segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os Condes da Praia da Vitória


Brasão de Armas dos Condes
da Praia da Vitória

Os Condes da Praia da Vitória


1º. Conde da Praia da Vitória
Teotónio de Ornelas Bruges Paim da Câmara (Angra, Palácio de Santa Luzia, 25 de Abril de 1807 - Angra do Heroísmo, Palácio de Santa Luzia, 25 de Outubro de 1870), 1.º Visconde de Bruges e 1.º Conde da Praia, de seu nome completo Teotónio Simão de Ornelas Bruges Paim da Câmara de Ávila e Noronha Ponce de Leão Borges de Sousa e Saavedra, foi um notável vulto da história local terceirense e da história nacional que desempenhou um papel determinante no sucesso da causa liberal nos Açores e no arranque do processo que levaria à vitória do liberalismo na guerra civil portuguesa.

Sendo um rico terratenente da ilha Terceira, a sua adesão foi determinante no sucesso da causa liberal na ilha. Liderou, com apenas 21 anos de idade, o movimento político-militar de 22 de Junho de 1828 que restaurou o liberalismo na Terceira e abriu caminho para que a ilha se transformasse no trampolim a partir do qual a causa liberal se imporia em Portugal. Encarregue de diversas missões determinantes para o sucesso da causa e seu principal financiador, foi por duas vezes Secretário de Estado dos Negócios da Guerra do governo da Regência de Angra. Posteriormente, ocupou diversos cargos governativos nos Açores, entre os quais presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, sendo nessa função o primeiro presidente de Câmara eleito no país, e administrador-geral do Distrito de Angra do Heroísmo.

Fragata "Amazona"
Foi eleito deputado às Cortes para a legislatura de 1834 A 1836 pela Província Ocidental dos Açores, sendo entretanto feito Par do Reino a 1 de Outubro de 1835, um dos primeiros a receber tal distinção após a implantação da Monarquia Constitucional. Era figura destacada da Maçonaria.

Teotónio de Ornelas Bruges Paim da Câmara nasceu na freguesia de Santa Luzia, da cidade de Angra, a 25 de Abril de 1807, filho de André Eloy Homem da Costa Noronha e de Rita Pulquéria de Ornelas Bruges Paim da Câmara, ambos da melhor aristocracia açoriana.

1810 - Relação dos Deportados
A sorte fez de Teotónio o herdeiro de pelo menos 25 vínculos diversos, criando nele o maior morgado terceirense e o mais rico terratenente da ilha. Esta posição transformou-o no mais influente homem da ilha, já que contava entre os seus rendeiros e foreiros boa parte dos lavradores terceirenses.

Cedo aderiu à causa liberal, provavelmente por convívio com os deportados trazidos para Angra pela fragata Amazona. A sua riqueza permitindo-lhe ocupar rapidamente lugares de liderança entre os poucos liberais da ilha. Essa posição permitiu-lhe, com apenas 21 anos de idade, ser o líder incontestado da revolta liberal de Angra, um movimento político-militar que com a colaboração do Batalhão de Caçadores nº. 5, então aquartelado no Castelo de São João Baptista do Monte Brasil, restaurou a 22 de Junho de 1828 o liberalismo na Terceira.

D. Maria II
Quando a Terceira ficou isolada como único bastião liberal da monarquia portuguesa, com um governo totalmente desprovido de recursos, empenhou toda a sua fortuna na defesa da causa do liberalismo, sustentando à sua custa as tropas aquarteladas na ilha e mantendo o funcionamento da estrutura administrativa até que fosse possível a chegada de reforços. Apesar da sua juventude, foi-lhe por duas vezes confiado cargo de Secretário de Estado dos Negócios da Guerra do governo da Regência de Angra, sendo nessas funções responsável pela manutenção das forças sitiadas na ilha.

