domingo, 25 de maio de 2014

Via-Sacra na Sé de Angra


A NOVA VIA-SACRA DA SÉ CATEDRAL DE ANGRA

In: Diário Insular (25-MAIO-2014)

Fotografias de: António Araújo

A opinião de Álamo de Oliveira

Quem visitar a Sé Catedral de Angra ficará, com certeza, surpreendido com as catorze telas que, suspensas nas colunas, constituem a nova Via-Sacra. A surpresa é tanto maior porque as interpretações plásticas de cada quadro não permitem a leitura uniforme que é hábito acontecer em tais circunstâncias - antes, correspondem ao estilo personalizado dos artistas intervenientes. No entanto, é nessa diversidade de expressão que reside parte significativa e responsável pelo encantamento que os quadros desta Via-Sacra provocam.

Poder-se-á dizer que estão ali representadas duas ou três gerações de artistas açorianos, pontificadas pelos veteranos Carlos Carreiro e José Nuno da Câmara Pereira, cada um deles deixando visível a sua marca estética sob uma espécie de discurso plástico diferente, que se preocupou apenas em obedecer ao propósito temático que lhe foi atribuído. O resultado é, no mínimo, encantatório, embora se adivinhe que outros olhares possam sugerir outros sentimentos, entre eles, os da rejeição e da controvérsia, o que, por si só, revela a importância artística da Via-Sacra da Sé de Angra. Nela, faz-se a interpretação de factos que têm sobrevivido ao longo da História, através de uma simbiose socio-religiosa, querememora os momentos mais dramáticos da vida de Cristo (a Paixão e a Morte), aqui reconstituídos com uma narrativa que, paradoxalmente, se expressa sob a gramática da contemporaneidade.


Cada artista recorreu aos materiais que melhor entendeu utilizar e preencheu a tela de acordo com o seu estilo narrativo. Nenhum se repete e todos acabaram por reconstituir, de forma sensibilizante, não só o que foram como o que são os momentos dramáticos da Paixão e Morte de Cristo. A placidez do "condenado à morte", de José Nuno e o sofrimento de carregar a cruz, de André Laranjinha, contrastam com as três "quedas de João Decq e de Diogo Bolota, reservando a atenção sugerida pela segunda queda, assinada por Luís Brilhante, acontecida num recanto idílico e amortecida por uma impressionista cortina de nevoeiro. Tem impacto cromático o "Cireneu" de Vitor Almeida, e não menos impacto o realismo expresso no encontro de Cristo com a Mãe sob o olhar mascarado dos guardas, na versão de Luís Pinheiro Brum. À Nina Medeiros coube mostrar "Verónica" enxugando o rosto de Cristo, tripartindo a tela em apontamentos realistas (Cristo, Verónica e a toalha). Paula Mota surpreende com os rostos, em colagem, das "mulheres de Jerusalém", seguindo-se o despojamento das vestes que Rui Melo interpretou com um expressionismo cromático contido e limpo de artificialismos. A espetacularidade da crucifixão é presenciada por uma multidão de rostos, a que André Almeida e Sousa emprestou emoções diversas. Contrasta, de forma perturbadora com o silêncio árido da morte de Cristo e dos seus parceiros de infortúnio, em quadro assinado por Luisa Jacinto. Ao Urbano, coube evocar o sofrimento da Pietá em desenho vigoroso e, simultaneamente, delicado, sobre a superfície, consistente e irregular, de colorações de fogo, de terras, de enxofre, de magmas abandonados. O funeral de Cristo decorre sob o olhar surrealista de Carlos Carreiro. Figurativo e com o excêntrico, mas alegre, cromatismo que este artista habitualmente utiliza, o quadro dá por finda esta "novíssima" Via-Sacra da Sé de Angra.



Obviamente que cada olhar poderá fazer emergir outras leituras deste conjunto de quadros que tem, como mérito principal, enriquecer o espólio patrimonial da Diocese e da Região. A quem teve a ideiae a fez concretizar, se ficaa dever esta Via-Sacra que é, com certeza, umas das mais originais e mais belas que se podem apreciar nas igrejas católicas do Mundo. Isto quer dizer também que há mais um motivo irrecusável para visitar a Catedral de Angra.



