terça-feira, 22 de outubro de 2013

Apicultura Açoriana











A apicultura nos Açores remonta ao início do século XVI segundo Carta a El-Rei por Gaspar do Rego Baldaya, em 1554, fazendo vários pedidos e queixas do Dr. Manoel Alvares ( ARCHIVO DOS AÇORES, 1878). 

Produz-se mel em quase todas as ilhas, sendo a produção mais significativa nas ilhas do Pico, S. Miguel e Terceira.







No âmbito regional os aspectos mais 
importantes da apicultura estão aliados ao seu papel ecológico, assegurando e garantindo grande parte da polinização das espécies agrícolas, ao seu papel social, sendo partilhada por todos os estratos sociais, e ao seu valor económico, uma vez que os produtos da colmeia são grande fonte de riqueza, não propriamente em termos de quantidade, mas no aspecto qualitativo. O arquipélago dos Açores possui condições naturais particularmente favoráveis para a apicultura e produção de mel de alta qualidade.














As características edafo-climáticas propiciam o desenvolvimento de uma vegetação abundante, rica e diversificada. Todavia e apesar das grandes potencialidades intrínsecas, o sector apresenta algumas dificuldades na comercialização, pela falta de infra-estruturas organizativas e tecnológicas e pela ausência de estudos aprofundados sobre a caracterização dos produtos apícolas produzidos na região. Como já foi referido anteriormente a apicultura é uma área muito abrangente e não se relaciona apenas com a produção de mel mas sim com muitas outras coisas. De todas elas a mais importante é sem dúvida a polinização de espécies vegetais, pois dela depende todo o equilíbrio ecológico.


Os Açores já produziram muito e bom mel como o atestam as descrições da História Insulana ( CORDEIRO, 1717 ): 

“O principal que rende esta bella parte de tal valle, (das Furnas) he mel, & cera, de forte que até os Padres da Companhia de JESUS tem alli colmeal taõ grande, que cada anno lhes dá hum quarto, ou meya pipa de mel, & algus annos pipa inteyra, & mais de pipa, & a cera correspondente; & affim cera, como o mel, excede na perfeyçaõ ao de qualquer outra parte; …”. 


Na Terceira, produzia-se “… tanto mel de abelhas, que diz Fructuoso haver homem no Porto, ou Posto Santo, que tem quinhentas colmeas, & o melhor pasto dellas.”. No Pico “… tem muytos colmeaes, muyto mel, & muyta cera …”, apenas faltando nas Flores “ Naõ tem esta Ilha commercio algum com outras Nacções …, senaõ com o Fayal, & com a Terceira, … & lhes levaõ muytos dos seus panos, & linhos, & algum gado, & muytas aves; & voltaõ-se com algum vinho, azeyte, mel, louças, & adubos, & o dinheyro que podem.”.

In: Fruter (Açores)











A madeira de Criptoméria apresenta uma série de vantagens sobre o Pinheiro para a construção de colmeias, pelo menos no ambiente húmido do Arquipélago dos Açores. Segundo os apicultores da região, enquanto uma caixa de madeira de Pinheiro pouco mais dura que 4 ou 5 anos, a de Criptoméria pode chegar aos 20 anos ou mais. 

Por outro lado é muito mais leve o que só facilita o maneio.






A sua conservação é feita com um banho de parafina em fusão para impermeabilizar. Regista-se um único senão: madeira demasiado “mole” para resistir ao formão do apicultor sempre que queremos separar as alças ou a prancheta, podendo até abrir buracos. Para o evitar devemos executar tal tarefa com cuidado.












Denominação de Origem Protegida

Mel de néctar obtido principalmente a partir dos néctares de incenso e multifloral. Pode apresentar-se com características diferentes (em 2 variantes):

Mel de Incenso — mel de cor variável, indo de quase incolor a levemente amarelado, com odor delicado, perfumado, com sabor típico a incenso e com consistência fluida, resultante do néctar recolhido das flores da espécie Pittosporum Ondulattum Hort, que faz parte da flora espontânea e existe em todas as ilhas dos Açores. Este mel é produzido entre os meses de Janeiro e Abril e a cresta inicia-se em meados de Maio (tem que ser produzido logo após a conclusão da floração do incenso de modo a que não possa haver contaminação polinífera);

Mel Multifloral - mel de cor castanha escura, com sabor agradável e consistência fluida, obtido da mistura de néctares de várias espécies de flores, nomeadamente de fruteiras tradicionais (pomóideas, prunóideas, castanheiro e citrinos), fruteiras sub-tropicais (bananeira, abacateiro, goiabeira, araçaleiro, physalis e maracujaleiro) e outras espécies (metrozidero, camélia, jarro, conteira, hortência, azália, eucalipto, malvão, alecrim, erva azeda, fava, etc.) que é produzido de Janeiro a Dezembro, efectuando-se a cresta de Março a Outubro.

Na cresta deixa-se sempre um pouco de mel para ajudar a sobrevivência das colmeias. Os quadros são desoperculados à faca, sendo seguidamente centrifugados. O mel é deixado em repouso em estufa à temperatura da colmeia, sofrendo ao fim de alguns dias uma bombagem superficial para retirar as impurezas sobrenadantes.


