de Lisboa para carregar açúcares a São Tomé. Porque a "principal ocupação dos habitantes é fabricar açúcar e vendê-lo aos navios que todos os anos o vão buscar".

Mercado para o açúcar – agora o de São Tomé – continua a ser o flamengo. 112 navios entram com açúcar no porto de Antuérpia de 1535 a 1548, quase exclusivamente de São Tomé. Atividade assente no trabalho de escravos, que cultivam "a terra para plantar e fazer o açúcar. E há homens ricos que possuem 150, 200 e até 300 [escravos], entre negros e negras, os quais têm a obrigação de trabalhar toda a semana para o seu senhor, menos ao sábado, em que trabalham para a sua sobrevivência". Servidão, mais do que escravidão? As duas situações coexistem, e tornam-se muitas vezes conflituais.


No entanto, a qualidade do açúcar não seria a melhor devido à humidade elevada, que não permitia que enxugasse e endurecesse como convinha ao seu transporte. Apesar de o guardarem com cuidado, as condições naturais punham limites à sua conservação, pelo que havia pressa em o vender. A sua qualidade, porém nunca foi considerada como semelhante à da ilha da Madeira. Pelo contrário, em 1578 a arroba de açúcar de São Tomé valia 4 vezes menos do que a da Ilha da Madeira. Mas ainda seria muito volumosa a produção, da ordem das 200 mil arrobas nos anos terminais do século XVI. Para rapidamente decair. No que pode ter intervindo a moléstia das plantas. Em 1579 deu sobre as canas "o mal de praga, nunca visto", de que resultou que "se não fez açúcares nenhuns". Seria doença temporária, ligada com ocasional escassez de chuvas, mas que causou fortes abalos à regularidade da produção.

Ao contrário da Madeira, dos Açores ou mesmo de Cabo Verde, é aqui que surge a primeira cultura de plantação. Obtida a terra, a pessoa que se quer tornar produtor
compra imediatamente uns tantos negros com as suas negras e põe-nos a cultivar o terreno, isto é a abater as árvores e depois a queimá-las para plantar a cana-de-açúcar. O senhor não fornece coisa nenhuma a estes negros, mas como ficou dito acima, eles trabalham toda a semana para o senhor e apenas ao sábado para garantir o seu próprio sustento.
Andam nus, só resguardando as partes vergonhosas. A "raiz do inhame é o seu sustento". Bastante escravaria ocupada em permanência; em grandes quantidades ainda a escravaria que por ali transita a caminho de outros destinos. A ilha é um "depósito e centro distribuidor" de escravos. E poucos são os colonos para dirigirem o aproveitamento da ilha.

Porque poucos eram os europeus aí moradores. Muitos os escravos, muitos os mestiços. O que vai pôr em perigo o estabelecimento colonizador do golfo de Guiné. Desde cedo os escravos fogem, organizam-se em comunidades, revoltam-se. Assim evitavam serem enviados para as plantações do Brasil ou das Caraíbas. Quilombos agressivos. Pelo menos desde 1530 que ocorrem as fugas de grande número de escravos. Nesse ano foram para as serras 230. Eram chefiados pelos designados mocambos. Mocambo é nome depois dado a estes grupos de escravos fujões. É
verdade e notório que o mocambo com muita gente andam no mato fazem quanto dano podem em matar e roubar homens e destruir fazendas, o que todo é perda e dano do povo desta ilha e moradores dela e desserviço d'el-rei nosso senhor e muita perda de sua fazenda e rendas que em esta ilha tem,
escreve-se em 1535. O que vai provocar uma repressão destes desmandos. Em que avulta um novo cargo de "meirinho da serra." Que irá organizar uma persistente "guerra do mato". Por meados do século enceta-se um movimento inverso, de regresso destes fugidos. Que eram acolhidos como homens livres.

