domingo, 18 de dezembro de 2016

Feliz Natal





Presépio Josefa de Óbidos
Século XVII
Museu Nacional de Arte Antiga


Natal é um feriado e festival religioso cristão comemorado anualmente em 25 de Dezembro (nos países eslavos e ortodoxos cujos calendários eram baseados no calendário juliano, (o Natal é comemorado no dia 7 de janeiro), originalmente destinado a celebrar o nascimento anual do Deus Sol no solstício de inverno adaptado pela Igreja Católica no terceiro século d.C., para permitir a conversão dos povos pagãos sob o domínio do Império Romano, passando a comemorar o nascimento de Jesus de Nazaré.




Os primeiros indícios da comemoração de uma festa cristã litúrgica do nascimento de Jesus em 25 de dezembro é a partir do Cronógrafo de 354.
 Essa comemoração começou em Roma, enquanto no cristianismo oriental o nascimento de Jesus já era celebrado em conexão com a Epifania, em 6 de janeiro. A comemoração em 25 de dezembro foi importada para o oriente mais tarde: em Antioquia por João Crisóstomo, no final do século IV provavelmente, em 388, e em Alexandria somente no século seguinte.
Mesmo no ocidente, a celebração da natividade de Jesus em 6 de janeiro parece ter continuado até depois de 380.



No ano 350, o Papa Júlio I levou a efeito uma investigação pormenorizada e proclamou o dia 25 de Dezembro como data oficial e o Imperador Justiniano, em 529, declarou-o feriado nacional.



A Bíblia regista o papel de Maria em eventos importantes da vida de Jesus, desde o seu nascimento até a sua ascensão. Escritos apócrifos falam de sua morte e posterior assunção ao céu.

Os cristãos da Igreja Católica, da Igreja Ortodoxa, da Igreja Ortodoxa Oriental, da Igreja Anglicana e da Igreja Luterana acreditam que Maria, como mãe de Jesus, é a Mãe de Deus (Μήτηρ Θεοῦ) e a Theotokos, literalmente Portadora de Deus.

Maria foi venerada desde o início do cristianismo. Ao longo dos séculos ela tem sido um dos assuntos favoritos da arte, da música e da literatura cristã.
O nome "Maria" vem do grego Μαρία, que é uma forma abreviada de Μαριάμ. O nome do Novo Testamento foi baseado em seu nome original em hebraico, מִרְיָם ou Miryam. Ambos, Μαρία e Μαριάμ, aparecem no Novo Testamento.
Maria, a mãe de Jesus, é chamada pelo nome cerca de vinte vezes no Novo Testamento.


Criarei o litígio (como sinónimo de diferença) entre você e a Mulher e entre a sua semente e a semente Dela" (Génesis 3:15). O profeta Isaías clarifica mais ainda esta profecia, indicando que Ela, a Mulher escolhida para gerar o Messias-Emanuel, será Virgem: "Pois por isso o Senhor Deus vos dará este sinal" - diz o profeta aos pouco crentes descendentes de David. E apesar do termo "Virgem" parecer estranho aos antigos povos judeus, (uma vez que necessariamente pressupõe uma relação conjugal), eles não se atreveram a trocar a palavra "Virgem" por outra do tipo "Mulher". Portanto: "Uma Virgem conceberá e dará a luz um filho, e seu nome será Emanuel" - nome que significa: Deus está connosco" (Isaías 7:14).




Bilhetes Postais circulados de Boas Festas





















FELIZ NATAL PARA TODOS





 






terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A Cimeira das Lajes (1971)


A CIMEIRA DAS LAJES
(13 de Dezembro de 1971)

Estalagem da Serreta - Terceira

A Cimeira das Lajes, em dezembro de 1971, na ilha açoriana da Terceira foi o centro do mundo.

Foi numa estalagem hoje abandonada que Marcelo Caetano recebeu os presidentes americano e francês, Nixon e Pompidou, numa cimeira para enfrentar a crise económica da altura.






Bilhete Postal de Boas Festas comemorativo
da chegada do Presidente George Pompidou
à Ilha Terceira a bordo do Concorde

O presidente francês Georges Pompidou chegou aos Açores debaixo de uma chuva torrencial que deixou os anfitriões e dezenas de repórteres e operadores de câmara à sua espera na pista com água pelos tornozelos. Mas naquele domingo, 12 de dezembro de 1971, os presentes tiveram o privilégio de ser dos primeiros mortais a verem a aterragem do avião mais avançado do mundo: o supersónico Concorde, então ainda em voos experimentais, usado por Pompidou para exibir o prestígio de uma França que então se assumia como líder da Europa. 





