sábado, 27 de maio de 2017

Pesos e Medidas

PESOS E MEDIDAS
(Breve história da sua origem)


As Balanças

Admite-se que a balança tenha origem no Antigo Egipto. Durante cerca de 40 séculos, a balança teve como característica a existência de dois pratos.

Desde a Antiguidade, a balança (fig. 4) sempre encontrou emprego nas áreas comercial e econômica de diversos povos (egípcios, babilónios, gregos, etruscos e romanos).

Afora esse emprego normal, a balança teve uma conotação mística em algumas civilizações. Por exemplo, as balanças dos antigos egípcios, representadas nos "Livros dos Mortos" (fig. 5), simbolicamente representavam a pesagem do coração do defunto contra o peso da verdade.

Conforme as culpas carregadas pelo morto, a balança pendia para o prato do coração (destino, condenação da alma) ou da pena (destino, felicidade eterna). A balança, aqui, tinha uma simbologia associada à justiça. Para os babilónios, a balança simbolizava a igualdade dos dias e das noites, já que o sol entrava na constelação de Libra no equinócio de Outono (quando o dia e a noite têm igual duração). Com efeito, de todos os signos do zodíaco, Libra é o único representado por um objeto: a balança. 
 

As balanças egípcias tinham dois braços iguais, sendo o travessão amarrado à haste, ou ainda fixado por orifícios unidos por um prego ou um anel (este ponto de apoio chama-se fulcro). Há ainda que se considerar os modelos onde a haste era suspensa pela mão, muito usadas nas farmácias e ourivesarias. Existiu também uma outra versão, de braços desiguais, usada em transações comerciais, sendo um dos pratos substituído por um peso fixo e o outro, por um gancho onde se pendurava a carga. O braço maior tinha graduações e o peso fixo; o menor, o gancho para os objetos.


 
É na balança dos romanos que talvez se encontra o primeiro exemplo de sistema de travamento: em um desenho sugere-se que um dos braços fica imobilizado, evitando que o prato caia com a mercadoria antes da colocação dos pesos no outro prato.

A análise de figuras e monumentos pictóricos do final da Idade Média indica que, aparentemente, não houve progresso sensível da técnica de construção da balança em mais de 30 séculos. Isso decorre fundamentalmente do emprego que era destinado à mesma, o qual era satisfeito com a tecnologia disponível. Além disso, deve-se considerar o pouco progresso dos processos químicos, após as contribuições de egípcios, babilónios e assírios.

Na época, as teorias e leis sobre a transformação da matéria e as pesquisas experimentais não justificavam melhorias no instrumento. É verdade que, mesmo durante a Baixa Idade Média, as proporções de massa das matérias-primas eram devidamente consideradas em certos experimentos, sendo também observadas mudanças de massa em alguns casos, mas estes eram ocasionais e tratados com empirismo. Do mesmo modo, cabe destacar que, nas farmácias, a balança sempre desempenhou papel essencial: os antigos médicos já escreviam receitas com indicações exatas de massa. Com o advento da iatroquímica (a precursora da química médica), por volta do século XVI, começou o uso de substâncias muito venenosas na composição dos remédios, daí uma pesagem mais rigorosa tornou-se necessária.



 
No século XVI, com o renascimento da tecnologia química, apareceram as primeiras grandes obras neste campo, onde a inserção da balança em atividades de pesquisa e o rigor em seu emprego começaram a tomar forma.

Por exemplo, Vannoccio Biringuccio (1480-1537) deu as primeiras indicações numéricas corretas sobre o aumento de massa na transformação do chumbo metálico em litargírio (PbO) e mínimo (Pb3O4), com aumentos de massa de 8 até 10% (os valores exatos são, respectivamente, 7,7% e 10,3%). Já era bem estabelecido que, de uma certa quantidade de matéria-prima, não se podia fabricar quantidades arbitrárias de um produto e que, quando se queria fabricar economicamente, se devia reagir quantidades exatamente determinadas, o que valorizava o emprego da balança nos processos químicos.