Via Sacra contemporânea

A opinião do P. Hélder Fonseca Mendes

Conscientes que Angra tem uma catedral sebástica, da renascença, talhada pela arte e engenho de cada século, na luta humana contra forças destrutivas de uma natureza sísmica e vulcânica que faz doer, erigimos no século XXI, com direito próprio, na senda dos nossos antepassados, uma nova Via-sacra suspensa em cada uma das colunas que suportam o edifício e aqueles que o habitam.

É um conjunto novo, que nada pretende imitar, a não ser dizer a Paixão de Cristo, conjunto saído das mãos e do lado de catorze artistas distintos, nas tendências, linguagens e processos criativos contemporâneos, para uma Catedral que se vai construindo ao longo dos séculos, e que agora tem muito gosto em acolher a marca do nosso tempo. Faz parte da pedagogia da Igreja dar a conhecer os mistérios de Cristo, em linguagens e imagens de cada época. Trata-se de uma ação pedagógica e catequética, que, para seu melhor dizer, há de ser poética e artística.

O discurso evangélico para o percurso crente e turístico é o seguinte: pela nave da esquerda para quem entra na Sé: Jesus é condenado (José Nuno da Câmara Pereira), carrega com a cruz (André Laranjinha), cai pela primeira vez (Luís Brilhante), encontra a sua mãe (Luís Pinheiro Brum), é ajudado por Simão de Cirene (Victor Almeida), a Verónica limpa o rosto de Jesus (Nina Medeiros), e Ele cai pela segunda vez (Diogo Bolota). Pela outra nave, de quem entra pela direita, continua o caminho da paixão de Cristo e da humanidade, no encontro de Jesus com as mulheres (Paula Mota), na terceira queda (João Deq), no despojamento das suas vestes (Rui Pereira de Melo), Jesus é pregado da cruz (André Almeida e Sousa), morto (Luísa Jacinto), entregue a sua mãe (Urbano) e sepultado (Carlos Carreiro).


Tal como no mistério de Cristo, longe de qualquer heresia, encontramos a divindade e a humanidade, inconfundíveis e inseparáveis, o maravilhoso e o brutal lado a lado, o escândalo do pecado contra o falso escândalo, aprendemos também ‹‹a levar a cruz que a carne e o mundo impõem aos ombros dos que buscam construir a paz e a justiça››.



Se no princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne, no fim não será da morte a última palavra, mas do Vivente, o Ressuscitado.


VIA-SACRA DA SÉ CATEDRAL DE ANGRA



01 - Jesus é condenado à morte
(José Nuno C. Pereira)
02 - Jesus carrega a cruz às costas
(André Laranjinha)

03 - Jesus cai pela primeira vez
(Luís Brilhante)

04 - Jesus encontra a sua Mãe
(Luís Pinheiro Brum)
05 - Simão Cirineu ajuda Jesus
(Vitor Almeida)

06 - Verónica limpa o rosto de Jesus
(Nina Medeiros)

07 - Jesus cai pela segunda vez
(Diogo Bolota)

08 - Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
(Paula Mota)

09 - Terceira queda de Jesus
(João Deq)

10 - Jesus é despojado das suas vestes
(Rui Vasco Pereira de Melo)

11 - Jesus é pregado na cruz
(André Almeida e Sousa)

12 - Jesus morre na cruz
(Luísa Jacinto)

13 - Jesus morto nos braços da sua Mãe
(Urbano)
14 - Jesus é sepultado
(Carlos Carreiro)


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Baleeiros Açorianos




1848 - bALEAÇÃO NO PICO

LUIS BICUDO, CINEASTA
IN DI (15-fev-2014)

Baleeiros personificam a alma açoriana


Acaba de apresentar em Lisboa uma longa-metragem sobre as vivências baleeiras do Pico e do Faial. Que olhar pretende transmitir sobre uma atividade que durante mais de um século foi importante para as comunidades dessas ilhas?

