segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Fado - Património Cultural





O FADO
Património Cultural Imaterial 
da Humanidade





Rui Vieira Nery estuda o fado há duas décadas.

Nos últimos dez anos, fê-lo no âmbito da sua candidatura a Património Imaterial da Humanidade.

O musicólogo considera que o fado voltou a estar na moda em Portugal e que é procurado também pelos estrangeiros, fruto da visibilidade que o reconhecimento da Unesco trouxe.









Apresentou na estação de correios de Angra do Heroísmo o livro "Fado - um património vivo". Esta publicação resume o trabalho que foi feito, no âmbito da candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco?


Este livro é uma síntese do meu trabalho de investigação sobre a história do fado nos últimos 20 anos. Parte desse trabalho foi feito no contexto da preparação da candidatura e beneficia de tudo aquilo que fomos aprendendo ao longo desse processo. Umas das coisas que eu considero mais importantes na candidatura foi o processo de aprendizagem, que nós fomos todos tendo, em relação à história do fado. Fomos recolhendo informação que nunca tinha sido estudada, fomos conversando com as pessoas no terreno, com os fadistas mais velhos, que nos contaram memórias que nós fomos registando.

Fomos refletindo, analisando estudando. Hoje em dia sabemos todos nós muito mais sobre o que foi e o que é hoje fado, do que sabíamos há 10 anos, antes de pensarmos nesta aventura. O livro é uma partilha com o público em geral dos resultados daquele que é o nosso conhecimento atual sobre o fado. Remete para bibliografia mais aprofundada, mas é um bom ponto de partida e tem a vantagem de estar também traduzido em inglês e, portanto, de poder ser um instrumento de divulgação internacional desse trabalho.


E consegue chegar ao público em geral?


Isso é a grande vantagem da edição dos CTT. Por um lado, os CTT têm uma tradição de edição com grande qualidade gráfica e com um design muito bonito. Por outro lado, tem uma rede de distribuição extraordinária. Se pensarmos que nas estações de correios de todo o país o livro está à venda, são muitos mais postos de venda do que as livrarias tradicionais. Isto assegura uma distribuição a nível nacional enorme. Estamos praticamente com metade da tiragem já vendida e com fortes possibilidades de esgotar nos próximos meses, o que é muito animador para um autor e com certeza para os editores também.


Havia uma lacuna de informação sobre o fado?




O fado foi vítima durante muito tempo de uma polémica muito grande à sua volta. Como o regime salazarista procurou, sobretudo a partir da II Guerra Mundial, colar-se muito ao fado e utilizá-lo como uma espécie de emblema, isto provocou uma hostilidade muito grande da parte dos setores da oposição democrática. Os rapazes e raparigas da minha idade eram educados a não gostar de fado, porque era um dos três F's do fascismo, para além de Fátima e do futebol. Isso fez com que não houvesse investigação e estudo sistemático da história do fado, durante muitos anos. Os homens e mulheres do fado achavam que eram umas inteletualices que não tinham interesse, os académicos achavam que era um tema que não tinha validade. Este trabalho, que foi feito a partir da candidatura, tem raízes anteriores. O primeiro grande marco foi a exposição "Fado, vozes e sombras", que teve lugar no Museu de Etnologia, no âmbito da Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura. Foi uma exposição organizada pelo antropólogo Joaquim Pais de Brito e foi a primeira vez que os académicos mexeram a sério neste tema. Depois não houve muito mais. Portanto estes últimos anos têm permitido que se vá trabalhar no arquivo, que se vá trabalhar sobre fontes que até agora eram desprezadas. O meu próprio livro "Para uma história do fado", em 2004, teve alguma importância, porque foi a primeira obra de fundo sobre a temática que foi publicada, desde há muitos anos. O que se escrevia sobre fado ou era uma defesa apaixonada ou era um ataque agressivo. Havia pouca investigação. Quer a favor, quer contra, o que se dizia não era muito fundamentado. Foi importante haver este movimento de interesse pelo estudo sério, rigoroso, científico desta realidade. Estamos ainda no princípio. Há muita coisa por estudar. Este livro representa uma etapa intermédia. Agora já podemos, com mais segurança, apresentar uma síntese com base mais seguras.


Estou contente com a utilidade que eu espero que este livro possa ter. Uma coisa que me tem dado muito gosto é ver como as pessoas do fado gostaram do livro. Os fadistas vêm dizer que gostaram, que se sentiram retratados, que se fez justiça àquilo que eles estavam a fazer, que se fez um testemunho de respeito pela memória do fado. E isso é a melhor recompensa que um investigador desta área pode ter.



Dedica este livro a Carlos do Carmo, porquê?


Primeiro, porque sou grande amigo dele. É um amigo muito próximo, muito firme, tanto ele como toda a família. Depois, porque ele me encorajou muito a escrever sobre fado, aliás como aconteceu com a Amália. Ambos diziam que era um escândalo que eu, que tinha formação de musicólogo e de investigador de história da música especializada, não utilizasse essa formação para estudar um tema de que estava tão próximo, de que gostava tanto e com o qual tinha relações familiares. Eu sempre tinha vivido nesse meio, tinha acesso fácil aos protagonistas do género e eles achavam um desperdício que eu não usasse a minha formação para aplicar a este tema. Este livro não seria possível sem este empurrão. Mas também, porque, no panorama do fado do século XXI, eu acho que o Carlos do Carmo é simultaneamente um pilar da transmissão da tradição e um pilar da procura da inovação. É um homem que ainda hoje faz coisas de um atrevimento extraordinário, de uma ousadia, de uma vontade de experimentar, que eu acho que é um exemplo para os jovens fadistas, alguns dos quais muito mais conservadores e tradicionalistas que o próprio Carlos do Carmo.