A grande rebelião de 1574 dos angolares provoca destruições nos engenhos e leva à quebra da produção açucareira. A exportação baixa, naturalmente. No fim do século também já se diz que as plantações estão diminuindo, devido a uma doença que rói as raízes das canas. Mas a doença social não seria menos grave. Porque se temiam sempre os "negros alevantados" que podiam provocar mortes e pilhagens. Os revoltosos chefiados pelo proclamado rei Amador destroem 70 engenhos de açúcar, em 1595. O grupo dominante da sociedade local também se não entendia dentro de si mesmo, lutando pela riqueza e reputação, com conflitos graves entre as autoridades civis e religiosas.


O "governador queria ser prelado, o cabido queria ser governador, o ouvidor queria ser soldado e todos eles queriam ser tudo". E de tudo a economia se ressente. Inevitável. Com esta instabilidade interna e em período de concorrência com o Brasil, o açúcar de São Tomé entra em depressão.

O açúcar e os escravos fizeram a fortuna da ilha. Ilha que, arruinada a cultura sacarina, se mantém atrativa para o trato de mão-de-obra, pelo que será atacada e pilhada por piratas e por tropas estrangeiras. Conquistada pelos holandeses e de seguida retomada, no século XVII. Porque era considerada indispensável para sustentar o fornecimento de escravos ao Nordeste brasileiro. A prosperidade açucareira dos anos de quinhentos fica para ser lembrada.

Oriundo do sueste da Ásia, estabelecido e desenvolvido no mar Mediterrâneo pelos árabes, conhecido na Europa com as Cruzadas, o açúcar vai expandir-se pelas ilhas do Atlântico durante os anos de quatrocentos e de quinhentos. Onde quer que cheguem os portugueses tentam adaptá-la ou pelo menos observar a existência de condições favoráveis à aclimatação. Na África, também se poderia ter instalado a nova cultura. Na região do Gâmbia se sabe que "se podiam fazer formosos canaviais de açúcar".

Também no vale do Quanza, em Angola, poderia ter sido tentada uma boa produção. Mas não: nos anos de quinhentos a África não interessava como produtora de plantas, mas como fornecedora de cativos e de metais preciosos: ouro, que se resgatou em grandes quantidades, prata que em vão se procurou. Por isso nem sequer a cultura canavieira foi experimentada. A concessão da capitania de Angola a Paulo Dias de Novais foi tardia: 1571.


Mais tardio ainda o início da instalação: 1579-1580. Os rendimentos que imediatamente se esperavam eram os da venda de escravos e as miríficas minas de prata que a fantasia europeia por ali tinha colocado, não se sabia onde. Minas buscadas sem nunca se acharem. Em ocupação do território dificultada pelas resistências dos naturais, que levaram a imprimir à presença portuguesa o cariz de verdadeira conquista à mão armada. Embora a cana sacarina se adaptasse bem, não se seguiu a sua exploração. Com o estado de guerra quase permanente e a preocupação com o trato de escravos não ficavam lugares para uma pacífica economia agrária destinada à exportação.

A cana doce foi sendo experimentada nas ilhas do Atlântico, passando depois ao Brasil – como pelas Canárias terá chegado às Caraíbas. Arrancando com alguma lentidão na Terra de Santa Cruz a partir do litoral de São Vicente, em breve se diz na Paraíba do Sul que há "muitos engenhos d'água feitos e pode já agora render muito havendo paz na terra". Mas a grande produção vai estabelecer-se em Pernambuco, com o capitão Duarte Coelho. Por volta de 1570 o açúcar já atingia enormes quantidades além-Atlântico, chegando a 1200 mil arrobas por 1600. A cana estava transformada numa grande produção tropical. Ao conquistar o Brasil o açúcar tinha conquistado o mundo. Foi uma das grandes culturas que de especiaria cara, usada em medicina por gente de posses, se tornou comum e de consumo muito elevado. Embora mantendo-se como produto de luxo, porque nem todos, em toda a parte, lhe podiam chegar. Ao encontrar solos, climas e águas propícias volveu a mais próspera indústria de base agrícola da cristandade. Para o que contou com o ser-lhe afetado um contingente de mão-de-obra numerosa. Mão-de-obra forçada ao trabalho, mão-de-obra escrava, espoliada à África negra.