O universo da baleação nos Açores é demasiado vasto para ser representado num só filme. Antropologicamente, encontra raízes tão longínquas como nas populações nativas de Nova Inglaterra, ou na baleação basca, cujo início foi entre os séculos VII e XI. Este universo contém ainda as aventuras dos milhares de jovens açorianos que embarcaram na indústria baleeira americana, desde o século XVIII até ao fim desta atividade. Foi a origem de comunidades açorianas por muitos pontos do globo e  culminou em quase um século e meio de história de baleação costeira transversal a todas as ilhas do arquipélago.

"Baleias e Baleeiros" não é sobre a extinta indústria baleeira, nem sobre um passado longínquo. Este filme é um olhar sobre a cultura baleeira de hoje, é sobre os senhores que filmei e que me contaram as suas histórias. É sobre o que os meus avós me transmitiram e o que ainda têm a transmitir. Esencialmente, é sobre a persistência do passado na alma açoriana.

Trata-se de um documentário cinematográfico onde se podem encontrar testemunhos dos últimos baleeiros. Conseguiu fugir à tendência de fazer um registo de certa forma etnográfico?

A etnografia é uma disciplina da antropologia, uma ciência que vulgarmente é definida por "o estudo do homem e da humanidade", percebendo-se assim que é uma ciência bastante abrangente e por isso talvez encontremos alguns pontos em comum com o meu trabalho. No entanto, eu não sou cientista - imagino que ao longo da história os antropólogos desenvolveram métodos de registo etnográfico e imagino também que os trabalhos antropológicos obedeçam a determinadas regras às quais eu não obedeço. Mesmo que no futuro o meu filme possa ter valor para o antropólogo, as minhas preocupações enquanto cineasta são outras. Neste filme, o registo que faço prende-se mais com o cinema enquanto meio de contar histórias e transmitir emoções e não tanto como fundamentação exaustiva de uma tese científica sobre o povo da nossa terra. O meu ponto de partida é familiar proque sou neto e bisneto de baleeiros e cresci naquelas duas ilhas. Assim, mesmo que quisesse, penso que não dispunha do distanciamento suficiente para fazer um registo etnográfico.

A caça à baleia nos Açores cessou há cerca de três décadas. Indepentemente de se concordar ou não com essa atividade, considera que é preciso fazer mais para que as gerações futuras possam saber como foi a atividade baleeira?

A cultura da baleação açoriana nunca será esquecida. Foi interpretada criativamente por escritores e poetas, pintores e artesãos de scrimshaw. No século XX, vários realizadores estrangeiros não se resignaram até filmarem os baleeiros açorianos executando uma técnica de caça que parecia desaparecida do planeta desde há 100 anos. Herman Mellville faz-lhes referência em Moby Dick, e Dias de Melo, faz-lhes justiça na sua vasta obra.

Este traço onírico e fantástico, a que Dias de Melo chamava "A nossa epopeia baleeira", advém da relação entre o Homem e a Natureza - algo que parece esquecido no meio urbano, mas sempre inevitável. 

O baleeiro açoriano lutava em terra por cultivar os seus alimentos, lutava na costa, nos rochedos farpados a que chamava porto, para arriar e varar a sua embarcação, lutava no mar, corpo a corpo, com o Leviatã. Era uma das poucas indústrias, senão a única em alguns portos, onde conseguia algum dinheiro porque a terra, o mar e o trabalho muitas vezes não chegava. Foi esta relação íntima entre a vida e a morte que moldou homens e famílias a uma cultura de grande carácter e orgulho. 

É verdade que os baleeiros que ainda vivem são os últimos de uma geração que já não vai voltar, e acredito que são pessoas muito especiais por terem vivido da forma como viveram. Mas a tradição não existe sem uma constante reconstrução do antigo. É de louvar o esforço do Governo Regional na reconstrução e manutenção do património baleeiro, nomeadamente os botes e lanchas baleeiras, possibilitando a homens e mulheres navegar nestas embarcações todos os anos e celebrar de uma forma única, com dedicação e paixão, a memória dos seus antepassados.


Quais os projetos que pretende desenvolver nos próximos tempos no cinema e as dificuldades que enfrenta para os concretizar?