Georgius Agricola (1494-1555), em sua obra principal, De Re Metallica (1556), atribuiu grande importância à balança, mencionando três tipos, como aparece na figura 6. A primeira balança (à direita) era destinada à pesagem bruta de fundentes, cimento ou chumbo; a segunda (à esquerda) mais sensível que a primeira, era usada para pesar o minério ou o metal a serem analisados. A terceira balança (ao fundo) dentro de uma vitrina, era a mais sensível e servia para a determinação da massa do produto resultante da cupelação. Notável é que todas as balanças possuíam dispositivos que permitiam levantá-las ou abaixá-las; quando não estavam em uso, os pratos eram abaixados até descansarem sobre a mesa, evitando desgaste inútil das partes móveis, o que aumentava a vida útil da mesma. Trata-se de um importante avanço da tecnologia de construção da balança. A colocação da balança numa vitrine isolava-a de correntes convectivas e do ambiente corrosivo de laboratório, prática sistematizada aos poucos, a partir daquela época.


Além de Agricola, a pesagem em ambientes isolados era também mencionada por Lázaro Ecker (? – 1593) e Andreas Libavius (1540-1616), que projetou em 1606 uma "casa ideal de química", onde havia uma sala para balanças13, das quais algumas em vitrine. Johann Joachim Becher (1635-1682), no seu catálogo ilustrado de um laboratório químico portátil (1680), descreveu os equipamentos mais necessários de um laboratório analítico, dentre os quais três balanças e entre elas, um modelo dentro de uma vitrine.

Johann Baptist van Helmont (1577-1644) proclamou a absoluta necessidade do emprego da balança nas pesquisas científicas14. Joachim Jungius (1587-1657) também manifestou a opinião de que os processos químicos deviam ser investigados com auxílio da balança15. Em meados do século XVII, por conta da expansão da metalurgia, as balanças tornaram-se mais sensíveis a pequenas variações de massa (diminuição da massa do travessão) e os sistemas de pesos foram regulamentados2. A partir de 1760 apareceram muitos trabalhos de química quantitativa, fundamentada no emprego da balança.

No início do século XIX, a balança sofreu uma importante mudança estrutural. O travessão, antes diretamente ligado à haste da balança por meio do fulcro, passa a repousar sobre um apoio triangular (o cutelo). Na verdade, o cutelo já fora introduzido no final do século XVIII, mas sua popularização só se deu na virada para o século seguinte. Idealmente, os fulcros (pontos de apoio) da balança deveriam ser livres de qualquer atrito, o que não ocorria na prática, mas a adoção do cutelo reduziu bastante esse atrito, o que garantia maior sensibilidade da balança às variações de massa. Outro importante melhoramento foi a adoção da escala para observar melhor a deflexão do travessão (por meio do fiel da balança). Elas eram raramente usadas nos modelos de balança anteriores ao século XIX. Tudo o que se tinha era um ponteiro ligado ao travessão (ou ao fulcro), tanto voltado para cima como para baixo, este último se tornando dominante a partir do século XVIII.

Afora essas considerações iniciais, a balança passou por um novo período de estagnação quanto à evolução técnica. Porém, a sua utilização na Química teve extraordinário crescimento. A determinação da massa estava intimamente ligada à descoberta de leis ponderais e de novos elementos químicos, ao desenvolvimento da química orgânica e à evolução da análise quantitativa gravimétrica inorgânica e orgânica. Nesse aspecto, já se afirmava que "toda a operação química de precisão começa e termina na balança"16 (situação válida até hoje). Apesar de ter sido hoje em dia grandemente superada por métodos de análise quantitativa titrimétrica e instrumental, a gravimetria teve grande importância histórica na evolução da química experimental no século XIX, porque este era o único método sistemático de análise quantitativa existente naquele tempo. A separação do constituinte era efetuada essencialmente por precipitação química. O constituinte desejado era separado da amostra na forma de uma fase pura, de composição química definida, que então era pesada. A partir da massa desta última, achava-se a massa do constituinte através de relações estequiométricas apropriadas.