As primeiras canas-de-açúcar idas para o Brasil seriam de São Tomé? Não se sabe, mas é mais provável que tenham sido levadas da Madeira. Porque se o açúcar da Madeira era considerado o melhor dos dois, não seria do que se tinha por menos bom que se iriam transportar as plantas para que se aclimatassem e expandissem além-Atlântico. Tanto mais que experientes mestres madeirenses para o Pernambuco foram, logo entre os povoadores que acompanharam Duarte Coelho. De São Tomé teriam sido transportados muitos escravos. Isso sim. Alguns tendo aí feito a aprendizagem dos trabalhos de cultura e transformação.

Açúcar e escravos: a doçura do produto vinha amargada pela violência a que eram forçados os que plantavam, cortavam e transportavam a cana de açúcar e ainda os que moíam, vigiavam a cozedura, purgavam, secavam, enformavam e embalavam o açúcar. Para além da apanha e carreto da lenha para aquecer as caldeiras. Entre o lavrador e o consumidor interpunham-se muitas e especializadas operações até se obter o doce final que chegava às mesas e às mezinhas dos que podiam comprá-lo. Açúcar e escravos, conjugação que vai ter consequências de monta no que se irá passar no Novo Mundo, no Brasil e nas Caraíbas. Porque cedo se articularão. E um não vai sem os outros. Exigindo a violência da captura, prisão e transporte de africanos para as Américas. Multiplicando as cores dos homens com que se vai povoando o mundo. 




Expansão Portuguesa
(Séculos XV e XVI)




As "Donas Amélias" são as queijadas típicas da Ilha Terceira


A receita original

Esta é a receita original, foi preparada e oferecida pelas senhoras de Angra do Heroísmo
à Rainha D. Amélia de Orleans e Bragança, em 1901, durante a sua Visita Régia 







O Alfenim ainda hoje é muito frequente e apreciado nas ilhas do grupo central,
 sobretudo  na ilha Terceira




Alfenim, o sabor árabe no ritual cristão…



No Século VIII, os Árabes invadem e ocupam a Península Ibérica e terá sido nessa altura que introduziram esta gulodice, confeccionada com açúcar ou melaço de cana, designada por “al-fenid” ou “al-fanid” significando a palavra árabe branco ou alvo e derivando em “alfenim” na língua portuguesa e que era um doce muito popular no sul de Portugal.

A guloseima “al-fenid” ou “alfenim” vai influenciar a confecção de doçaria na região do Algarve e, também, em Portugal.Em 1404, no tempo de D. João I, inicia-se o cultivo da cana do açúcar no Algarve devido à grande procura do açúcar.Em 1425, o Infante D. Henrique manda introduzir a cana do açúcar na ilha da Madeira. Assim, aumenta a produção de açúcar a nível nacional e permite a variedade e a qualidade da doçaria em Portugal.Em 1465, algumas famílias do Algarve vem povoar a parte oeste da ilha Terceira, ou ilha de Jesus Cristo e, possivelmente, poderão ter introduzido esta arte de confeccionar o açúcar e transformá-lo em “alfenim”.

Por exemplo, essa influência mourisca está patente na Ribeira do Mouro na freguesia das Cinco Ribeiras.No século XVI, o Alfenim aparece citado em obras de Gil Vicente e de Jorge Ferreira de Vasconcelos por ser uma gulodice popular em Portugal.Com o descobrimento e colonização do Brasil é introduzida a cana do açúcar onde também, se passa a fabricar o “Alfenim” ou “Alfeninho”. Em 1516 foi enviado ao Papa Leão X a escultura do Sacro Colégio, com todos os cardeais em tamanho natural feitos em alfenim que foi oferta do Terceiro Capitão Donatário do Funchal, D. Simão Gonçalves da Câmara.