Chegada à Terceira do Presidente Nixon
a bordo do Air Force One

Horas depois, já de noite, Richard Nixon teve mais sorte com o tempo: ele e o seu inseparável conselheiro de segurança, Henry Kissinger (que em breve seria promovido a secretário de Estado), desceram do Air Force One saudados por um céu limpo. Marcelo Caetano ainda tinha o sobretudo cinzento-escuro encharcado mas exultava de alegria. Há muito que um chefe de governo português não aparecia na alta-roda da política mundial como naqueles três dias, entre 12 e 14 de dezembro de 1971.  



Saudando o povo na janela do
Palácio dos Capitães-Generais
em Angra do Heroísmo
A Europa e a América estavam a braços com uma profunda crise económica e financeira que os especialistas não hesitavam em classificar como a mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. O inimigo público número 1 do sistema monetário internacional era a inflação - um monstro alimentado pelas despesas astronómicas da guerra do Vietname, nos EUA, e do Estado-providência nos seis países do Mercado Comum (como era então conhecida a Comunidade Económica Europeia, antecessora da União Europeia) e em Inglaterra, que entraria para a CEE em janeiro de 1973. 

Aerograma comemorativo da
Cimeira das Lajes

Para aliviar a pressão inflacionista, em agosto desse ano, Richard Nixon tinha abandonado o padrão-ouro e, enquanto se preparava para desvalorizar o dólar - o que fez poucos dias depois da cimeira dos Açores - tentava convencer os parceiros europeus a valorizarem as respetivas moedas.
 
Mas não era fácil. Primeiro precisava de vender a ideia ao presidente francês. Georges Pompidou sucedera apenas dois anos antes ao general De Gaulle, que usou o Mercado Comum para mostrar ao mundo que era a França quem liderava a Europa. Por isso, o velho general vetou repetidas vezes a candidatura britânica e aproveitou a fragilidade política da Alemanha dividida. Pompidou abriu as portas à Inglaterra, mas insistia em apresentar a França como a «locomotiva» europeia. 

Sobrescrito de 1º. dia comemorativo
da Cimeira das Lajes
A cimeira para negociar as alterações no sistema monetário internacional foi preparada pelas diplomacias americana e francesa com cuidados cirúrgicos. Para não dar vantagem a qualquer das partes, o encontro devia ocorrer a meio caminho e em terreno neutro. Portugal, aliado de ambos os países na NATO (embora, nessa altura, a França não participasse na estrutura militar da Aliança Atlântica), tinha o arquipélago dos Açores precisamente a meio caminho entre a França e os EUA - que acabavam de renovar o contrato de arrendamento da base das Lajes, na ilha Terceira. 

Para Marcelo Caetano, a oportunidade de aparecer perante a comunidade internacional no papel de anfitrião de dois dos homens mais poderosos do mundo era uma autêntica dádiva divina. Desde o início da guerra em Angola, dez anos antes, que o decadente regime autoritário do Estado Novo sofria um isolamento cada vez maior. Não eram só as votações humilhantes que sucessivamente derrotavam Portugal na ONU. As visitas de chefes de Estado estrangeiros a Lisboa - Isabel II de Inglaterra em 1957, Hailé Selassié da Etiópia em 1959, Eisenhower dos EUA, Sukarno da Indonésia, Kubitschek do Brasil e o rei Bhumidhol da Tailândia, todos em 1960 - eram recordações do passado.  

1967 - Paulo VI em Fátima
Paulo VI visitara Fátima em 1967, mas fizera questão de sublinhar a dimensão puramente religiosa da viagem ao recusar-se a passar por Lisboa (aterrou no aeródromo de Monte Real, perto de Leiria, de onde também descolou). O mesmo papa, em 1970, recebeu no Vaticano os líderes dos movimentos nacionalistas que combatiam contra Portugal em África. O Estado Novo deixara o país «orgulhosamente só», como dissera Salazar. Mas agora, com a cimeira dos Açores, as coisas iam mudar... pelo menos, Marcelo, que sucedera a Salazar em setembro de 1968, assim o esperava. 