Martin Heinrich Klaproth (1743-1817), usuário intensivo da balança analítica, adotou técnicas e métodos analíticos que levaram a resultados mais rigorosos que os obtidos normalmente pelos outros químicos e suscitaram a descoberta de novos elementos. Na análise percentual de compostos minerais, por exemplo, mostrou que muitas vezes o valor que deixava de ser considerado para totalizar 100 poderia ser atribuído a novas substâncias. Assim, foi levado a descobrir algumas "terras": óxidos de zircônio, urânio, telúrio e titânio (estes compostos somente anos mais tarde forneceram os respectivos elementos usando métodos de redução). Jöns Jacob Berzelius (1779-1848) modificou a técnica gravimétrica de Klaproth, considerada a melhor da época, usando quantidades consideravelmente menores das substâncias a analisar, introduzindo balanças mais sensíveis de uso analítico. A figura 7 representa uma das balanças usadas por Berzelius em seus trabalhos. 

A melhoria da sensibilidade da balança teve capítulo especial no desenvolvimento da análise quantitativa orgânica. A partir do método da combustão controlada, desenvolvido por Justus von Liebig (1803-1873), que requeria uma quantidade de 0,5 a 1,0 g de material para análise, às vezes impraticável quando do isolamento de um produto natural, Fritz Pregl (1869-1930) introduziu um processo de microanálise em 1911, melhorando os instrumentos e acessórios envolvidos, especialmente a sensibilidade da balança. Com isso a massa necessária passou para a faixa 3-4 mg, sendo ele premiado com o Nobel de Química em 1923.


 
O alemão Karl Remigius Fresenius (1818-1897), em sua obra de Química Analítica Quantitativa (1885), dedicava um capítulo especial à balança. A partir de então, passou a ser cada vez mais frequente, até tornar-se prática corriqueira, ensinar as técnicas de uso da balança em livros de Química Analítica, sendo geralmente o capítulo inicial desses livros. Na virada para o século XX, toda a teoria da balança analítica já estava plenamente desenvolvida (construção, técnicas de pesagem, etc).

Por volta de 1900, a balança assumiu papel especial na Química Analítica Qualitativa, dada a introdução da microanálise (que emprega quantidade de substâncias cerca de 100 vezes menores do que na macroanálise) e reagentes de maior sensibilidade e confiabilidade, o que exigia o preparo de soluções com menores concentrações dos analitos de interesse.

O material de construção das balanças até o século XVIII variou bastante, podendo ser bronze, ouro, prata e mesmo a madeira. Ao longo do século XIX, o latão foi largamente utilizado como matéria-prima, vindo a seguir o cobre, especialmente para pesagens de moedas, metais preciosos e diamantes. Os pesos já eram feitos de metal (latão especialmente) desde os tempos de Georgius Agricola12, mas na Antigüidade encontraram-se pesos feitos de outros materiais, como granito, sienito, basalto, gipso e hematita. É evidente que os pesos tinham de ser feitos com materiais estáveis ao ar para que a exatidão dos mesmos não ficasse comprometida com o tempo.

Por volta de 1850 a balança já era comercializada por várias firmas, face à expansão da química experimental. A produção, antes artesanal, feita por exímios artesãos sob encomenda, não comportava mais a demanda pelo instrumento.


Em 1870, Florenz Sartorius (1846-1925), engenheiro alemão, a partir de uma peça de alumínio cedida por Friedrich Wöhler (1800-1882), desenvolveu uma balança extremamente leve, de braços curtos e encerrada em uma caixa de vidro, montada na própria estrutura da balança (fig. 8). Isso contrariava duas tendências: (a) a fabricação das balanças separadamente das caixas de vidro (ou vitrines) e (b) a concepção da balança com braços longos. Idealmente, os braços e seus acessórios deveriam ser infinitamente leves, o que não ocorria na prática; o uso do alumínio, metal mais leve que o cobre ou o bronze, melhorou enormemente a sensibilidade da balança. A facilidade de manejo e a precisão que se tinha com este modelo superavam largamente os resultados obtidos com as balanças da época. Tratava-se, assim, de uma revolução que marcou a história da balança por várias décadas. A teoria da balança, desenvolvida por Dimitri Mendeleev, ajudou na adoção do modelo proposto por Sartorius em escala comercial.



As balanças começaram a figurar em catálogos nos anos 1870, mas foi a partir de 1895 que se verificou uma grande diversificação de modelos, segundo a massa que deveriam determinar e o material de construção de que seriam feitas (latão, cobre, bronze, alumínio etc).