Enquanto realizador, a minha vontade é filmar os Açores e, felizmente, ideias não faltam. Alguns dos projetos que estou a desenvolver prendem-se ainda com o tema da baleação, outros com aspetos históricos e culturais da ilha do Faial, tal como a importância da marina da Horta para a navegação de recreio internacional. Infelizmente, em Portugal é muito difícil viver do cinema, mas por outro lado, é difícil fazer cinema sem viver dele. 

Não existe uma indústria cinematográfica e praticamente todo o cinema português é subsidiado. Apesar de ser eu o primeiro a investir nos meus projetos, não se pode esquecer que o cinema é uma arte que vive da tecnologia, e para que a técnica seja de alto nível, é necessário muito dinheiro.

Sinto um grande défice cultural neste país, e penso que foram decisões políticas e económicas que levaram as pessoas a preferir o entretenimento ao conhecimento, quando num país com tanto para oferecer, a cultura poderia gozar de um outro equilíbrio. A maior dificuldade pela qual o cinema está a passar é a falta de massa crítica para ver filmes - esta é a raiz do problema. 

Se houvesse mais vontade por parte das pessoas em usufruir da cultura que lhes poderíamos proporcionar, possivelmente os apoios financeiros surgiriam amiúde.


As últimas edições do Labjovem e a bolsa que me foi atribuída pelo Governo Regional foram um grande incentivo para continuar a fazer cinema, assim como todas as pessoas que viram os filmes "A Banana do Pico" e "Baleias e Baleeiros" e apreciaram o meu trabalho.

As vivências dos últimos baleeiros do Pico e Faial
são o tema de uma longa-metragem do jovem realizador açoriano
 Luís Bicudo, apresentada recentemente em Lisboa


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Varandas de Angra

VARANDAS DE ANGRA



Há matemática debaixo dos seus pés...
e por cima da sua cabeça

ENTREVISTA COM RICARDO CUNHA TEIXEIRA

ENTREVISTA: HELENA FAGUNDES
FOTOGRAFIA: ANTÓNIO ARAÚJO
In di (09-FEV-2014)



Tem-se debruçado sobre a matemática das varandas e calçadas açorianas. Como surgiu esse interesse?

Em 2013, celebrou-se o Ano Internacional da Matemática do Planeta Terra. Muitas foram as iniciativas desenvolvidas um pouco por todo o mundo, em que se pretendeu alertar para o papel central que a Matemática pode desempenhar em questões fundamentais relacionadas com o Planeta Terra e também para a sua presença constante no dia a dia. 

Em Portugal, foi criado um Comité sob a égide da Comissão Nacional da UNESCO. Um dos projetos promovidos por este Comité, no âmbito das celebrações que encerram em junho de 2014, visa precisamente o levantamento matemático da calçada portuguesa. O meu compromisso, no âmbito deste projeto, consistiu no levantamento dos padrões em calçada dos Açores. Por outro lado, já há alguns anos que trabalho o tema das simetrias com os meus alunos da Universidade dos Açores, não só nas calçadas, como talvez nas varandas, no artesanato e na azulejaria.

No caso das calçadas, que trabalho já está feito?



O levantamento dos padrões em calçada dos Açores ficou concluído no final de 2013. Todas as nove ilhas do Arquipélago foram contempladas com pelo menos um roteiro de simetria. Os itinerários de simetria, bem como alguns textos de apoio destinados ao público em geral e diversas notícias que têm sido divulgadas sobre o assunto estão disponíveis 
em http://sites.uac.pt/rteixeira/simetrias


Quais foram as principais conclusões quanto às calçadas de Angra do Heroísmo?


Do ponto de vista matemático, prova-se que existem apenas sete maneiras de repetir um motivo ao longo de uma faixa, recorrendo aos diferentes tipos de simetria do plano, o que conduz a sete tipos de frisos. Daí que um dos objetivos do levantamento realizado nos Açores passou por identificar as cidades açorianas com mais tipos de frisos nas suas calçadas. A cidade da Horta, com seis tipos de frisos, e as cidades de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada, com cinco tipos, lideram a lista. Este resultado é notável, tendo em conta que atualmente Lisboa é a única cidade portuguesa que apresenta os sete tipos de frisos em calçada. Um feito relevante, não só do ponto de vista científico como também turístico, passaria por algumas cidades açorianas alcançarem a totalidade dos tipos de frisos nas suas calçadas. Existem autarquias interessadas em atingir este objetivo. Uma delas é a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. Já reuni com o professor Álamo Meneses e estamos a equacionar algumas iniciativas que visam valorizar o património em calçada de Angra.