Sobrescrito de 1º dia comemorativo
da Cimeira das Lajes
O presidente do Conselho chegou ao aeroporto das Lajes às 12h40 de domingo, dia 12. Depois dos cumprimentos da praxe, dirigiu-se em cortejo automóvel aos palcos da cimeira: a estalagem da Serreta (onde ficou alojado Pompidou) e a Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo. Nixon instalou-se na residência do comandante da base americana das Lajes. Marcelo Caetano ficou no Palácio dos Capitães-Generais, residência oficial do governador do distrito. 




O Concorde com o presidente francês chegou pelas 16h40, fustigado por bátegas de água. A aterragem não foi isenta de percalços: o avião teve mesmo um pneu furado, mas Pompidou desembarcou sem incidentes. A comitiva francesa, de que faziam parte o ministro das Finanças (e futuro presidente da República) Giscard d"Estaing e o ministro dos Negócios Estrangeiros Maurice Schumann, seguiu logo para a estalagem da Serreta. Depois de todos mudarem de roupa - estavam molhados até aos ossos -, Pompidou teve uma primeira conversa, de cinquenta minutos, com Marcelo Caetano. 

Este voltou logo a seguir ao aeroporto, a tempo de dar as boas-vindas a Nixon. O Air Force One aterrou às 21h45 - mas o desembarque do presidente americano do Boeing 707, perante centenas de jornalistas e apesar do show off do aparato da segurança, foi ofuscado pela estrela da ocasião: o Concorde que, a curta distância, dominava a pista. 

Carta circulada em Angra do Heroísmo
O episódio foi alvo de um braço-de-ferro diplomático travado com punhos de renda, daqueles incidentes que dão picante ao cinzentismo destes encontros, como conta o então responsável dos serviços de imprensa do governo português, Pedro Feytor Pinto, nas suas memórias no livro Na Sombra do Poder: «Os americanos não queriam que o Concorde ficasse em frente da aerogare pois, chegando o presidente Nixon já de noite, com transmissão direta em todas as televisões dos Estados Unidos, seria uma evidência do atraso americano a presença espetacular do avião francês. Não é fácil discutir com norte-americanos mas compreenderam que a parte da base onde se procedia às cerimónias era portuguesa e seríamos nós a decidir. Assim, o Concorde ficou bem visível, como seria normal. » E lá ficou até terça-feira seguinte, quando, já terminadas as conversações, Pompidou convidou Caetano e Nixon para uma visita guiada ao interior do avião de passageiros mais moderno do mundo.

Bilhete Postal circulado com vista da Estalagem da Serreta.
Ao fundo a Ilha de Sao Jorge
Nixon e Pompidou conversaram muito ao longo dos dias 13 e 14 de dezembro. Não chegaram a um entendimento sobre o futuro do sistema monetário internacional mas acertaram agulhas para novo encontro, alargado aos outros cinco países do Mercado Comum, à Inglaterra, ao Canadá e ao Japão (o Grupo dos Dez), daí a quatro dias, na Smithsonian Institution, em Washington, de que resultaram os «Acordos de Smithsonian», de 18 de dezembro de 1971 - e a inevitável desvalorização do dólar.

Marcelo Caetano não chegou a participar na cimeira de que foi anfitrião. As suas conversas foram sempre a dois, quer com Nixon, que o pôs ao corrente das suas próximas visitas - essas sim, de importância histórica - à China de Mao Tse-tung e à URSS de Brejnev, quer com Pompidou. Pouco depois da viagem aos Açores foi revelado publicamente que o presidente francês sofria de cancro, a doença que o matou em 1974. O mesmo ano em que Marcelo Caetano foi derrubado por um golpe de Estado em Lisboa e em que Nixon pediu a demissão por causa do estrondo do escândalo Watergate.



Apesar de ter estado sob as luzes da ribalta na cimeira dos Açores, o regime autoritário português continuou isolado. Em 1973 Caetano foi a Londres, por ocasião do sexto centenário da aliança luso-britânica, mas a visita foi ofuscada por manifestações de protesto contra a guerra colonial: um padre inglês acabara de denunciar o massacre de Wyriamu, cometido por tropas portuguesas em Moçambique.

Estalagem em ruínas


E, nos Açores, a estalagem da Serreta nunca mais voltou aos dias gloriosos.