O final do século XIX testemunhou a incorporação definitiva da balança em todos os domínios da química, desde o ensino até a utilização industrial. Nessa mesma época, a diversificação da química como ciência experimental levou à fabricação de dois tipos de balança de dois pratos (também conhecidas como balanças de dois pratos e três cutelos):as chamadas balanças de mesa ou de bancada ("table balances"), destinadas à pesagem de líquidos corrosivos e sólidos que atacavam a balança analítica (iodo, por exemplo).

Também eram empregadas nas medidas menos exatas de massa, onde a rapidez era primordial. A figura 9 mostra dois modelos dessas balanças pertencentes ao acervo do Museu da Química Prof. Athos da Silveira Ramos, instalado no Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao contrário das balanças analíticas, elas não eram geralmente envolvidas por caixas protetoras e as balanças analíticas, encerradas em caixas de vidro e madeira (eventualmente, metal), e muitas vezes colocadas em salas separadas, à parte do ambiente de laboratório.

 
Popularizou-se no início do século XX o cavaleiro, que já fora proposto no século XIX por Johann Gottlieb Gahn (1745-1818).

Sobre uma escala (geralmente de 0 a 100, com divisões), montada acima do travessão da balança, depositava-se em suas cavidades um pequeno peso em forma de gancho (mais tarde passou a ser de formato cilíndrico), o cavaleiro (fig. 10). Este era movido por meio de uma pinça controlada pelo lado de fora da balança. A adoção do cavaleiro dispensava o uso de pesos excessivamente pequenos (inferiores a 1 mg), de difícil fabricação. Conforme a construção do instrumento, o cavaleiro era capaz de detectar diferenças de massa inferiores a 1 mg entre os pratos, dando ao mesmo uma sensibilidade de detecção da ordem de 0,1 mg.


Via de regra, as balanças eram fabricadas apoiadas sobre três pontos. O objetivo era restringir o movimento do instrumento à oscilação do travessão, do fiel, dos pratos e de seus suportes em um mesmo plano (perpendicular à base), evitando movimentos laterais vibratórios. Tratava-se de uma condição para a obtenção de medida confiável, além de reduzir o desgaste das partes móveis. Um dos pontos de apoio correspondia a um parafuso ajustável, a fim de nivelar a base (ou plataforma) da balança em relação à bancada. É interessante assinalar que, a partir do início do século XX, os pontos de apoio passaram a ser, em geral, feitos de material polimérico (essencialmente baquelite), o qual transmite muito menos vibração da bancada à balança que os metais.

 
Outra inovação foi a inclusão de sistemas de amortecimento dos pratos, que evitavam uma oscilação excessiva do instrumento, poupando as partes móveis de desgastes inúteis.

A importância que a balança assumiu nos laboratórios foi tal, que livros específicos sobre o uso e a conservação deste instrumento foram editados.

As técnicas de pesagem com a balança de dois pratos seguiam duas rotinas:

 
 
a) a pesagem por substituição pela técnica da sensibilidade (método de Borda), muito trabalhosa, mas que era a mais precisa de todas as técnicas. Neste caso, determinava-se a chamada curva de sensibilidade (sensibilidade na ordenada, contra a carga correspondente na abscissa), medindo-se o deslocamento do fiel com uma sobrecarga de 1 mg, para faixa de massa de 0 a 100 g, a intervalos de 10 g (ou menos) e

b) a pesagem pela técnica do ajuste, que consistia em reconduzir a balança, em cada pesagem, ao mesmo ponto de equilíbrio por meio de deslocamentos sucessivos do cavaleiro. Avaliam-se assim os pesos até ± 0,1 mg diretamente, pela simples posição do cavaleiro no travessão. A técnica tinha a desvantagem de obrigar a ajustes repetidos do cavaleiro até obter a posição correta, daí a sua denominação. Não apresentava a mesma exatidão do método de Borda, o que era compensado pela rapidez de execução. A técnica do ajuste era usada nas análises onde a rapidez era fundamental.