O culto do Espírito Santo tem um grande incremento a partir do século XII-XIII aquando do “Milagre das Rosas” da Rainha Santa Isabel e a Coroação dos Pobres na Vila de Alenquer iniciando-se a Devoção ao Divino do Espírito Santo - Terceira Pessoa da Santíssima Trindade simbolizado pela Pomba Branca.

Mais tarde, o “alfenim” ou “al-fenid” devido á sua brancura, que é subentendida como pureza e purificação, foi assimilado e introduzido no culto religioso cristão. Desde então, o doce “alfenim” foi transformado em peças de arte gastronómicas tais como a Pomba Branca representando o Espírito Santo, e todos os outros símbolos utilizados no ritual de celebração da Festa do Espírito Santo ou dos Santos Padroeiros como a coroa, a rosquilha de pão, os animais e outros motivos decorativos que eram doados à Irmandade do Espírito Santo ou outras e, mais tarde, leiloados revertendo a venda para a organização da festa. No caso de graça obtida, a pessoa encomenda à doceira que confeccione uma peça com a simbologia ou outras formas, em “alfenim”, indicando o peso da peça que pretende, a parte do corpo que beneficiou de uma graça do Divino Espírito Santo: um braço, uma perna, um pé, etc..O “alfenim” surge assim, associado às Festas do Espírito Santo e dos Santos Padroeiros, ofertado em retribuição das graças obtidas


Texto de: J. H. Pires Borges 





HISTÓRIA DA SINAGA


1950 - Fábrica da SINAGA em São Miguel
Por volta de 1880, devido à crise da laranja em S. Miguel, surgiu a cultura alternativa da batata-doce.

Como o mercado do Continente era ávido de álcool industrial, a cultura da batata-doce levou à construção, nos Açores, de cinco fábricas de álcool (duas na Terceira e três em S. Miguel).

Na Ilha de S. Miguel, a primeira a surgir foi a fábrica da Lagoa, em 1882, a seguir foi a fábrica de Sta. Clara, em 1884, e finalmente foi a vez da unidade da Ribeira Grande, em 1890.


É este o contexto histórico que conduz ao grande incremento do fabrico de álcool nos Açores, sendo de realçar que, no fim do século passado, foi a cultura da batata doce que contribuiu decisivamente para a modernização da mesma indústria.

A Região dos Açores, nessa altura era ponto de passagem obrigatório para os navios que iam para a Europa, razão pela qual os residentes no Arquipélago acompanhavam o processo de evolução da mesma indústria.

Havia a consciência de que a batata-doce tinha grandes possibilidades de ser cultivada nas ilhas. Associando este aspecto ao da crise da laranja, fica a perceber-se o surgimento da indústria do álcool.

Porém, na Europa, a doença da filoxera atingiu gravemente as vinhas.

A imediata consequência disso foi uma crise séria na produção do vinho, e por isso, o consumo de álcool começou a aumentar, aspecto este que foi determinante para o incremento da cultura da batata-doce.

A produção do álcool, na Região, foi muito importante e positiva durante os últimos 20/30 anos do século XIX - isto, apesar dos muitos obstáculos que lhe foram levantados, conforme foi o caso da criação do monopólio do álcool.

Nessa altura, o Ministério da Fazenda introduziu taxas de captação de dinheiro que arruinavam completamente a indústria do ramo, o que provocou profundas reacções na época, tanto da parte dos investidores, como da parte da própria classe trabalhadora.

Para agravar ainda mais a revolta na Região, sabia-se que os lucros da indústria açoriana do álcool, eram para aplicar na construção dos caminhos-de-ferro de Portugal Continental.


Além disso, a publicação de um Decreto de 1901 que visava defender os interesses da indústria continental, veio limitar a produção de álcool nos Açores!

E nesse tempo, a Região dos Açores já produzia 10 milhões de litros de álcool por ano, tanto quanto Portugal consome actualmente.