Os Açores voltaram a estar debaixo dos holofotes dos media de todo o mundo em 16 de março de 2003. O então primeiro-ministro Durão Barroso recebeu o presidente dos EUA George W. Bush, o presidente do governo espanhol José María Aznar e o primeiro-ministro britânico Tony Blair na base das Lajes. A cimeira destinou-se a manifestar o apoio daqueles três líderes europeus aos EUA na guerra desencadeada poucos dias depois contra o ditador iraquiano Saddam Hussein.



Fonte: Diário de Notícias

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Angra Cidade Património



ANGRA DO HEROÍSMO
PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE

Selo postal comemorativo






Ainda Angra do Heroísmo tinha pedras caídas pelas ruas e pó no ar, na sequência do sismo de 1 de Janeiro de 1980, quando o Instituto Histórico da Ilha Terceira decidiu promover o propósito de inscrever a cidade na então reduzida lista de pouco mais oito dezenas de monumentos e sítios classificados pela UNESCO como Património da Humanidade.


Carimbo comemorativo
O Dr .Álvaro Monjardino tomou a seu cargo a tarefa de convencer o ICOMOS (International Council on Monuments and Sites) que Angra do Heroísmo deveria ser classificada como Património Mundial por estar associada a um acontecimento relevante da história universal: a exploração marítima dos séculos XV e XVI que permitiu estabelecer laços entre as diferentes civilizações da terra.

Flâmula comemorativa


O processo relativo às diligências que culminaram com classificação de Angra do Heroísmo começou em 1981, quando foram desenvolvidos os primeiros contactos junto da UNESCO e em Lisboa. A decisão favorável foi tomada a 7 de Dezembro de 1983 pelo Comité do Património Mundial na reunião realizada Florença (Itália).



Numa conferência no âmbito das comemorações do 25º aniversário da classificação de Angra do Heroísmo pela UNESCO, realizada a 13 de Março no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Álvaro Monjardino recordou as diversas etapas que estiveram na origem da atribuição do título de Património Mundial.

“A inclusão de zona central de Angra na lista do Património Mundial acabou efectivamente recomendada pelo ICOMOS “no quadro de uma proposta global sobre as explorações marítimas dos séculos XV e XVI”, com expressa menção das escalas no retorno das Índias orientais e ocidentais, da Provedoria das Armadas, da escolha do terreno em função de um porto que ia servir para isso mesmo, de uma malha urbana desenhada em função desse porto e, facto admitido como único, da meteorologia condicionante, além de um sistema defensivo inexpugnável”, referiu.


Durante a conferência, o Dr. Álvaro Monjardino lembrou que “ao longo dos seus mais de quinhentos anos de existência como povoação deixou-lhe marcas físicas que, tendo muito a ver com a História da ilha e do arquipélago, têm a ver também com a História portuguesa, a ibérica e a universal”.


Nesse sentido, recordou que o século XV corresponde à era dos Descobrimentos e à criação do núcleo urbano, o século seguinte a crescimento de uma cidade que assume a sua importância portuária intercontinental.


O século XVII ficou marcado pela ocupação espanhola e, posteriormente, pela Restauração, enquanto no século seguinte é mercado pela decadência da importância da cidade e no século XIX pela era Liberal e a resistência ao absolutismo. Durante o século XX Angra já tinha perdido a influência que foi tendo ao longo de mais de quatrocentos anos.

“Ficaram ressentimentos, prosápias antigas, hábitos de lazer e um marasmo que apenas o movimento de ideias havido na década de 60 conseguiu sacudir. Tal sacudidela contudo não se reflectiu de forma positiva no património construído. Pelo contrário. Quiçá com a única excepção do solar restaurado dos Bettencourts-de-Trás-da-Sé, essa época deixou sobretudo provas de insensibilidade perante a herança cultural que esse património representava.




Eliminaram-se notáveis edifícios seiscentistas, continuaram a desfigurar-se as fortalezas de São Sebastião e do Monte Brasil, desactivou-se a plurissecular Ribeira dos Moinhos e alteraram-se fachadas harmoniosas e castiças em nome de um progresso mal entendido, ao querer-se mesquinhamente uma cidade nova dentro de uma cidade velha e que valia como e por isso mesmo”.


Segundo o Dr. Álvaro Monjardino, foi o terramoto de 1980 que veio por um travão a descaracterização do património arquitectónico de Angra do Heroísmo.