As pesagens eram de três modos: a pesagem direta consistia na determinação da massa de um objeto (vidro de relógio, cadinho) ou de um material delimitado. A pesagem por adição empregava-se na obtenção da massa exata, pré-fixada, de um sólido a granel ou de um líquido. A pesagem por diferença era destinada a substâncias que facilmente se alteravam em contato com o ar.

A BALANÇA DE UM PRATO

Durante décadas, as balanças de precisão enquadravam-se inteiramente apenas na modalidade de balanças de dois pratos, em concordância com o fato de o termo "balança", por si só, implicar no uso de dois pratos.
As balanças de um prato, também conhecidas como balanças de um prato e dois cutelos ou eletromecânicas, tornaram-se conhecidas somente a partir de 1946, quando Erhart Mettler (1917-2000) introduziu o primeiro modelo comercial prático no mercado científico30, que se expandia rapidamente após o fim da 2ª Guerra Mundial. Estas balanças eram de custo muito mais alto que as de dois pratos, mas as conveniências por elas apresentadas tornaram-nas cada vez mais populares; as balanças de prato único começaram a substituir rapidamente os modelos de dois pratos a partir dos anos 1960.

Nesse instrumento(fig. 11), um dos pratos da balança e sua suspensão foram substituídos por um contrapeso. Os pesos, suspensos sobre um eixo preso ao suporte do outro prato, são manipulados por um botão. Quando a balança está em repouso, todos os pesos estão colocados em posição no eixo. Ao se colocar um objeto sobre o prato da balança, os pesos são removidos do eixo para compensar a massa do objeto. A pesagem completa-se quando o travessão estiver novamente na posição de repouso. A leitura do deslocamento do travessão é feita em uma escala ótica calibrada para a leitura de valores inferiores a 100 mg. A pesagem, portanto, é feita por substituição (método de Borda) em balança de carga constante (por conseguinte, a sensibilidade não varia). Esta balança ainda está em uso em muitos laboratórios.


As Medidas

Regulador Métrico Português
Pelo Decreto de 13 de Dezembro de 1852 (reinado de D. Maria II), era adoptado o sistema métrico decimal francês, como base do sistema legal de pesos e medidas. Pelo mesmo Decreto era criada no Ministério das Obras Públicas, Comércio e Industria, a Comissão Central de Pesos e Medidas. O novo sistema de pesos e medidas estabelecia um prazo de 10 anos de aplicação plena, após a publicação deste Decreto. Este regulador apresenta notas explicativas de utilização, tabelas de medidas de peso, superfície e volume e legenda das iniciais utilizadas.

Antigas unidades de medida portuguesas




Conjunto de Pesos e Medidas
As antigas unidades de medida portuguesas foram utilizadas em Portugal, Brasil e em alguns domínios coloniais portugueses até à introdução do sistema métrico. Estas unidades tiveram origem nas unidades de medida romanas, árabes e outras.
A maior parte das antigas medidas de peso e de capacidade foi um legado árabe. Na altura da formação de Portugal (1128), o padrão de peso utilizado era o arrátel, do árabe al-ratl, que era um padrão moldado em ferro fundido ou em granito. Este padrão variou de acordo com os interesses, assim como todos os outros, pesando desde 353 até 459 gramas.
No ano de 1352, alguns povoados “portucalenses” queixaram-se à corte de Lisboa por se sentirem lesadas quer no pagamento dos direitos reais, quer nas rendas que pagavam a fidalgos e clérigos. A confusão nos padrões era tamanha que d. Pedro I (1357–67) tentou impor um padrão único para todo o território português, decretando que os pesos sólidos tivessem como base as medidas de Santarém, e os líquidos as utilizadas em Lisboa.
D. Manuel I
Pesos para pesar
ouro e/ou prata
Posteriormente, d. Afonso V (1438–81), impôs os padrões de três cidades: Lisboa, Porto e Santarém. Embora houvesse diminuído, a confusão ainda imperava e no reinado de d. João II (1481–95), devido a intensificação do comércio com o resto da Europa, adotou-se um novo padrão de peso – o marco de Colônia – um padrão que deveria ser feito em ferro forjado e serviria para pesar ouro e prata.
Quando se começou a conjecturar a introdução do sistema métrico decimal, no século XIX, as unidades de medida lineares e itinerárias, e bem assim as unidades de peso, tinham já padrões legais únicos em todo o Portugal. As restantes unidades variavam de região para região, e mesmo de localidade para localidade, embora se situassem na ordem de grandeza dos padrões de Lisboa.