De que forma acha que podemos explorar o potencial das calçadas que pisamos todos os dias, mas que podem ser novas para os turistas?

A calçada artística é um marco português no mundo, sendo apreciada por muitos dos turistas que nos visitam. Assim que a cidade de Angra do Heroísmo alcançar os sete tipos de frisos, como se espera, seria interessante disponibilizar roteiros de simetria, em várias línguas, com os itinerários a percorrer e com informação adicional sobre o património desta cidade, por exemplo, através da colocação de códigos QR nas suas calçadas. Mas podemos não ficar por aqui: é possível envolver os artesãos da Ilha Terceira de forma a reproduzir os sete tipos de frisos em diferentes materiais, o que se pode refletir numa articulação interessante com o artesanato local. Em Abril do ano passado, fui coorganizador de um encontro internacional de Matemática Recreativa, promovido pela Associação Ludus, que reuniu em Ponta Delgada cerca de 100 matemáticos de 20 países. O roteiro de frisos em calçada de Ponta Delgada foi divulgado nesse encontro e transformou-se num autêntico sucesso entre os participantes, muitos dos quais fizeram questão de percorrer as ruas de Ponta Delgada e confirmar os padrões em calçada com os seus próprios olhos. A verdade é que hoje em dia temos um turismo cada vez mais exigente que procura ofertas de qualidade. A identificação das simetrias nas calçadas e varandas tem também o dom de ser acessível ao público em geral. O conceito intuitivo de simetria acompanha-nos desde que começamos a ter consciência do mundo em que vivemos. Com uma explicação sucinta dos principais conceitos matemáticos, é possível perceber com facilidade como se classificam as figuras quanto às suas simetrias.


No caso das varandas, como tem sido desenvolvido o trabalho?


Depois das calçadas, estão a ser exploradas outras vertentes em que o tema das simetrias pode ser aplicado. Uma dessas vertentes passa pelo estudo dos frisos nas varandas açorianas. Outros aspetos que estão a ser equacionados têm a ver com o estudo das simetrias na azulejaria e no artesanato. Neste processo, conto com a parceria de Susana Goulart Costa, docente do Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade dos Açores e especialista em Património. Pretende-se estabelecer pontes de ligação entre o turismo, a ciência e o património.

Que cidades açorianas estão a ser exploradas?

Por ser património da Humanidade e tendo em conta as bonitas fachadas de muitas das suas habitações, considerei que Angra do Heroísmo devia ter o merecido destaque no estudo das simetrias das varandas açorianas. Por isso mesmo, o Roteiro de Varandas da Cidade de Angra do Heroísmo, que agora se apresenta, é o primeiro itinerário de simetria dedicado às varandas a ser apresentado ao público. Foi desenvolvido com a colaboração de Raquel Mendonça e Vânia Silva, alunas do 3º ano da licenciatura em Educação Básica, do Departamento de Ciências da Educação da Universidade dos Açores, no contexto da disciplina Aplicações da Matemática, de que sou regente há alguns anos. O próximo roteiro de varandas a apresentar é o da Cidade de Ponta Delgada. Este roteiro foi desenvolvido por Vera Moniz, aluna do Mestrado em Matemática para Professores, do Departamento de Matemática da Universidade dos Açores, e deverá ser disponibilizado em breve.


"A calçada artística é um marco português no mundo, sendo apreciada por muitos dos turistas que nos visitam. Assim que a cidade de Angra do Heroísmo alcançar os sete tipos de frisos, como se espera, seria interessante disponibilizar roteiros de simetria, em várias línguas, com os itinerários a percorrer e com informação adicional sobre o património desta cidade"

O que torna as varandas angrenses ricas do ponto de vista matemático?