“Por um lado, o mundo culto descobriu esta cidade esquecida, marco da expansão europeia, apesar de tudo ainda preservada pela sua própria decadência. Por outro, começou localmente a consciencializar-se o valor intrínseco, em termos culturais e até em possível qualidade de vida, deste testemunho do passado”, frisou.


A nível regional e por via legislativa foram tomadas medidas para que a cidade pudesse ser reconstruída, tendo como referência a sua herança cultural e histórica.


Esta capital histórica da Ilha Terceira é considerada Património Mundial pela UNESCO, sendo uma das três capitais regionais dos Açores, juntamente com a Horta e Ponta Delgada.

Esta ilha portuária e antigo forte do século XVI foram de importância estratégica para mercadores e comerciantes portugueses e espanhóis, ao longo dos séculos, que usavam o porto abrigado da ilha como ponto de paragem entre África, Europa e as Índias Ocidentais e Américas.

O explorador Vasco da Gama enterrou, aqui, o seu irmão, em 1499, após a sua longa viagem até à Índia. No século XVII, o porto recebeu galeões espanhóis carregados de tesouros do Novo Mundo.

O seu rápido crescimento como centro de comércio marítimo mereceu-lhe a designação de primeira cidade dos Açores, na década de 1530, enquanto o Papa Paulo III nomeou Angra como uma diocese com jurisdição religiosa sobre o resto do arquipélago.

Angra viria a desempenhar funções importantes na história de Portugal durante a Crise de Sucessão de 1580, ao não aceitar a suserania de Filipe de Espanha e apoiando o candidato alternativo ao trono português, António I, que estabeleceu, aqui, governo em exílio durante dois anos entre 1580 e 1582.

Mais tarde, quando a monarquia portuguesa foi restaurada, na Restauração de 1640, a cidade expulsou os ocupantes espanhóis que haviam tomado controlo do Forte de São Benedito do Monte Brasil e, devido aos seus esforços, viu-lhe ser atribuído o título de Sempre Leal Cidade pelo Rei D. João IV, em 1641.

Posteriormente, outro rei português, Afonso VI, refugiou-se no forte desde 1669 até 1684, após ser deposto pelo seu irmão, o Rei D. Pedro II.

É interessante salientar que Angra viu-lhe ser dado o sufixo Heroísmo pela Rainha portuguesa Maria II, no século XIX, como reconhecimento do seu papel nas disputas parlamentares Liberais que decorreram no início do século XIX, a seguir à Guerra Peninsular. Durante tal período, a cidade tornou-se o centro do apoio Liberal e, por isso, foi apelidada de Capital Constitucional do Reino durante a Guerra Civil de 1828-1834.

A cidade serviu, também, como refugio para a rainha exilada entre 1830 e 1833 e para o escritor, orador e político João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, durante a Guerra Peninsular.















Sobrescrito e selo comemorativo
do 30º aniversário de Angra do Heroísmo
PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE

Sobrescrito e selo comemorativo dos 480 anos da
Elevação de ANGRA a Cidade

sábado, 3 de dezembro de 2016

Domingos Rebelo (1891-1975)

Domingos Rebelo
Retrato de João Soares Cordeiro. Óleo sobre tela, 1912 (Museu Carlos Machado)



Domingos Maria Xavier Rebelo (Ponta Delgada, 3 de Dezembro de 1891 - Lisboa, 11 de Janeiro de 1975), mais conhecido por Domingos Rebelo, foi um professor e pintor açoriano.


Os Emigrantes
(1926)


Foi autor de algumas das imagens mais emblemáticas da iconografia dos Açores, com destaque para
Os Emigrantes, provavelmente a imagem mais reproduzida no arquipélago.

Biografia

Domingos Rebelo, filho de José Eduardo Rebelo, guarda fiscal, e de Georgina Augusta Pereira Rebelo. De posses modestas e quatro filhos, a família Rebelo atribuía grande importância à vida familiar e à actividade religiosa, aspectos que seriam marcantes tanto na vida como na obra do pintor.


A família Rebelo valorizava a educação dos filhos, e Domingos Rebelo teve a oportunidade de fazer um percurso educativo então acessível a poucos: depois de aprender as primeiras letras com as senhoras Pereira, na rua da Arquinha, frequentou o Instituto Fischer, onde recebeu uma educação com uma forte componente católica, o que veio reforçar as crenças religiosas familiares. Tendo desde muito cedo revelado propensão para o desenho e para a pintura, ingressou na Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral, a antecessora institucional da actual Escola Secundária Domingos Rebelo, cursando desenho.