1575 - D. Sebastião
Volume - Canada

Em Portugal, o sistema métrico de unidades foi introduzido pelo Decreto de 13 de Dezembro de 1852, porém dividia espaço com o antigo sistema de medidas. O Decreto de 20 de Junho de 1859 estabeleceu como obrigatório o uso exclusivo do sistema métrico. Este decreto entrou em vigor para as medidas lineares, em Lisboa a 1 de Janeiro de 1860 e nas restantes localidades a 1 de Março do mesmo ano. A obrigatoriedade da utilização das restantes medidas, entrou em vigor, em todo o território nacional, em 1 de Janeiro de 1862.



Medidas itinerárias


Nome Subdivide-se em Valor em léguas de 20 ao grau Equivalência métrica
Légua de 18 ao grau 6173 m
Légua de 20 ao grau 3 milhas geográficas 1 5555 m
Milha geográfica 1/3 1851 m






Medidas lineares


Nome Subdivide-se em Valor em varas Equivalência métrica
Braça 2 varas 2 2,2 m
Toesa 6 pés 1 4/5 1,98 m
Passo geométrico 5 pés 1 1/2 1,65 m
Vara 5 palmos 1 1,1 m
Côvado 3 palmos 3/5 0,66 m
12 polegadas 3/10 0,33 m
Palmo de craveira 8 polegadas 1/5 0,22 m
Polegada 12 linhas 1/40 27,5 mm
Linha 12 pontos 1/480 2,29 mm
Ponto 1/5760 0,19 mm











Medidas de peso


Antigas Unidades Portuguesas16.GIF
Algumas observações:
(1): O grão, a menor unidade, é originário do peso de um grão de cereal, provavelmente o arroz.
(2): O vintém-de-ouro era uma medida de peso equivalente a 32ª parte de uma oitava (0,112 g). Na capitania das Minas Gerais o ouro em pó, não quintado, circulava como moeda pelo valor de um mil e duzentos réis a oitava; para as necessidades diárias 2¼ grãos era a medida menos complicada de obter-se, daí que 0,112 g (2¼ grãos) é igual a 37½ réis.
(3): Os pesos de quilates e escrópulos não eram usados na pesagem de moedas, mas na de diamantes.
(4): O Arrátel era frequentemente referido como "libra", uma vez que a diferença entre estas duas unidades era quase irrelevante.
(5): Não confundir a Tonelada mostrada nessa tabela com a Tonelada Métrica, equivalente a 1000 kg.
(6): Como já explicado, esses pesos todos variaram ao longo do tempo. No reinado de d. Afonso III, o Bolonhês (1248–79), uma lei de 26 de dezembro de 1253, dava a equivalência de 11,5 onças para o arrátel e, sob d. João II (1481-95) o arrátel passou a valer 2 marcos, ou 14 onças. A tabela mostra o padrão uniformizado por d. Manuel I em 1495.

Medidas de superfície


Nome Subdivide-se em Valor em varas quadradas Equivalência métrica
Braça quadrada 100 palmos quadrados 4 4,84
Vara quadrada 25 palmos quadrados 1 1,21 m²
Palmo quadrado 64 polegadas quadradas 1/25 484 cm²
Polegada quadrada 144 linhas quadradas 1/1600 7,5625 cm²



Volumes - Alqueire

Medidas de capacidade para secos 



Nome Subdivide-se em Valor em moios Equivalência métrica
Moio 15 fangas 1 828 l
Fanga 4 alqueires 1/15 55,2 l
Alqueire 4 quartas 1/60 13,8 l
Quarta 2 oitavas 1/240 3,45 l
Oitava 2 maquias 1/480 1,725 l
Maquia 2 selamins 1/960 0,8625 l
Selamim 2 meios-selamins 1/1920 0,43125 l
meio-selamim 2 quartos de selamim 1/3840 0,215625 l
quarto de selamim 1/7680 0,1078125 l