Apresentam-se comercialmente acondicionados em embalagens de vidro branco de 9,5 a 12,5 cm e peso entre 250 2 500 g. Estes frascos são embalados em caixas de cartão de dimensões adequadas para acondicionar 24 ou 48 frascos.

O mel de incenso é quase um ex libris dos Açores, sobretudo da Ilha do Pico, embora S. Miguel também o produza em quantidade apreciável.

A produção de mel de incenso está calculada em cerca de 40 ton/ano. Produzido na área geográfica constante do Despacho SRAP/94/3 do Secretário Regional de Agricultura e Pescas da Região Autónoma dos Açores. Reconhecida a Denominação de Origem pelo Despacho acima referido. O estatuto de Organismo privado de Controlo e Certificação foi reconhecido à Comissão Técnica para a Certificação (IAMA) pelo Despacho Normativo nº 259/93, de 30-12 da SRAP.

Registada e protegida a Denominação de Origem pelo Regulamento (CE) nº 1107/96, de 12-06.





quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Angra do Heroísmo - 479 Anos - Nova Heráldica




A cidade de Angra do Heroísmo sempre se evidenciou na história nacional.

São diversos os episódios históricos, devidamente documentados, que contribuíram para a identidade única e marcante do povo angrense.

Conhecido pela sua resistência, como pela sua bravura, ao mesmo tempo que, pelo seu carácter jovial e solidário, o povo angrense vê reconhecido o seu valor em 1837, quando a rainha de então decide homenagear este concelho, sobre todos os outros, com um decreto régio que vem dispor o seguinte:

1) Acrescenta ao nome de cidade de “Angra”, o “do Heroísmo”, passando a chamar-se então cidade de Angra do Heroísmo;
2) Ao título de “muito nobre e leal”, é acrescentado “sempre constante”, passando a assumir-se como “muito nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo”;
3) Atribui a Angra do Heroísmo um brasão. Esta foi a primeira e única vez que um monarca atribuiu um brasão a uma cidade. Este, vem representado na capa desta edição do Diário Insular, mediante a seguinte disposição régia: "(...) um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel, em campo vermelho, um braço de prata armado com uma espada na mão; no segundo quartel, em campo de prata, um açor de sua cor, e assim os contrários; sobre tudo, um escudete com as quinas de Portugal; em remate, uma coroa mural; por timbre, o braço armado das armas;(...)”
4) Atribuiu-lhe a grã-cruz da Torre e Espada, do Valor Lealdade e Mérito. Além de Angra do Heroísmo, apenas a cidade de Lisboa detém esta condecoração neste grau (que recebeu já no século XX em regime republicano).

As armas que foram oferecidas a esta cidade, estiveram em vigor até 1939, altura em que o Estado Novo altera a heráldica de todos os municípios, incluindo o de Angra do Heroísmo.

Nesta altura, foi definido pelo heraldista que preparou as novas armas, evidenciar o castelo (de iniciativa espanhola) e assim as cores vermelha e amarela, abandonando o azul e branco.

A Câmara Municipal de Angra do Heroísmo ostenta, ainda hoje, nos seus mais nobres espaços, o sinal da antiga heráldica, que sempre foi respeitado, apesar de oficialmente ter sido substituído.


Hoje recupera-se, formalmente, as armas originais, ganhas por mérito dos nossos antepassados e que nos distinguem dos restantes municípios.



Visite também:  Símbolos de Angra do Heroísmo



NOTA HISTÓRICA

As primeiras armas conhecidas do município de Angra eram constituídas por, em campo de prata, a cruz da Ordem de Cristo com dois açores de sua cor voltados um para o outro, pousados um em cada lado, da base da cruz. Estas armas eram usadas no selo municipal e na bandeira, de sua cor. E resultava da mera assunção das mesmas pelo município, desde tempos imemoriais.

Em consequência do empenhamento da cidade e da sua população no conflito que abriu as portas do país a um regime liberal, constitucional e democrático, a Rainha D. Maria II, por carta de 12 de janeiro de 1837 ordenou que a Cidade de Angra da ilha Terceira se denominasse daí em diante Cidade de Angra do Heroísmo, que ao título de Muito Nobre e Leal, que já tinha, se acrescentasse o de Sempre Constante; e que as suas armas passassem a ser um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel, em campo vermelho, um braço de prata armado com uma espada na mão; no segundo quartel, em campo de prata, um açor de sua cor, e assim os contrários; sobre tudo, um escudete com as quinas de Portugal; em remate, uma coroa mural; por timbre, o braço armado das armas; em roda do escudo, uma fita azul-ferrete, saindo da parte inferior da coroa com a tenção em letras de ouro, Valor, Lealdade e Mérito, tendo pendente a insígnia da Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada do Valor Lealdade e Mérito.

Em consequência, passou este município a usar os novos símbolos heráldicos, ainda hoje patentes no atual edifício da Camara Municipal, construído em 1866.



Em 1881, instada pelo governador civil a fazer registar as suas armas no cartório da Nobreza, a Câmara limitou-se a enviar uma memória ilustrada sobre os seus usos heráldicos, sem abrir qualquer processo de registo por já haver beneficiado daquele decreto de 1837 que lhe concedia as armas que tinha em uso.
A partir de 14 de maio de 1940 o Município de Angra do Heroísmo adotou novos símbolos heráldicos colocando fim a cem anos de vigência das armas que agora se restauraram.