A variedade de varandas em ferro fundido de Angra do Heroísmo traduz-se também numa diversidade do ponto de vista matemático. À semelhança das calçadas, foram detetados cinco tipos de frisos nas varandas de Angra. Contudo, apenas quatro tipos são comuns às calçadas e varandas. Há um tipo de friso nas calçadas que não se encontra nas varandas e vice-versa. Posso apresentar em traços gerais um exemplo de cada um dos cinco tipos de frisos detetados nas varandas de Angra e que estão contemplados no roteiro. Ao observar a varanda do Exemplo A, que pertence a uma habitação no Alto das Covas, reparamos que há um motivo que se repete ao longo de uma faixa (a figura apresenta, por isso, simetria de translação numa única direção, propriedade que é comum a todos os frisos). Não existem outras simetrias desta figura.

Na Rua da Sé (Exemplo B), encontramos uma varanda que, para além da repetição do motivo ao longo da faixa, apresenta simetrias de reflexão verticais (se escolhermos uma das retas representadas em B e dobrarmos a figura segundo essa reta, há uma sobreposição completa das duas partes do plano definidas pela reta, facto que também pode ser comprovado se colocarmos um espelho com o bordo assente nessa reta). Por seu turno,


o Exemplo C corresponde a uma faixa de uma varanda na Rua da Guarita que apresenta meia-volta, ou seja, simetrias de rotação de 180 graus (isto significa que, se virarmos a figura de pernas ao ar, a sua configuração não se altera). De notar que o exemplo em B não tem meia-volta, pois ao virarmos a figura de pernas ao ar, a sua configuração é diferente da inicial. Por fim, a varanda do Exemplo D, localizada na Rua Carreira dos Cavalos, e a faixa do Exemplo E, que pertence a uma varanda da Rua do Galo, apresentam ambas meia-volta. Para além disso, também têm simetrias de reflexão verticais (com direção perpendicular à do friso), mas apenas a primeira apresenta simetria de reflexão horizontal (com a mesma direção do friso).


Em D, identificou-se o eixo de simetria horizontal. Os eixos de simetria verticais não estão representados em D e E, uma vez que a sua identificação é em tudo semelhante à análise feita em B.

Há uma grande diversidade de frisos dos 5 tipos mencionados, sendo que algumas varandas apresentam mesmo duas ou três faixas com frisos de tipos diferentes! Trata-se de um património que é importante conservar e valorizar. O leitor interessado poderá consultar o Roteiro de Varandas de Angra do Heroísmo e um catálogo alargado com muitos exemplos adicionais em http://sites.uac.pt/mea/iniciativas/am/13-14 Os itinerários de simetria também estão a ser divulgados no site oficial do Ano Internacional da Matemática do Planeta Terra.

Acha que estamos despertos para a matemática que nos rodeia?

Entendo que o cidadão comum está mais desperto para a matemática e para a sua importância do que há alguns anos atrás. Contudo, ainda temos um longo caminho a percorrer de forma a sensibilizar pais e filhos para a importância de desenvolver bases fortes a esta disciplina. Em tempos difíceis como os atuais, é crucial que se quebre o ciclo em que "a falta de jeito" a matemática passa de geração em geração e é entendida como algo natural, ou mesmo inevitável.

O mercado de trabalho não está fácil e muitos dos empregos disponíveis centram-se na área das ciências exatas e das engenharias, pelo que o "desconforto com a matemática" pode significar atualmente uma redução muito significativa do leque de opções na escolha do futuro emprego. Mesmo nas humanidades e em áreas como as ciências biológicas e da saúde, a importância de aplicação de ferramentas matemáticas tem crescido de forma considerável.

"Considerei que Angra do Heroísmo devia ter o merecido destaque no estudo das simetrias das varandas açorianas. Por isso mesmo, o Roteiro de Varandas da Cidade de Angra do Heroísmo, que agora se apresenta, é o primeiro itinerário de simetria dedicado às varandas a ser apresentado ao público"

Olhar mais para a matemática que está à nossa volta pode ser útil nas nossas escolas?


Para além da vertente turística, o tema das simetrias tem forte presença nos programas e orientações curriculares, pelo que a exploração dos padrões em calçada, bem como dos padrões nas varandas, pode constituir uma excelente oportunidade para que os jovens ponham em prática os conceitos que aprenderam na Escola.