Que vantagens é que a classificação da Unesco trouxe?



A entrada da lista representativa em si mesma é como a entrada no guiness. É uma coisa simbólica. Não foi só a qualidade do fado que foi reconhecida, foi também a qualidade do trabalho de preparação. A nossa candidatura foi considerada exemplar. Entre 109 candidaturas foi uma das sete que foram consideradas como um exemplo a seguir.





Qual foi o segredo?


Acho que o segredo foi trabalhar de baixo para cima. Foi trabalhar a partir da comunidade. Nós, os académicos, trouxemos competências de investigação, mas em vez de irmos com uma atitude sobranceira, arrogante, fomos aprender com as pessoas do terreno. Conseguiu-se cruzar o conhecimento científico, académico, com o conhecimento substancial das pessoas que fazem o fado no dia a dia e com as memórias que essas pessoas transportavam. É por isso que outras candidaturas têm falhado, porque são feitas no gabinete, longe dos protagonistas efetivos do género.



Esta candidatura trouxe mais visibilidade ao fado?


Trouxe uma grande visibilidade ao fado. Nós sentimos que há cada vez mais convites internacionais a fadistas, para festivais, grandes salas de espetáculos, teatros de ópera, espetáculos de televisão... Há uma visibilidade que aumenta o interesse e a curiosidade por conhecer o fado. Isto tem tido um impacto grande. Mesmo do ponto de vista nacional. As agências turísticas, por exemplo, estão a pôr mais em destaque a importância do fado como um emblema identitário. Os turistas vêm à procura de encontrar espaços. Uma coisa que estava a acontecer em Lisboa era uma grande decadência da rede de casas de fado e estamos a sentir que começa a haver uma espécie de dinamismo adicional dessa rede. Por exemplo, reabriu agora recentemente a Adega Machado, que era uma das casas de fado mais antigas, que tinha fechado. O Luso foi remodelado com grande dinamismo. Sente-se, por outro lado, que o fado é o género de música popular portuguesa que mais vende no mercado discográfico. Os concertos de fado enchem e de gente muito nova.


O fado voltou a estar na moda?


Eu acho que está na moda, o que até é um perigo, porque, de certa maneira, hoje toda a gente quer tentar disfarçar o que está a fazer como se fosse fado. Às vezes estamos a vender gato por lebre. Está-se a fazer outra coisa que tem maior ou menor validade, por si própria, mas que não precisa da desculpa de se colar ao fado. Há uma reconciliação nacional com o fado. Acabou a fase das polémicas e a partir de agora nós percebemos que a cultura portuguesa é mais do que o fado, mas não era o que é se não tivesse também dentro dela a presença do fado.


O fado tem de ser triste?



Não. O fado somos nós postos em música. Nós temos um biorritmo natural como todos os povos. É verdade que há uma tradição lírica portuguesa que é sentimental, que é nostálgica, que tem aquela componente conhecida da saudade, que tem a ver com um país que está muito ligado à viagem, à partida, à ausência, à distância... Mas também é verdade que sabemos fazer festa e o fado também se adequa à celebração. É um género que tem lugar em todos os momentos do nossos quotidiano, felizes ou infelizes.





O fado é sentido da mesma forma em todos os cantos de Portugal?




Não. O fado ficou como um fenómeno fundamentalmente lisboeta quase até meados do século XX, pelo menos até ao segundo terço, com o efeito da rádio. Tinha tido até aí alguns veículos de difusão, desde logo Coimbra, para onde ele foi logo em meados do século XIX, mas depois autonomizou-se e transformou-se num género completamente diferente. Havia alguma difusão no Alentejo e na zona da grande Lisboa, mas à escala nacional, só a partir dos anos 30 e 40 é que começa a expandir-se. É diferente cantar o fado num bairro tradicional de Lisboa, na Mouraria, em Alfama ou na Madragoa, em que esse fado está ligado à existência daquela população pobre durante muitas gerações, ou cantar o fado para alguém que contactou com ele através dos discos, da rádio, da televisão ou agora da internet. Há tipos de relação com o género que são diferentes, mas isso não significa menos autenticidade na ligação ao fado. Um jovem que nos Açores começa a cantar fado, porque ouviu os discos da Amália e do Carlos do Carmo e gostou, não precisa de ter vivido 30 anos em Alfama para sentir o fado, mas vai senti-lo à sua maneira e vai misturar os sentimentos da festa do Senhor Santo Cristo e da Chamarrita e de tudo aquilo que são as tradições locais. A riqueza do fado é a capacidade de dialogar com tradições múltiplas e ser sentido de maneiras diferentes, mas o facto de todos nós nos encontrarmos nesse contexto do fado, mesmo que vejamos nele coisas diferentes, é o que faz dele um elo de união e um elemento identitário à escala nacional, hoje em dia.







Amália Rodrigues



Estranha forma de vida


Alfredo Marceneiro


É tão bom ser pequenino


Lançamento do livro em Angra do Heroísmo







Entrevista: Carina Barcelos
Fotografia: António Araújo
In DI (30-DEZ-2012)