A Câmara Municipal de Angra do Heroísmo ostenta ainda hoje, nos seus mais nobres recantos, o sinal da antiga heráldica que sempre foi respeitado, apesar de oficialmente ter sido substituído.

Restaurando as antigas armas liberais, que tão nobremente correspondem a um dos mais exaltantes períodos da história angrense, a Câmara Municipal limita-se a repor um símbolo de que a cidade de Angra do Heroísmo tanto se deve orgulhar - e restabelece a lógica daquele decreto que num só documento concede títulos («do Heroísmo», e «sempre constante»), condecoração (Colar da Torre e Espada, a 1ª cidade portuguesa a recebê-lo) e brasão de armas (também a 1ª cidade a recebê-lo por expressa determinação do Chefe de Estado, raras vezes repetida no século XIX).



ARMAS RESTAURADAS DA CIDADE DE ANGRA DO HEROÍSMO



ESCUDO

Esquartelado, I e IV de vermelho, um braço armado de prata empunhando uma espada do mesmo; II e III de prata, açor de sua cor; em abismo, escudete de prata com cinco escudetes de azul, dispostos em cruz, cada um carregado por cinco besantes de prata; coroa mural de prata de cinco torres aparentes; timbre, o braço armado do escudo; em redor do escudo o colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito; listel branco, com a legenda a negro: “Muito Nobre, Leal e Sempre Constante Cidade de Angra do Heroísmo”.
 
 In: Site Cultura (Câmara Municipal de Angra do Heroísmo)




VELA DE ESTAI

FRANCISCO MADURO-DIAS

A FAMA DAS ARMAS

A cidade de Angra do Heroísmo decidiu, através das suas instâncias próprias, retomar as armas que lhe foram atribuídas pela rainha Dona Maria II, em 1837.

As razões de tal atitude foram amplamente divulgadas na comunicação social e estão bem documentadas.

É verdade que não vinha mal ao mundo se se mantivessem as outras, criadas em 1940, mas o facto é que tudo ou quase tudo, nos Paços da Câmara e fora deles, assinala estas que, agora, com braço armado e coroa mural, foram retomadas, e não essas que nunca entraram bem a sério na iconografia que cada um guarda na sua cabeça.

As armas e os nomes são coisa muito própria e íntima.

No meio do burburinho alegre do salão nobre da Câmara de Angra, e enquanto os cálices se tocavam no brinde, vi as caras felizes de quem se sentia muito bem com esta atitude agora tomada.

Lembrei-me, então, de uma grande e bela cidade, com menos de metade da idade desta nossa, cujo centro histórico está igualmente no Património Mundial, que resolveu, contra os custos e contra os velhos do Restelo, retomar, também, o nome que lhe dera fama - porque é disso que se trata aqui: São Petersburgo.

Quiseram que fosse Petrogrado e Leninegrado, e foi! Atravessou boa parte do século XX com esses nomes e tornou-se famosa, também, pelo cerco que ficará para sempre registado como "o de Leninegrado", mas, quando se tornou possível tomar este tipo de decisões, a cidade não teve dúvidas que se impusessem contra a retoma do seu lugar na História, no património cultural, na vida da humanidade, e reclamou o "Sankt Petersburg" com que Pedro o grande a crismara, em 1704!

Como me disse um amigo, lá: "foi como se, de repente, tudo voltasse ao seu lugar e ficasse certo!"

O caso de Angra não será tão emblemático, talvez, mas, nem por isso deixei de notar no olhar de vários o mesmo brilho e vivacidade, durante aquela saúde, no salão.

É que as armas não são um simples logótipo de empresa. As armas são - deviam sê-lo, pelo menos, e estas são bastante - o espelho simbólico das nossas atitudes, enquanto comunidade, e devíamos olhar-nos a esse espelho, cada vez que aceitamos, que concordamos, que recusamos, que tomamos um caminho.

O Logótipo, segundo o Instituto Nacional de Propriedade Industrial é o sinal adequado a identificar uma entidade que preste serviços ou comercialize produtos, distinguindo-a das demais.

As armas de Angra do Heroísmo são muito mais do que isso! Pelo braço armado em timbre, pelo esquartelado, absolutamente fora do vulgar, pela condecoração com que a cidade foi agraciada e que é a mais alta e honrosa em Portugal.

Quando visitei o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, reparei numa sala onde, a toda a volta e num friso junto ao estuque do tecto, estavam as armas de todas as cidades portuguesas nos inícios do século XX.

Angra do Heroísmo está lá, com estas armas que agora são, de novo e por direito, as suas!

Aquelas que ganhou e merece.

In: DI (01-09-2013)


sábado, 18 de maio de 2013

Padre Coelho de Sousa




Padre Coelho de Sousa
(Tributo à Memória)



Manuel Coelho de Sousa, pároco, orador, professor, poeta, pintor, jornalista, dramaturgo, encenador e ensaiador e escritor, nasceu a 30 de Setembro de 1924.

Em Outubro de 1937 entrou para o Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, no qual foi ordenado em Junho de 1948.