Aliás, muitos dos conceitos matemáticos explorados dentro de quatro paredes têm aplicações concretas no dia a dia. E é este aspeto que tem que passar para a opinião pública, de forma a haver uma maior valorização da importância de aprender matemática e de que é preciso esforço para alcançar resultados positivos a esta disciplina. 

Escrevo regularmente artigos de divulgação que visam precisamente alertar o público em geral para a presença constante da matemática no nosso quotidiano. Desde a matemática dos ananases, passando pelos códigos de barras, pelo número de série das notas de euro e pela matemática do cartão do cidadão, pretendo mostrar um outro lado da matemática, desconhecido de muitos. Os artigos estão disponíveis em http://sites.uac.pt/rteixeira/divulgacao

Pretende "fazer mais contas" nas ilhas açorianas?

O fascínio da matemática e da ciência, em geral, é que está em constante crescimento. Há sempre novas oportunidades de exploração ao virar da esquina!  


Ricardo Cunha Teixeira, professor da Universidade dos Açores,
 tem-se dedicado a perceber a matemática das calçadas e das varandas
 de Angra do Heroísmo e de outros pontos do arquipélago.
 Aprenda a olhar a cidade com outros olhos.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pónei da Terceira


Pónei da Terceira

É 4ª raça portuguesa



A quarta raça de cavalos em Portugal é terceirense. O Pónei da Terceira foi finalmente reconhecido como raça autóctone. Para trás ficam 14 anos de trabalho. 

Só existem quatro raças de cavalos em Portugal.
 Uma delas é o Pónei da Terceira, que, segundo Artur Machado,
 tem potencial nas escolas de equitação.



"É a quarta raça do país, é uma raça açoriana, mas acima de tudo é uma raça da ilha Terceira", salientou, Artur Machado, investigador do Centro de Biotecnologia dos Açores, que liderou o processo, numa conferência de imprensa na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. 

O pedido de reconhecimento da raça ocorreu há cerca de dois anos, mas o trabalho de recuperação dos animais com as caraterísticas do Pónei da Terceira foi iniciado há 14 anos. 

Segundo Artur Machado, numa primeira fase foi feito um levantamento dos animais existentes na ilha, depois foi selecionado um grupo de animais que correspondiam às caraterísticas típicas do Pónei da Terceira e antes de ser pedido o reconhecimento houve um aumento do efetivo.
Atualmente existem, pelas contas do investigador, 118 Póneis da Terceira, sendo que só na Universidade dos Açores estão 54 e seis foram exportados para o continente, numa tentativa de divulgação da raça. 

O que distingue o Pónei da Terceira como raça é o facto de se assemelhar morfologicamente a um cavalo, mas ter a dimensão de um pónei.  

Para Artur Machado, "é o cavalo ideal para o ensino de equitação para as classes mais jovens", mais precisamente entre os 6 e os 10 anos."Um dos nossos primeiros objetivos é tentar arranjar um profissional que possa realmente explorar a qualidade da equitação desses animais ", revelou, salientando que em dezembro de 2013 os póneis da Terceira alcançaram vários prémios numa competição nacional.


Exportação para a Europa

Segundo o investigador da Universidade dos Açores, há também interesse na aquisição destes póneis na Europa, mas ainda é cedo para avançar com a exportação. 



"Há interesse, haveria possibilidade, mas temos ainda de criar uma maior sustentabilidade do ponto de vista genético do próprio efetivo", frisou, considerando que é preciso primeiro "consolidar a produção na ilha". 

Por sua vez, Paulo Caetano Ferreira, presidente da Associação de Criadores e Amigos do Pónei da Terceira, salientou que é uma "honra" para a ilha Terceira ter uma das quatro raças de cavalos de Portugal, destacando também a importância económica. 



"Estes póneis têm valores muito altos no mercado europeu. Quando for possível exportá-los, vendê-los, com certeza se há-de fazer algum dinheiro aqui na região", frisou. 