Assim, o Decreto de 1901, fez com que a produção de álcool no Arquipélago fosse reduzida para 2 milhões de litros/ano encerrando-se quatro unidades do ramo, duas na Ilha Terceira, e duas na Ilha de S. Miguel.

O continente, deste modo, prejudicou, sem margem para dúvidas, o desenvolvimento da indústria do álcool nos Açores.

É assim que aparece a beterraba - a nova cultura que serviu para os Açores responderem à política restritiva do Governo de Lisboa. As primeiras experiências com a cultura da beterraba açucareira já haviam sido feitas no último decénio do século XIX, por Henrique Bensaúde, pelo Eng. José Cordeiro e pela antiga Estação Agrária.

Em 1902, assim (devido à crise gerada pelo Decreto de 1901), formou-se a União das Fábricas Açorianas do Álcool, UFAA, (que só viria a desaparecer em 1969), e que pediu autorização do Governo para instalar uma fábrica de laboração beterraba açucareira em S. Miguel, com vista à produção de açúcar.

O álcool passaria então, a ser extraído, também, de melaço, um derivado da beterraba sacarina, ultrapassando-se, desta forma, a crise do álcool da batata doce que, mesmo assim, continuou a ser produzido na fábrica da Lagoa, até 1969.

Em 1903, foi finalmente dada autorização pelo Governo, para a instalação de uma unidade industrial para a produção de açúcar, mas com a condição do projecto ficar concluído no período máximo de três anos.

A UFAA aceitou o desafio e mandou mesmo construir a Fábrica de Açúcar de Sta. Clara, exactamente no mesmo espaço que era ocupado pela Fábrica de Destilação de Álcool.

No mês de Dezembro de 1905, a fábrica de Sta. Clara ainda fez a sua última campanha do álcool, e seis meses depois (em meados de 1906) a unidade açucareira já estava instalada (um tempo verdadeiramente recorde, de facto) tendo a fábrica laborado, então, já no mês de Julho desse ano 7.500 toneladas de beterraba, durante um período de cerca de três semanas.

1969 foi o ano da grande viragem histórica, no que respeita à produção do açúcar e do álcool nos Açores.

A SINAGA (actualmente com capital social de 800.000 contos) adquiriu à UFAA as duas unidades industriais de que aquela empresa era proprietária - a de Sta. Clara (açúcar) e a da Lagoa (álcool).

Presentemente a SINAGA excede 100 funcionários efectivos e trabalha com mais de mil agricultores micaelenses que lhe fornecem beterraba.

A fábrica do açúcar é uma industria sazonal, tal como qualquer outra fábrica beterrabeira que só trabalha de 50 a 80 dias por ano, em regime contínuo de três turnos, durante 24 horas por dia, complementando-se com a fábrica do álcool que nunca trabalha em simultâneo.

Atendendo ao clima temperado e húmido dos Açores, a laboração da fábrica começa sempre no mês de Agosto.

Nos tempos da UFAA, a fábrica do açúcar trabalhava cerca de 500/600 toneladas de beterraba por dia.

Na década de 70, a SINAGA decidiu fazer uma remodelação profunda na unidade, processo esse que foi acompanhado, na íntegra, pela British Sugar Corporation (ao tempo, a maior produtora de açúcar de beterraba do mundo).

A partir daí, a fábrica de Sta. Clara ficou com uma capacidade de corte de 1.000 toneladas de beterraba/dia.

Contudo, nesse tempo, só havia uma cultura de beterraba por ano em S. Miguel - a chamada "cultura da Primavera" - semeada em Fevereiro/Março de cada ano e colhida em Agosto.

Como informação, refira-se que a maior produção beterrabeira de sempre foi aquela que se registou no ano de 1964 - 160.000 toneladas - nunca mais se tendo repetido números semelhantes. A laboração da fábrica começou em Agosto e só terminou em Maio do ano seguinte.