Coelho de Sousa deu os primeiros passos como jornalista em suplementos culturais e exerceu as funções de Chefe de Redacção no jornal " A União" entre 1956 e 1962.

No ano lectivo de 62/63, Manuel Coelho de Sousa frequentou o curso de Filologia Hispânica na Universidade de Salamanca.

Em 1963 foi nomeado pároco da Vila de S. Sebastião – onde exerceu até ao dia do seu falecimento.

Coelho de Sousa, como professor, leccionou no Seminário-Colégio Padre Damião e na Secundária de Angra (Escola padre Emiliano de Andrade). 

Destacado jornalista, este reverendo assumiu o cargo de director –adjunto deste jornal em 1976, tornando-se mais tarde director, cargo que exerceu até 30 de Setembro de 1994 – curiosamente no dia em que fazia anos e no mês em que, um ano depois, haveria de se despedir do Mundo dos vivos.

Coelho Sousa, com busto na adro da Matriz de S. Sebastião e detentor de nome em rua na Vila S. Sebastião, tem recentemente na internet, um “blog” dedicado à sua “memória histórica”.

Segundo o autor do “blog”, a inicitiva “procura recuperar a memória histórica do Padre Manuel Coelho de Sousa, pároco, orador, professor, poeta, pintor, jornalista, dramaturgo, encenador e ensaiador, escritor e animador cultural que marcou a vida pública dos Açores, particularmente nas ilhas do grupo central do arquipélago e nas suas projecções na América do Norte, a partir da década de 50 do século passado até à sua morte em 1995”.


“Aquém e Além”

"Em Poemas de Aquém e Além, Coelho de Sousa confirma a sua vocação de sacerdote-poeta” – escreveu José Enes, no prefácio da primeira edição do referido livro.

A temática do livro gira ao redor do seu drama íntimo de doação total a Cristo, diz José Enes, que descreve o Coelho de Sousa como “orador sagrado, poeta e desenhista”.

Padre Coelho, assim conhecido por muitos, escreveu ainda as "Três de Espadas" (1979); "Na Rota da Emigração Amiga" (1983); "Migalhas" (1987) e "Boa Nova" (1994). 



Fonte: A União

sábado, 4 de maio de 2013

Santo Cristo dos Milagres



Senhor Santo Cristo dos Milagres
(A origem do culto)

A documentação disponível atribui ao Papa Paulo III (1534-1549) a oferta da imagem a religiosas que se terão deslocado a Roma no sentido de obter uma Bula Pontífica que as autorizasse a instalar o primeiro convento da Ilha de São Miguel, na Caloura ou no Vale de  Cabaços. Contudo, do confronto de diversos documentos levanta-se a hipótese de tal doação poder ser atribuída ao seu antecessor, o Papa Clemente VII (1523-1534).
 
Em virtude do Convento da Caloura, erguido sobre um rochedo à beira-mar, se encontrar demasiado exposto aos ataques de piratas e corsários, então abundantes nas águas do arquipélago, cedo as religiosas ter-se-ão transferido para outros estabelecimentos religiosos, entretanto constituídos na ilha: o Convento de Santo André, em Vila Franca do Campo, e o de Nossa Senhora da Esperança em Ponta Delgada. Entre as que a este último se dirigiram, refere-se o nome de Madre Inês de Santa Iria, uma religiosa oriunda da Galiza, que levou consigo a imagem do "Ecce Homo" (1541), que lá permanece até aos nossos dias.
 

O culto ao Senhor Santo Cristo

O culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres tomou impulso a partir dos séculos XVII e XVIII, dentro dos princípios adotados pela Igreja Católica no Concílio de Trento, no sentido da defesa da importância do culto e da adoração de imagens, um dos princípios de divergência em relação à Reforma Protestante.
 
Deve-se à irmã Teresa da Anunciada o atual culto ao Senhor Santo Cristo. Esta religiosa deu entrada no Convento da Esperança no século XVII, juntamente com uma sua irmã, Joana de Santo António. De origem nobre e de personalidade forte, a profunda devoção que a irmã Anunciada alimentava, e as suas características de santidade, fizeram com que fosse comumente tratada como "Madre", cargo que, na realidade, nunca desempenhou.
 
Desde o momento em que deu entrada no convento, Teresa da Anunciada adotou uma atitude de profunda devoção e entrega à antiga imagem do "Ecce Homo", com a qual estabeleceu uma íntima relação e à qual chamava carinhosamente de "seu Senhor" e "seu Fidalgo".
 
As duas irmãs terão tido a sua atenção despertada, e terão despertado a da população em geral, para o carácter milagroso da imagem. Joana de Santo António, antes de ser transferida para o Convento de Santo André, terá alertado nomeadamente para o poder milagroso de uma estampa que cobria a abertura do peito da imagem.
 
Teresa da Anunciada não se poupou a esforços para engrandecer a imagem do "Ecce Homo", apelando à vassalagem e entrega por parte de todos à mesma. Embora com entraves por parte de uma abadessa do convento, conseguiu que se erigisse uma capela condigna para a imagem, assim como que a imagem fosse ornada com todas as insígnias próprias de majestade. Para esses fins, contou com as esmolas de inúmeros crentes em toda a ilha, do reino e mesmo das colónias, assim como o apoio da própria Coroa.