O pintor Artur Jaime Viçoso May, director da Escola, reconheceu o talento artístico do aluno e incentivou a produção das suas primeiras obras. Foi graças a esse apoio que Domingos Rebelo, com apenas 13 anos de idade, pela primeira vez expôs uma das suas obras, colocando um quadro seu na montra da Loja de Duarte Pereira Cardoso, sita à rua Nova da Matriz, actual rua António José de Almeida, no centro de Ponta Delgada.

A obra exposta e o apoio de Viçoso May levaram o talento de Domingos Rebelo à atenção dos condes de Albuquerque, os quais, impressionados com a qualidade da sua arte, se ofereceram para custear os estudos artísticos.

A descoberta de São Miguel (1940)
Com o apoio de Duarte de Andrade Albuquerque de Bettencourt, o 1.º conde de Albuquerque, e de Viçoso May, foram criadas condições para que Domingos Rebelo pudesse prosseguir os seus estudos em Paris. Tinha 15 anos de idade quando deixou Ponta Delgada a caminho da grande metrópole europeia.




A descoberta de São Miguel (1940)
Domingos Rebelo permanece em Paris seis anos, onde frequentou a Académie Julien, onde foi discípulo de Jean-Paul Laurens, e o curso livre da Académie de la Grande Chaumière, onde contactou com mestres como Léon Bonnat. Conviveu ainda com grandes nomes da pintura portuguesa que iam passando por Paris, como Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor, Emmerico Nunes, Dórdio Gomes, Eduardo Viana, Manuel Bentes e Pedro Cruz. Foi nesse meio artístico, onde se fazia sentir a originalidade dos modernistas Paulo Cézanne, Henri Matisse e Amedeo Modigliani, que Domingos Rebelo aperfeiçoou a sua formação técnica e ganhou a mundividência que demonstrou na sua obra.



Em 1911 participou na Exposição dos Livres no Salão Bobone, em Lisboa, ao lado de Eduardo Viana, Emmerico Nunes, Alberto Cardoso (1881-1942), Francisco Smith, Manuel Bentes e Francisco Álvares Cabral (1887-1947).

O tocador de viola da Terra
(Bilhete Postal - Edição dos CTT)
Casou com Maria do Carmo Berquó de Aguiar, natural de Ponta Delgada, que faleceu muito cedo, sem deixar descendentes. Voltou a casar, em 1921, com Maria Josefina de Oliveira Correia, natural de Viseu, que seria a sua companheira inseparável e de quem teve cinco filhos, um dos quais foi o arquitecto João Correia Rebelo.

Em 1913, regressou à ilha de São Miguel onde permaneceu trinta anos, deslocando-se de vez em quando a Lisboa e participando com regularidade nas exposições anuais da Sociedade Nacional de Belas-Artes, de que era sócio e de que seria mais tarde dirigente.

A fase regionalista (1913-1942)


Pescadores de Rabo de Peixe (1937)
Apesar da sua prolongada estada em Paris e das suas variadas deslocações a Lisboa, Domingos Rebelo permaneceu sempre ligado aos Açores, ligação que se acentuou depois do seu segundo matrimónio.
Fixado em Ponta Delgada, dedicou-se à docência, trabalhando na escola onde tinha estudado, ao mesmo tempo que continuou a pintar, expondo localmente mas mantendo uma importante presença em Lisboa, nos eventos patrocinados pela Sociedade Nacional de Belas-Artes, com algumas participações internacionais.
A devoção que sentia pela sua terra natal está patente na grande maioria das suas telas deste período, nas quais retratou costumes, tradições e usos do povo açoriano, com destaque para as actividades tradicionais do mundo rural, as alfaias, os aspectos religiosos, as festividades, música e danças. Esta predominância de temas etnográficos marcam decisivamente a pintura de Domingos Rebelo, a ponto de alguns críticos o apelidarem de pintor-etnógrafo.