Realce-se que essas 160.000 toneladas de beterraba dariam para o dobro do nosso consumo actual de açúcar.

Actualmente a SINAGA possui uma quota de produção de açúcar de beterraba de 10.000 toneladas, para o que necessita de 100.000 toneladas de matéria-prima.

Única no país, até Julho de 1997, altura em que começou a laborar uma fábrica em Coruche, a Fábrica de Açúcar da SINAGA actualmente está preparada para um trabalho contínuo de 120 dias.

A fábrica está instalada numa área de 60 mil m2, e está apetrechada com um forno de cal, com um laboratório de análises de beterraba, com armazém preparado para receber 4 mil toneladas de açúcar – cerca de 3.200 Big-bags de 1.250kg - e com um posto de transformação de energia eléctrica, que é o maior posto privado da Região.


Recentemente a Sinaga juntou ás unidades de produção de vapor, um turbo gerador que lhe permite ser auto-suficiente em energia eléctrica sempre que labora raízes de beterraba açucareira, ou refina ramas de beterraba açucareira.

A sementeira é feita com base num contrato com os agricultores, sendo que, deste modo, os mesmos agricultores, quando se decidem pelo cultivo da beterraba, já sabem, de antemão, que têm garantido a venda do produto.

Os agricultores com contrato sabem ainda, quanto receberão pela produção dado que preço é prefixado em tabelas anunciadas antes da sementeira, e a SINAGA, além de tudo, preza-se de liquidar as suas dividas num prazo de 8 dias depois da entrega da beterraba na fábrica.

Recorde-se que, nos anos 60 os fortes surtos de emigração reduziram bastante a mão-de-obra nos campos.

Na actualidade os poucos recursos humanos existentes nos meios rurais estão a ser canalizados para o sector terciário, o que faz com que muitos agricultores preferiram investir na pecuária, sector bastante incentivado a nível governamental e menos exigente em mão-de-obra.

É de notar ainda que na década de sessenta o arroteamento das terras altas, fez com que se tivesse gerado um desequilíbrio na ocupação das terras, principalmente motivado pelas necessidades da pecuária em pastos permanentes, e que originou o seu alargamento até junto do mar, o que veio contribuir para o decréscimo da área própria para as culturas industriais.

Cultura da beterraba em São Miguel
Ao longo do tempo a SINAGA foi promovendo um conjunto de acções para estimular a cultura da beterraba em S. Miguel, apostando na mecanização da cultura e na formação profissional dos agricultores.

A Sinaga dispõe actualmente de uns Serviços Agrícolas, dirigidos por Técnicos competentes, que comandam uma equipa de trabalhadores com muita experiência na cultura da beterraba sacarina.

Os Serviços Agrícolas da Sinaga têm ainda á disposição equipamentos próprios para a preparação de terras, máquinas para as sementeiras, máquinas para efectuar tratamentos fito sanitários e de aplicação de herbicidas, e por fim máquinas colhedoras de beterraba, adaptadas á morfologia e á dimensão dos terrenos das ilhas da Região Autónoma dos Açores.

Esta particularidade da Sinaga permite que os proprietários dos terrenos agrícolas que não sejam agricultores a tempo inteiro, possam contratar a totalidade do trabalho a desenvolver.

In "SINAGA"

















PERIGLICOFILIA



Periglicofilia é o nome dado ao coleccionismo de pacotes de açúcar, que resulta de perí (do grego, “ao redor”) + glico (do grego glykñs , “doce”) + filia (do Grego phílos , “amigo”).
A periglicofilia é um coleccionismo simples de realizar, com os pacotes de açúcar à disposição de todos de um modo fácil e pouco dispendioso. Tem diversas comunidades online e encontros em várias partes de Portugal e resto da Europa, que o têm vindo a expandir.
A maioria dos Periglicófilos despejam os pacotes de açúcar para guardar na sua colecção. Há no entanto quem os preserve cheios.