Pedro II de Portugal, por alvará de 2 de Setembro de 1700, concedeu uma tença de 12.000 réis para manter constantemente acesa uma lâmpada  de azeite diante do altar do Senhor Santo Cristo. Foi ainda a irmã Anunciada quem organizou e instituiu a procissão anual do Senhor Santo Cristo dos Milagres, com o apoio e a colaboração da população.
 
Na atualidade, quando das festas em honra do Senhor Santo Cristo, uma multidão acorre ao Campo de São Francisco e ao Convento da Esperança que, por esta altura, assumem o papel de santuário, numa manifestação de profunda devoção, fé e respeito. Além de se prestar homenagem à imagem do Senhor, são pagas as promessas feitas.
 
Ao longo do restante do ano, a imagem encontra-se guardada numa capela do convento, localizada em frente e em sentido oposto ao altar-mor da igreja, separada da nave por um gradeamento.

A procissão

A primeira procissão em homenagem ao Senhor Santo Cristo ter-se-á realizado por iniciativa da irmã Anunciada, com o apoio da população da ilha, na sequência de uma crise sísmica prolongada, e com o intuito de aplacar a ira divina. Para esse fim, a imagem foi transportada para o altar-mor da igreja do convento, ponto a partir do qual terá partido a procissão, que percorreu todas as igrejas e conventos de Ponta Delgada. De acordo com documentos da época, mal a imagem surgiu à porta da igreja o povo se encheu de grande comoção e a crise sísmica terá parado.
 
A data desta primeira procissão é ponto de controvérsia entre os estudiosos: de acordo com o pesquisador Urbano de Mendonça Dias ter-se-á realizado a 11 de Abril de 1700; Luciano Mota Vieira, por outro lado, aponta o ano de 1698..
 
O fato é que, após a primeira procissão, a mesma tem-se repetido anualmente até à atualidade, sem interrupções, salvo raras excepções, por motivos meteorológicos.
 
No dia de Sábado muitos devotos prestam homenagem ao Senhor Santo Cristo e pagam promessas, por vezes de joelhos no chão, no Campo de São Francisco. À tarde, a imagem é entregue pelas irmãs do convento à irmandade responsável pela festa e levada em procissão para o altar-mor da igreja do convento, onde pernoita até domingo (atualmente, por motivo de escassez de espaço, a imagem pernoita na Igreja de São José, contigua ao Campo de São Francisco).
 
Na noite de Sábado para Domingo muitos devotos afluem, em romaria, de todas as direcções, para passarem a noite em adoração. Na tarde de Domingo realiza-se então a grande procissão, cortejo que percorre as principais artérias da cidade, passando por igrejas e mosteiros.
 
Saliente-se nas festas a exuberante iluminação que decora o Convento da Esperança e o Campo de São Francisco, motivo de grande atracção para locais e para turistas.




 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

José Orlando Bretão






José Orlando Bretão
(Recordando o Dramaturgo e o Pintor)

Real República dos Corsários das Ilhas
Fundada em 1958
José Orlando de Noronha da Silveira Bretão nasceu em Angra do Heroísmo a 14 de Abril de 1939 e faleceu na mesma cidade a 24 de Outubro de 1998. Foi um advogado, dramaturgo e estudioso do folclore açoriano, em especial das danças de Carnaval e das Festividades do Espírito Santo. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi dirigente associativo e co-fundador da Real República Corsários das Ilhas.

Membro activo do movimento estudantil, no ano de 1962 esteve detido na prisão política de Caxias, fazendo parte do grupo de quarenta universitários presos pela PIDE em Coimbra naquele ano. Advogado em Angra do Heroísmo, foi consultor Jurídico do movimento sindical desde Janeiro de 1969 e participou desde então em todas as principais lutas reivindicativas dos trabalhadores terceirenses, antes e depois de 25 de Abril. Especialista de Direito do Trabalho, participou em vários encontros nacionais e regionais sobre Direito Laboral. Foi, nos Açores e durante vários anos, praticamente o único advogado que se dispôs a prestar serviço no movimento sindical unitário.

Foi co-fundador do Círculo de Iniciação Teatral da Fanfarra Operária, onde encenou várias peças de teatro e dirigiu cursos de formação. Sócio efectivo do Instituto Histórico da Ilha Terceira e do Instituto Açoreano de Cultura, foi Presidente da Academia Musical da Ilha Terceira, Sócio Honorário da Sociedade Recreativa Nossa Senhora do Pilar das Cinco Ribeiras e Sociedade Filarmónica Recreio de Santa Bárbara. Foi co-fundador das Cooperativas Culturais Unitas e Centelha, em Coimbra, e da Sextante e Semente, nos Açores.  

Foi Presidente da Assembleia Geral do Cine-Clube da Ilha Terceira e das Assembleias Gerais do Teatro Experimental de Angra O OUTRO TEATRO e da Associação Cultural Oficina d’Angra. Pintor naïf , está representado em  várias colecções públicas e particulares. Foi o primeiro Delegado do F.A.O.J. nos Açores, organismo que viria a dar origem às Casas da Cultura. Em Fevereiro de 1997 foi-lhe atribuída a Medalha de Mérito Municipal de Prata Dourada, pela Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.