Quando em 1831 se tornou necessário enviar uma deputação a Paris, onde se encontrava então a jovem rainha D. Maria II, para lhe jurar fidelidade em nome dos liberais acantonados na Terceira, a presidência coube a Teotónio Paim de Bruges. Empreendeu então a perigosa viagem, sempre com risco de apresamento pelas forças portuguesas afectas a D. Miguel I, tendo-se havido brilhantemente na sua missão, convidando D. Pedro IV a assumir pessoalmente o comando das forças liberais. Deixou uma impressão tal junto do soberano que terá contribuído para a sua decisão de partir para aos Açores e dali lançar a sua ofensiva.

D. Pedro IV
Durante a sua missão a Paris, esteve em Inglaterra e França e  a acompanhar o exército liberal emigrado e o próprio D. Pedro IV.

Após o seu regresso a Angra, desempenhou as funções de membro da Junta Consultiva e recebeu no seu palácio de Santa Luzia (sito no local onde hoje existe o Observatório Meteorológico José Agostinho) o imperador D. Pedro IV, sendo o principal apoio local na organização da recepção real.

Por decreto real de 7 de Dezembro de 1831 foi nomeado presidente da comissão encarregada de contrair nos Açores um empréstimo de um milhão de réis para apoio ao exército liberal. No dia seguinte foi-lhe concedido o título de Visconde de Bruges.

1832/1982 - O embarque dos Bravos do Mindelo
Terminada a guerra civil, logo em 1834 foi eleito deputado às Cortes Gerais Extraordinárias da Nação pelo círculo da então Província Ocidental dos Açores, mas não consta que tenha prestado juramento. No ano seguinte, por decreto de 1 de Outubro de 1835, foi nomeado Par do Reino, entre os primeiros nomeados do novo regime. Tomou posse na Câmara dos Pares a 26 de Fevereiro de 1836, passando, durante as suas idas a Lisboa, a frequentar a Câmara onde se dedicou essencialmente à defesa dos interesses do seu círculo.

Em 1836 foi nomeado administrador-geral do Distrito de Angra do Heroísmo, funções que exerceu até 1839. No ano de 1847, no contexto da Patuleia, foi eleito Presidente da Junta Governativa de Angra pela Nação e Rainha, ligada à Junta do Porto.

1849 - Câmara Municipal de
Angra do Heroísmo
Desempenhou, por várias vezes, as funções de Presidente da Câmara Municipal de Angra, sendo nessas funções, logo em 1833, o primeiro presidente eleito de um município português.

Optou pela ala setembrista do liberalismo, sendo líder do respectivo partido na ilha Terceira. Aderiu ao Partido Histórico, sendo o seu líder no Distrito de Angra do Heroísmo até ao seu falecimento.

Por carta régia de 6 de Agosto de 1863 foi-lhe concedido o título de Conde da Vila da Praia da Vitória. Era também fidalgo cavaleiro da Casa Real, comendador da Ordem de Cristo e tinha o posto honorário de Coronel Comandante do Batalhão de Voluntários da Rainha. Foi condecorado com a Medalha n.º 9 das Campanhas da Liberdade.

11 de Agosto de 1829 - Batalha da Praia
Esteve envolvido em múltiplas iniciativas de beneficência, devendo-se-lhe a fundação de escolas, asilos e outras instituições benemerentes nas três ilhas que formavam o então Distrito de Angra. Em consequência dessas actividades e da sua intervenção como financiador da causa liberal, foi obrigado a vender a maior parte das suas terras, sendo essa venda uma das razões que permitiram a quase inexistência de latifúndios na ilha Terceira e o equilíbrio sócio-económico de que a ilha beneficia desde os finais do século XIX.

Pedra de Armas da
Câmara Municipal de
Angra do Heroísmo
O processo de desagregação da poderosa Casa dos Condes da Praia terminaria duas gerações depois com a renúncia ao título de 3.º Visconde de Bruges, por insuficiência económica, feita pelo seu neto Teotónio Octávio de Ornelas Bruges que nasceu em Lisboa a 10 de Março de 1861 e faleceu em Angra do Heroísmo a 2 de Novembro de 1906.

Atestando a enorme influência e popularidade de que gozava, o seu funeral foi a maior manifestação popular da história da ilha, juntando cerca de 20 000 pessoas, um número jamais batido.