Para Artur Machado, mais do que garantir a sustentabilidade da raça, este reconhecimento vem também salvaguardar um património transmitido por gerações anteriores. "É preciso não esquecer que este cavalo fez parte do quotidiano dos terceirenses. Era ele que trabalhava as terras, era ele que trazia o peixe à cidade, era ele que servia de transporte. Foi um animal que teve uma participação ativa no desenvolvimento da ilha", sublinhou.

In DI (29-JAN-2014)


sábado, 25 de janeiro de 2014

Cultura Taurina

III FÓRUM MUNDIAL DA CULTURA TAURINA


Toiro bravo plantou biodiversidade
pelo interior da ilha Terceira





Sabia que os toiros também são... ecológicos? A ideia foi defendida, ontem, no III Fórum Mundial da Cultura Taurina, que se realiza, até amanhã, na Terceira, organizado pela Tertúlia Tauromáquica Terceirense (TTT).


De acordo com o professor da Universidade dos Açores Eduardo Dias, que participou na primeira mesa redonda do evento, sobre os valores ecológicos da ganaderia brava, as zonas onde, na Terceira, se criou gado bravo, apresentam uma maior biodiversidade. 

A mesma ideia foi defendida por Paulo Henrique Silva, autor de publicações na área da etnografia e ambiente, que sustentou que a zona do Pico Alto/Terra Brava é encarada como um dos maiores centros de biodiversidade do país e da Europa.

Já Eduardo Dias explicou que, ao longo dos vários séculos de criação de gado bravo, estes animais foram moldando a paisagem à sua volta. "A criação foi feita de uma forma que não é intensiva e o pisoteio dos animais foi estimulando os nutrientes na terra e conduzindo a um aumento da biodiversidade", afirmou.

Para o docente da academia açoriana, a Terceira é um exemplo no arquipélago da conciliação entre o desenvolvimento de uma atividade num terreno tão sensível e a proteção da biodiversidade.

Já em ilhas como a Graciosa encontram-se cenários diferentes. "No interior da Graciosa, a paisagem é muito mais homogénea e sabemos que existem perto de duas dezenas de espécies que entraram em extinção. No caso da Terceira, não há nenhuma", exemplificou.


O professor da Universidade dos Açores defende que, a longo prazo, a deterioração destas zonas mais altas em várias ilhas dos Açores pode ser uma "catástrofe natural" e alerta para o perigo de atividades económicas mais intensivas, como a criação de gado de carne.

Também na mesa redonda participou o historiador Francisco Maduro-Dias, que sustentou que o lugar ocupado pelos toiros na cultura terceirense leva a uma maior perceção da Natureza: "Graças ao toiro bravo, temos obrigação de saber que existe um outro lado".

A última intervenção coube a Pedro Correia, doutorando em Ciências Agrárias, com o projeto "Estratégias de conservação genética e fenotípica da população de bovinos brava dos Açores", que explorou a evolução do toiro bravo da Terceira.





"Politicamente correto"

"Porque é que a Festa, com toda a sua riqueza de valores, com influência transversal em todo o espectro cultural e com importância socioeconómica, é tão perseguida e rejeitada na atualidade por alguns sectores?". A questão foi lançada, ontem, na abertura do fórum, pelo presidente da TTT, Arlindo Teles.


Para o responsável, a sociedade cedeu ao politicamente correto. "A título de exemplo, foi notícia há algumas semanas a informação nas redes sociais de uma pessoa identificada com o simples perfil de Sara que afirmou: 'Se Adolf Hitler tivesse feito com os taurinos o que fez com os judeus seria o meu herói'. É a este tipo de pessoas e de posições que o encolhimento dos responsáveis políticos favorece sempre que recuam ou simplesmente não avançam nas matérias que interessam legitimamente à tauromaquia", sustentou.

Discursou também o diretor regional da Cultura, Nuno Ribeiro Lopes, que destacou a "projeção internacional que o evento já granjeou" e Tibério Dinis, vereador da Cultura do município da Praia da Vitória, que defendeu a necessidade de apurar a tauromaquia terceirense como produto turístico.

No Auditório do Ramo Grande, interveio ainda o historiador Jorge Forjaz, que traçou o percurso da tauromaquia na história da sua família e na ilha em geral.






In DI (25-JAN-2014)