Em 21 de Fevereiro de 1998, numa cerimónia que teve lugar no Museu de Angra do Heroísmo, foi celebrado um acordo entre JOSÉ ORLANDO DE NORONHA DA SILVEIRA BRETÃO e a então designada Casa da Cultura de Angra do Heroísmo, segundo o qual ficava entregue à guarda da Casa da Cultura a colecção de textos, fotografia e gravações vídeo e áudio de Danças de Entrudo, Bailinhos e Comédias do teatro popular da ilha Terceira, resultante de uma recolha efectuada pelo investigador ao longo de trinta anos. Pelo acordo assinado, a Casa da Cultura da Terceira comprometeu-se a proceder à salvaguarda da colecção recebida, facultando-a aos estudiosos da matéria para análise e investigação.

Ao ser criado o Centro de Conhecimento dos Açores, a Colecção José Noronha Bretão - Teatro Popular da Ilha Terceira, transitou para o referido Centro, estando disponível ao público interessado no fenómeno cultural do teatro popular da ilha Terceira.

A pintura de Zé Van der Hagen Bretão










Brasão dos Silveira
Willem van der Haegen, por vezes designado por Willelm van der Hagen ou Willelm van der Haagen, aportuguesado para Guilherme da Silveira, nobre flamengo que segundo James H. Guill no Livro " A History of the Azores Islands. Volume 5, pag. 140", era Neto de João I de Borgonha, que em 1470, desembarcou na Ilha do Faial a convite de Joss Van Hurtere, seu 1.º Capitão do Donatário. Liderando uma segunda vaga de povoadores, leva consigo sua família e familiares, mestres de mais variados ofícios. Sentindo posteriormente alguma má vontade e rivalidade por parte de Hurtere, decide abandonar a ilha. Hagen fixa-se nas Quatro Ribeiras, na Ilha Terceira, fazendo sua lavoura de trigo e cultivo de pastel (Isactis Tinctoria Lin.), antes produzido na Picardia e na Normandia, que exportava para a Flandres. Indo a Lisboa, encontra-se com D. Maria de Vilhena, viúva de D. Fernão Teles de Meneses e tutora de Rui Teles, seu filho. Esta cede os direitos de exploração da ilha em troca do pagamento dos direitos sobre as Ilhas das Floreiras - nome por que eram então conhecidas as ilhas das Flores e do Corvo.

"Solar dos Tiagos". Topo - São Jorge
Por volta de 1478, Hagen ter-se-á fixado na Ilha das Flores, no sítio denominado Ribeira da Cruz. Devido ao isolamento das demais ilhas e dificuldades nas comunicações, a exploração agrícola da ilha não era aliciante dada a dificuldade em exportar. Decide então abandonar a ilha, retornando para a Ilha Terceira, e desta para a Ilha de São Jorge onde se fixou definitivamente no sítio do Topo. Viveu com tanta abundância que somente de dízimo da seara que cultivava, segundo diz Gaspar Frutuoso, pagava cada ano 50 a 60 moios (Livro 6.º das Saudades da Terra). Veio a falecer cerca de 1500, estando sepultado na ermida anexa à Solar dos Tiagos, na vila do Topo, hoje em ruínas.

O apelido flamengo Haag que significa bosque, acabou por ser vertido em português por Silveira. Outra variação deturpada do seu nome é Guilherme Vanderaga.

As famílias com o apelido Silveira nos Açores, regra geral, descendem do flamengo Willem van der Hagen. Os seus descendentes espalharam-se por todas as ilhas dos Açores, embora na Ilha Graciosa surja outro ramo onde os Silveiras ali estabelecidos constituem um ramo dos Silveiras do continente português.



José Orlando Bretão

Estudioso do Teatro Popular Terceirense

Aquele que maior contribuição deu ao estudo do fenómeno terceirense que são as Danças e Bailinhos de Entrudo, apesar de já ter partido, há anos, é sempre lembrado quando chega a época do Carnaval.

Sem dúvida que José Orlando Bretão, foi quem deu o maior contributo para o seu estudo, verdadeiramente cientifico, técnico e histórico. E, igualmente quem mais divulgou esta forma de teatro popular, junto das maiores autoridades nacionais do teatro que desconheciam a força, valor e interesse desta manifestação cultural da ilha Terceira, nos Açores.

In: Bago D'Uva



terça-feira, 16 de abril de 2013

Emanuel Félix


Emanuel Félix
(Recordando)


Emanuel Félix Borges da Silva nasceu em Angra do Heroísmo a 24 de Outubro de 1936 e faleceu no dia 14 de Fevereiro de 2004 na mesma cidade. Poeta, ensaísta, autor de contos e crónicas, crítico literário e de artes plásticas. Foi considerado o introdutor do concretismo poético em Portugal, que cedo rejeitou, tendo passado pela experiência surrealista.Fundou e foi co-director da revista Gávea (1958).

Foi co-director da revista Atlântida, do Instituto Açoriano de Cultura. Iniciou os seus estudos nos Açores, tendo, porém, feito quase toda a sua preparação técnico-profissional no estrangeiro, designadamente no Instituto Francês de Restauro de Obras de Arte (Paris), na Escola Superior de Belas-Artes do Anderlecht e na Universidade Católica de Lovaina, onde se especializou no Laboratório de Estudo de Obras de Arte por Métodos Científicos do Instituto Superior de Arqueologia e História da Arte da mesma Universidade.Efectuou visitas de estudo e frequentou estágios de longa duração em institutos superiores e serviços científicos de museus de Paris, Ruão, Bruxelas, Liége, Amsterdão, Londres, Roma, Florença, etc.