O conde da Praia tinha casado duas vezes, a primeira, a 16 de Março de 1833, com Elvira Esmeraldo Monteiro, filha de um abastado comerciante da Madeira, e a segunda, a 25 de Abril de 1853, com Emília Amélia de Almeida Tavares do Canto, filha de um destacado morgado miguelista. Teve filhos de ambos os casamentos.


2º Conde da Praia da Vitória
Seu filho, Jácome de Ornelas Bruges de Ávila Paím da Câmara, 2º Visconde de Bruges e 2º Conde da Praia da Vitória, nascido em Angra a  14 de Dezembro de 1833 e falecido no Funchal a 20 de Janeiro de 1889, sucedeu-o na liderança do Partido Histórico, sendo eleito deputado, continuando a sua obra política.

Foi governador civil do Distrito de Ponta Delgada durante o período que decorreu de 13 de Setembro de 1869 a 11 de Outubro de 1877, num total de mais de oito anos, uma proeza notável num período marcado pela instabilidade política.

Por decreto de 24 de Dezembro de 1864 foi feito 2.º Visconde de Bruges, título que havia pertencido a seu pai e que este tinha trocado pelo de Conde da Praia.

Foi adido à legação de Portugal em Bruxelas.

Em 1886, foi sócio fundador da Sociedade Promotora das Artes e Letras da cidade de Angra do Heroísmo.

23-SET-1875 - Carta expedida de Londres,via Lisboa, Franca de Porte de Lisboa para
 São Miguel e, posteriormente, Terceira, endereçada ao Conde da Praia da Vitória


Após a morte de seu pai, ocorrida em Outubro de 1870, herdou a posição de líder do Partido Histórico no Distrito de Angra do Heroísmo, cargo que manteve, após o Pacto da Granja, no Partido Progressista.

Recebeu também em herança a grande casa vincular paterna, a maior da ilha Terceira, mas já muito afectada pelas enormes despesas que aquele fizera no apoio à causa liberal durante a Regência de Angra.

Diz-se que o património que recebeu estava crivado de dívidas, razão pela qual foi forçado a vender a maioria dos bens que herdou.


Por esta altura foi confirmado, por decreto de 9 de Novembro de 1870, no título de 2.º Conde da Vila da Praia da Vitória, sucedendo também no título a seu pai.

Brasão de Armas do 2º Conde
da Praia da Vitória
Par do Reino por sucessão no lugar de seu pai, não se lhe conhecem intervenções relevantes na Câmara dos Pares.

Voltou a ser eleito deputado para a legislatura de 1884-1887, tendo prestado juramento nas Cortes a 28 de Fevereiro de 1885. As suas intervenções parlamentares versaram apenas questões relativas ao seu círculo eleitoral, tendo apoiado outros deputados açorianos em projectos relativos a obras públicas, navegação e fiscalidade no arquipélago.

Faleceu no Funchal a 20 de Janeiro de 1889. Durante a sua carreira foi agraciado com a grã-cruz da Imperial Ordem de Francisco José da Áustria e feito comendador da Ordem Militar de Cristo e da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Era ainda oficial da Academia de França.

Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
No salão nobre dos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo existe um retrato a óleo de Teotónio de Ornelas Bruges, visconde de Bruges, executado pelo pintor italiano Giorgio Marini. O retrato foi descerrado em cerimónia realizada a 1 de Janeiro de 1874, recordando aquele que, logo após a instauração do regime constitucional, foi o primeiro Presidente de Câmara eleito em Portugal.





25 de Abril de 1907
Auto comemorativo do centenário natalício

O centenário do nascimento do Conde da Praia foi celebrado a 25 de Abril de 1907 com grande pompa e circunstância, merecendo edição especial dos periódicos angrenses e larga cobertura pela imprensa de todas as ilhas açorianas.






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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Hospital Militar da Boa Nova

Hospital Militar da Boa Nova
em Angra do Heroísmo

Após 1580 a política dos Filipes consistiu, entre outras, na ocupação e domínio militar do espaço Atlântico, de forma a permitir que as Carreiras da Índia, Brasil e Américas circulassem livremente e sem os consequentes ataques da pirataria marítima proveniente do norte europeu.