Igreja da Sé em Angra do Heroísmo (1920)
Ao longo das décadas de 1920 e 1930 Domingos Rebelo foi definindo a sua personalidade como pintor, afirmando um gosto cada vez mais insular. Foi este o período mais rico e criativo da sua vida, produzindo os seus melhores trabalhos e revelando a sua tendência regionalista. Na altura, vivia-se nos Açores, e em particular na ilha de São Miguel, uma complexa dinâmica social e política entre as tendências autonomistas, com raízes na Primeira Campanha Autonómica e o (re)nascimento do nacionalismo português da fase final da Primeira República Portuguesa e do período conturbado da transição da Ditadura Nacional para o Estado Novo. Neste contexto, a intelectualidade açoriana sucumbe ao chamado ‘’regionalismo’’, surgido então como uma espécie de síntese, onde sem negar a portugalidade imposta pelo crescente nacionalismo, se exaltavam valores de açorianidade. Nesta linha surgem obras como a de Gervásio Lima, de Armando Narciso ( e o Primeiro Congresso Açoriano) e de Domingos Rebelo, onde repassa um quase-romantismo serôdio, exaltando os valores açorianos, representados pelo costumes ancestrais do povo açoriano, ao mesmo tempo que se tecem loas às lusas virtudes pátrias.

Varando o Barco (1924)
Uma boa definição do movimento é dada por Luís Bernardo Athayde, então director do Museu Carlos Machado, que em 1921 publicou um artigo onde refere que o verdadeiro artista regionalista é aquele que, através da sua arte, procura contribuir para o renascimento da sua pátria e despoletar na alma portuguesa o amor pela terra natal. O regionalismo é a valorização daquilo que é popular e único na cultura de um povo e que se mantém vivo na alma e no quotidiano ao longo dos séculos. O povo torna-se objecto de estudo e campo de análise.

O regionalismo não se fazia sentir apenas na literatura, mas invadia as outras vertentes da criação intelectual, estando patente na historiografia da época (com um culto exagerado da heroicidade açoriana ao serviço da gesta lusa), na poesia, na música e nas artes plásticas. Assistia-se a uma influência mútua, onde as diversas formas de criação convergiam numa complexa, e por vezes verdadeiramente contraditória, teia de interacções.

O Jardim das Senhoras (1923)
Bem significativa deste enquadramento intelectual é a passagem de uma carta endereçada por Domingos Rebelo ao seu grande amigo Armando Cortes-Rodrigues, datada de 14 de Dezembro de 1923, onde Domingos Rebelo afirma: creio que desta vez encontrei aquilo que desejava. Depois de tantas hesitações cheguei à conclusão de que o meu temperamento era realista e que a minha Obra tem de ser feita aqui, Regionalista, sentida com máxima justeza. Este sentimento explica a tendência popular regionalizante de grande parte da pintura de Domingos Rebelo, a qual faz parte deste conjunto indissociável de obras de todos os géneros, cuja linha comum é a procura da herança primitiva, de cariz popular, presente nas manifestações mais relevantes do povo açoriano, como as festividades do Espírito Santo e do Senhor Santo Cristo dos Milagres, bem como nas paisagens e nas cenas da vida rural, abundantemente descritas e magistralmente pintadas por Domingos Rebelo.

Vacas e Fardos de Palha (1932)
Neste contexto merece referência o quadro Os Emigrantes, justamente considerado o ex-libris da pintura açoriana e a obra-prima de Domingos Rebelo. Naquela composição, a viola da terra, instrumento intrinsecamente açoriano, o registo do Senhor Santo Cristo dos Milagres e as vestes e expressões dão uma imagem pungente da açorianidade vista pelos olhos do regionalismo. A obra, considerada como uma referência obrigatória no panorama regionalista, é seguramente a imagem mais vezes editada e com maior circulação de toda a iconografia açoriana, estando presente em todo o mundo graças à diáspora açoriana. Só esta obra basta para fazer de Domingos Rebelo o pintor açoriano mais conhecido e representativo.

A Raposa (1905)
Embora residindo nos Açores, Domingos Rebelo manteve uma presença regular em certames realizados em Lisboa. Das obras apresentadas neste período, três foram adquiridas para o Museu de Arte Contemporânea, e um retrato do marechal Gomes da Costa para o Museu da Marinha.

Em 1920, com 28 anos de idade, deslocou-se ao Brasil, onde foi distinguido com a medalha de prata numa exposição efectuada no Rio de Janeiro. Alcançou também os prémios Silva Porto (com a obra Retrato de Família de 1937), Rocha Cabral e Roque Gameiro, todos galardões criados sob a égide da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Em 1922, Domingos Rebelo realizou uma exposição individual no salão nobre do Governo Civil de Ponta Delgada, no Palácio da Conceição.
A Velha com Capa (1906)

Em 1925 ganhou a medalha da Sociedade Nacional de Belas-Artes, com um magistral retrato de Viçoso May.