Emanuel Félix estreia como poeta com o premiado título O Vendedor de Bichos,combinada com uma delicada intensidade emotiva." no qual revelava uma voz ímpar e inovadora. "O seu nome tornou-se mais do que todos uma referência incontornável na poesia escrita nos Açores, mas, muito mais do que isso, alcandorou-se aos níveis mais altos da poesia nacional. A sua poesia evidencia um fino esmero estético e uma grande maestria e pureza estilística.Da sua produção literária cita-se: Vendedor de Bichos (Poesia) Lisboa, 1965; Angra no Último Quartel do Século XVI, Angra do Heroísmo, 1967; A Palavra O Açoite (Poesia) Coimbra, 1977; A Viagem Possível (Poesia, 1965/81) Angra do Heroísmo, 1984; Seis Nomes de Mulher (Poesia) Angra do Heroísmo, 1985; António Dacosta - Esboço de um Roteiro Sentimental, Angra do Heroísmo, 1988; O Dragoeiro (Dracaena Draco da Macaronésia) Chave da Grande Obra em Jerónimo Bosch, Angra do Heroísmo, 1988; Conceito e Dinâmica do Património Cultural, Angra do Heroísmo, 1989; O Instante Suspenso (Poesia) Angra do Heroísmo, 1992; A Viagem Possível (2ª edição refundida e actualizada) Lisboa, 1993; Os Trincos da Memória (Ficção Narrativa) Ponta Delgada, 1994; Iconografia e Simbólica do Espírito Santo nos Açores, Praia da Vitória, 1995; Habitação das Chuvas (Poesia), Angra do Heroísmo, 1997. 


Por ocasião do 50º aniversário da sua estreia literária, a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo organizou uma grande exposição comemorativa. Dessa exposição foi editado o catálogo Emanuel: 50 Anos de Palavras (1952-2002).




O ano de 2003 marcou a saída de Emanuel Félix: 121 Poemas Escolhidos(1954-1997), numa edição das Edições Salamandra, uma riquíssima coletânea de seus poemas ou melhor: “ o seu testamento poético”.

sábado, 13 de abril de 2013

A Astronomia em Portugal





A Astronomia em Portugal
(Breve história)

O aparecimento da Astronomia em Portugal não está bem localizado no tempo. Consta que o D. Afonso IV (1291-1357), responsável pela introdução dos estudos matemáticos em Portugal, se interessava por Astronomia. É ainda possível encontrar referências a uma observação da Lua atribuída D. Duarte (1391-1438).

No entanto os historiadores parecem estar de acordo com o facto de ter sido o Infante D. Henrique (1394-1460), filho de D. João I (1357-1433), a introduzir o estudo da Astronomia com o objectivo de apoiar as campanhas de navegação.

Em 1419 o Infante D. Henrique criou um observatório/academia náutica em Sagres com o objectivo de preparar pilotos de navegação. Um dos maiores problemas de então, para o desejo marítimo dos portugueses, era a falta de mestres para a formação de pilotos. Assim durante o séc. XV vários foram os reputados cosmógrafos estrangeiros que ensinaram em Portugal. Entre eles podemos destacar Jácomo de Maiorca, Martim de Behaim e, o mais famoso de todos, Abraão Zacuto que vem para Portugal em 1492.

As descobertas marítimas do séc. XV são assim o resultado do investimento:
  • Cabo Bojador, Gil Eanes (1434)
  • Ilhas de Cabo Verde, Cadamosto (1455-56)
  • São Tomé e Príncipe, João de Santarém e Pedro Escobar (1471-72)
  • Cabo da Boa Esperança, Bartolomeu Dias (1487)
  • Gronelândia e Terra Nova, João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcelos (1492-98)
  • Calecute (India), Vasco da Gama (1497-99)
  • Brasil, Pedro Álvares Cabral (1500)
  • etc



E tal como diz Pedro Nunes "Não iam a acertar mas partiam os seus mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras (…)". Pedro Nunes foi um dos matemáticos mais reputados do seu tempo. Nasceu em Alcácer do Sal em 1502 e as suas contribuições para a cartografia e navegação são muito conhecidas.


Mas foi a sua obra astronómica "De crepusculis" que lhe trouxe definitivamente fama internacional. "De crepusculis" foi escrita com o objectivo de resolver uma importante problema da época relacionado com a duração do crepúsculo num qualquer local da Terra e num qualquer dia do ano. Este obra, onde Pedro Nunes apresenta o Nónio, teria recebido o elogio de Tycho Brahe.


Em 1574 Pedro Nunes foi nomeado cosmógrafo-mor do reino por D. Sebastião (1554-1578). Pedro Nunes morre em 1579 deixando um espólio científico de enorme relevo. O presente ano comemora-se o quinto centenário do seu nascimento e têm sido várias as iniciativas para assinalar a efeméride.