Porta de Armas
Nesse contexto era fundamental construir um conjunto de fortificações de cariz militarizado bem definidas e complementares à essência defensiva, de forma a proteger os territórios recém anexados a Espanha e permitir segurança aos naturais e embarcados que aportavam ás Ilhas Açorianas.

Uma das medidas inerentes à ocupação do arquipélago açoriano foi a construção em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, do Castelo de São Filipe (1583), para alicerçar a política de consolidação territorial, e do Hospital Militar da Boa Nova, como parte integrante dos equipamentos edificados necessários ao bom governo e manutenção das praças de guerra.

Este edifício é o primeiro Hospital Militar a ser construído de raiz em território português, considerando-o como um exemplo e modelo arquitectónico, assistencial, e administrativo, que se repercutiu pelo vasto território além-mar e que muito contribuiu para a estratégia da expansão portuguesa e do intercâmbio teórico/científico entre a Europa ocidental e as culturas locais onde estes se edificaram. 


O Hospital tinha por objectivo dar apoio às Armadas e embarcações que se deslocavam para as distantes colónias e entrepostos comerciais, as quais fundeavam obrigatoriamente nesta confluência geográfica, ao Exército que se encontrava nas Guarnições das fortalezas abaluartadas, de S. Sebastião e de S. Filipe, durante longos períodos e à população que residia nesta importante capitania açoriana, que usufruía essencialmente do préstimo da botica.


São João de Deus

É por esse motivo que o Hospital Militar da Boa Nova se apresenta construído numa área estrategicamente definida e organicamente localizado, pois não se encontra intra muros mas em frente à Porta d’armas principal; não está no centro urbano mas num dos extremos da área residencial, permitindo rápido acesso ao local, e está suficientemente próximo do porto para rapidamente acolher os marinheiros enfermos que ali chegavam oriundos do espaço atlântico. 

O Hospital de Nossa Senhora da Boa Nova para além de ser, no contexto internacional, um dos hospitais militares de raiz mais antigos do mundo é, sem dúvida alguma, o primeiro a ser edificado em Portugal, cerca 1600, com objectivos muito concretos e definidos, sendo um exemplo arquitectónico ímpar que se repercutiu no vasto Império português além-mar.

O Hospital Militar da Boa Nova, de Angra do Heroísmo, pelo seu significado histórico, mas sobretudo porque a ele acresce a sua importância enquanto hospital administrado por Irmãos de S. João de Deus vindos de Espanha.

Com a morte de S. João de Deus a 8 de Março do ano de 1550, em Granada, o Irmão-Mor Antón Martin e companheiros, todos seguidores de S. João de Deus, deram continuidade à sua obra; não descansando enquanto não levaram Hospitalidade ao maior número de pessoas possível.


O desenvolvimento da Congregação religiosa emergente foi enorme. Os Irmão de S. João de Deus – Irmãos Hospitaleiros – que serviam doentes, pobres e necessitados, eram chamados para aliviar todas as dores. Abriram muitas dezenas de pequenos hospitais em toda a Andaluzia. Acorreram a assistir militares. Os Reis contavam com a sua Hospitalidade.



Foi neste contexto que os Irmãos de S. João de Deus passaram a integrar Armadas Militares e nelas a prestar assistência de enfermagem. Foi neste ambiente de expansão da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus que os Irmãos de S. João de Deus terão desembarcado na Ilha de Nosso Senhor Jesus Cristo (a Terceira) e nela terão servido militares doentes e feridos no Hospital Militar da Boa Nova, o qual foi administrado por eles.

Mais tarde, no continente português os Irmãos de S. João de Deus administraram dezenas de pequenos hospitais militares, de Norte a Sul do país, e todos eles na fronteira de Portugal e Espanha.

O ano de 2006 assinalou 400 anos da presença dos Irmãos de S. João de Deus em Portugal, pois em 1606 eles chegaram a Montemor-o-Novo e ali construíram um convento-hospital. Mas pelo que aqui se regista  e se vê  Os Irmãos de S. João de Deus estão em Portugal há mais de 400 anos porque Angra do Heroísmo os recebeu no

HOSPITAL MILITAR DA BOA NOVA