Em 1937, expôs no salão de festas de O Século, com honras de visita do Presidente da República. Nessa exposição, Domingos Rebelo apresentou a magnífica pintura a óleo intitulada Supremo Refúgio, uma das suas melhores composições.

Em 1939, participou numa exposição em São Francisco da Califórnia, com artistas de 79 países. Uma das suas obras foi adquirida pela entidade organizadora.

Em 1940 foi nomeado director da então Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada (hoje Escola Secundária Domingos Rebelo), cargo que exerceu até à sua partida para Lisboa, em finais de 1942. Nesse mesmo ano, realizou no ginásio do Liceu Antero de Quental, de Ponta Delgada, a sua última exposição nos Açores.



Pintor e mestre em Lisboa (1942-1975)


Infante D. Henrique (1945)
Assembleia da República
A partir de 1942 Domingos Rebelo estabeleceu-se definitivamente em Lisboa, tendo como primeira grande encomenda completar a obra a fresco iniciada pelo pintor expressionista Adriano Sousa Lopes no Palácio de São Bento, a então Assembleia Nacional, sendo da sua autoria quatro dos sete grandes painéis de temática histórico-colonial que decoram o Salão Nobre daquele palácio, hoje paços da Assembleia da República.

Como bolseiro do Instituto de Alta Cultura pôde percorrer em 1950 várias cidades italianas, visitando museus e colecções de pintura. De regresso a Lisboa, pintou os frescos da Igreja de São João de Deus, iniciando uma fase já desligada do regionalismo, durante a qual produziu centenas de quadros de temática diversificada que hoje se encontram dispersos por museus, igrejas e colecções particulares.

Para além da sua actividade como pintor, manteve-se ligado à docência e foi director da Biblioteca-Museu do Ensino Primário, instalada em Benfica, Lisboa, junto da antiga Escola do Magistério Primário de Lisboa.

Foi director e vogal da Academia Nacional de Belas Artes entre 1947 e 1970. A partir dessa data passou a ser vogal honorário.


Tomada de Ceuta (1945)
Assembleia da República
A sua ligação estreita aos Açores manteve-se, tendo permanecido largos períodos no arquipélago em períodos de lazer e para executar obras encomendadas por instituições públicas ou particulares, com destaque para os frescos que servem de fundo às salas de audiência dos tribunais de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada.

Fazem parte da obra do artista composições para tapeçarias que figuram no campus da Universidade de Coimbra, bem como miniaturas em barro de cariz etnográfico que se encontram no Museu Carlos Machado.

Domingos Rebelo manteve sempre uma postura de mestre, acarinhando os jovens pintores açorianos em início de carreira, particularmente aqueles que se deslocavam a Lisboa.

Domingos Rebelo faleceu em Lisboa no dia 11 de Janeiro de 1975. Foi um homem que orientou a sua vida segundo princípios morais e religiosos muito rigorosos e através da arte procurou a verdade e a tranquilidade da sua consciência.

Tomada de Malaca (1945)
Assembleia da República
A valorização do ambiente familiar do papel da família na sociedade constituía uma crença indiscutível para Domingos Rebelo, o mesmo acontecendo, como reflexo da sua educação, com o destaque dado à prática religiosa. Estes aspectos estão bem patentes na obra do pintor, como bem o exemplifica a tela Natal, datada de 1926, onde figura o próprio Domingos Rebelo e a sua esposa Maria Josefina, com um filho ao colo. Este mesmo culto da família e da religiosidade está muitas outras telas do pintor, numa obra onde a religião foi uma presença marcante.


Tendo sido aluno, professor e director da antiga Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, Domingos Rebelo foi escolhido em 1978 para patrono daquele estabelecimento, que a partir de 1 de Janeiro de 1979 se denomina Escola Secundária Domingos Rebelo, uma das maiores e mais prestigiadas escolas secundárias dos Açores. Por feliz coincidência, as actuais instalações da Escola situam-se na imediações do Papa-Terra, o bairro de Ponta Delgada onde o pintor viveu e trabalhou.

In: Wikipédia


Altar na Igreja de S. João de Deus, Lisboa.
Frescos de Domingos Rebêlo, de 1952.