É comum fazer (simbolicamente) coincidir a morte de Pedro Nunes com o início de um período de decadência científica em Portugal que, na opinião de vários historiadores, irá atravessar todo o séc XVII e parte do séc. XVIII. O fim do período expansionista com a morte de D. Sebastião pode explicar este facto, uma vez que as descobertas foram um dos grandes motores do desenvolvimento científico em Portugal. A introdução da inquisição em Portugal em 1531, durante o reinado de D. João III, é também apresentada como uma das razões para esse período de decadência.

No entanto, é possível encontrar, no início do séc. XVII traços de uma actividade astronómica muito interessante desenvolvida no seio do colégio jesuita de Santo Antão em Lisboa onde existia uma cadeira de Astronomia e no Colégio das Artes em Coimbra. Cristovão Borro foi um dos seus mais notáveis professores. Assim, a generalização da ideia de um período de decadência do séc. XVII é actualmente algo no mínimo discutível.

Mas é claramente durante o séc XVIII que se pode detectar um considerável desenvolvimento da Astronomia em Portugal. Antes de mais pela construção de observatórios astronómicos. Segundo J. Pereira Osório, na obra já aqui citada, podem contar-se uma dezena de estabelecimentos deste tipo criados durante o séc. XVIII, embora em alguns dos casos com um tempo de vida efémero

Parece assim clara a vontade de apostar na astronomia observacional. Um bom exemplo disso pode ser encontrado nos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772) explicitamente se ordena a criação de um Observatório com uma particular relevância para as aulas práticas:

José Monteiro da Rocha (1734-1819) que, a convite do Marquês de Pombal, participou na elaboração dos estatutos da Universidade de Coimbra, foi um dos nomes maiores da ciência portuguesa. Segundo Gomes Teixeira deveu-se a Monteiro da Rocha a introdução em Portugal das novas doutrinas de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton.

Um dos mais interessantes exemplos do valor dado à observação concerne a criação do Observatório Astronómico de Lisboa. Em meados do séc. XIX a Europa da astronomia debatia-se com várias controvérsias relacionadas com diferentes medições de um mesmo objecto. Por exemplo a distância à estrela Groombridgs 1830 medida por distintos astrónomos dava resultados muito diferentes: O. Struve, do Observatório de Pulkovo, encontrava 36 parsecs e M. Faye, do Observatório de Paris, obtinha 0.9 parsecs ! Por volta 1850, Faye teria sugerido que Lisboa seria o local da Europa ideal para fazer a observação necessária para tirar todas as dúvidas.

Este foi o mote para a construção de um novo Observatório em Lisboa em 1878 com uma dotação especial de D. Pedro V, que permitiu a aquisição de instrumentos de grande precisão. Neste processo de criação e estabelecimento do Observatório de Lisboa, tiveram importância maior pessoas como Filipe Folque, Frederico Oom e M. Campos Rodrigues.

Entre 1700 e 1900 pode registar-se uma produtividade científica extremamente relevante, apesar de uma vivência com alguns períodos conturbados como o foram a expulsão dos Jesuítas (1759) ou a transferência da coroa portuguesa para o Brasil em 1807, depois da tentativa de invasão do território nacional pelas tropas napoliónicas.

De acordo com Rudolfo Guimarães (1909, "O Instituto" da Universidade de Coimbra) pode contar-se mais de 300 publicações nos mais diferentes domínios da Astronomia. Eis alguns exemplos:
  • "Observations des Léonides 1898", Campos Rodrigues, 1899
  • "Observations et explications de quelques phénomenes du disque du Soleil observé à l'Hotel de Cluny, à Paris, le 6 mai 1753 et leur application pour la perfection de l'astronomie", Soares de Barros e Vasconcellos, 1753
  • "O novo planeta Eros e a distância do Sol à Terra", Real Observatório Astronómico de Lisboa, 1901
  • "A questão dos planetas intramercurianos", D'Almeida Garrett, 1869
  • "Habitantes do planeta Saturno", Peixoto do Amaral, 1886


Ainda na mesma obra de Rudolfo Guimarães pode detectar-se um conjunto de artigos que podem ajudar a marcar o início do estudo da Astrofísica em Portugal. Eis alguns exemplos:
  • "The alleged changes of colours in Sirius", F. Oom, 1902
  • "Photometric measurment of star near Rigel", Morais Pereira, 1901
  • "Observations of variables stars from january 1894 to january 1896", Morais Pereira, 1894
  • "Dr. Schwabe's algol variable", Morais Pereira, 1901
  • "Observations of Sun spots. Drawings and measurements of position and surface every available day from 1893 to 1898", Morais Pereira, 1894-1900

Já não é só a posição dos astros que interessa, são também as suas propriedades intrínsecas. A Astrofísica sofre em Portugal um novo incremento graças ao esforço de Francisco Costa Lobo, durante os anos 20, que instala no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra um espectroheliógrafo destinado à obtenção de imagens do Sol, fruto de uma estreita colaboração com o Observatório de Paris.

O séc. XX é a imagem da própria História da Astronomia em Portugal: períodos de claro avanço alternam com épocas mais ou menos longas de aparente inactividade. Hoje em dia a Astronomia em Portugal é uma área em franco desenvolvimento.




In: Portal do Astrónomo