D. João V
Medidas de Volumes

Medidas de capacidade para líquidos


Nome Subdivide-se em Valor em canadas Equivalência métrica
Tonel 2 pipas 600 840 l
Pipa 25 almudes 300 420 l
Almude (1) 2 potes 12 16,8 l
Pote 6 canadas 6 8,4 l
Canada 4 quartilhos 1 1,4 l
Quartilho 2 meios-quartilhos 1/4 0,35 l
Meio-quartilho 2 quartos de quartilho 1/8 0,175 l
Quarto de quartilho 1/16 0,0875 l
(1): também conhecido por cântaro


Balança de Garimpeiro (Brasil)


Balança de pesar ouro



Toque de Ouro

Nome subdivide-se em Símbolo Equivalência métrica
Quilate 4 grãos 41,66 milésimas (1/24)
Grão 8 oitavas 10,42 milésimas (1/96)
Oitava 1,3 milésimas (1/768)



Pesos, em bronze, para pesar moedas
de ouro e/ou prata

Toque de Prata


Nome
subdivide-se em
Símbolo
Equivalência métrica
24 grãos
83,33 milésimas
4 quartas
3,47 milésimas
0,87 milésimas




Balanças Decimais








quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Castelo de São Sebastião


O CASTELO DE SÃO SEBASTIÃO
 DE ANGRA DO HEROÍSMO


Castelo de São Sebastião
(Castelinho)
A pirataria aparece nos mares dos Açores logo nas primeiras décadas do século XVI, mas só pelos anos cinquenta surgiu fundado receio de que as acções de pilhagem pudessem atingir o próprio porto de Angra, na Ilha Terceira, então escala obrigatória nas viagens de retorno das Índias.

1881 - Planta do Castelinho (Damião Pego)
Simultaneamente com o artilhamento do Castelo de São Cristóvão (Memória), manifestamente inócuo na perspectiva defensiva da baía, Tomasso Benadetto, de Pesaro, traça, em 1567, o plano defensivo da ilha Terceira, nomeadamente da nóvel cidade de Angra. Peça fundamental desse plano, foi o Castelo de São Sebastião, vulgo Castelinho, cuja construção se terá iniciado em 1572, mas cujas obras já estariam suficientemente adiantadas em 1576 para ser-lhe atribuída alcaidaria.


Séc. XIX - Castelinho

Torna-se o Castelo de São Sebastião, a partir dessa data, não apenas num reforço substancial do sistema defensivo anterior, mas no garante efectivo da segurança do porto oceânico de escala obrigatória das rotas marítimas intercontinentais. Graças a ele, a cidade pôde desenvolver-se e prosperar. Defesa tão eficaz que afasta a esquadra de D. Pedro de Valdez, em 1581, levando-o ao malogrado desembarque na Salga. Em 1582, chegado vencedor da batalha naval de Vila Franca do Campo contra a esquadra francesa enviada aos Açores em apoio da causa do Prior do Crato, o Marquês de Santa Cruz, ao serviço de Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal, não se atreve a acometer a cidade (nem a Ilha); e, no ano seguinte, é na baía das Mós que desembarca vitorioso, entrando em Angra pelo portão de São Bento, vedado que lhe fora o acesso por mar, pelo poder de fogo do Castelo de São Sebastião -agora já secundado pelo forte de Santo António que Ciprião de Figueiredo mandara construir na ponta sudeste do Monte Brasil -.E no Castelo de São Sebastião receberá a rendição formal das tropas francesas.
Séc. XX - Castelinho

Já sob o governo de espanhol João de Horbina, em 1589, o corsário inglês Francis Drake -ascendido a sir pelas suas vitórias contra o império de Filipe II, nomeadamente, sobre a Armada Invencível -vê frustrada a sua tentativa de saquear os navios carregados de importantes drogas, vindas das possessões ultramarinas surtos no porto de Angra, face à ameaça que o Castelo de São Sebastião representava. Em 1597, idêntico episódio acontece com o conde de Essex que sulca as nossas águas com cerca de 140 velas, e que impusera pesado saque à ilha do Faial.

O estabelecimento em Angra de uma guarnição espanhola se, como se vê, concitou maiores perigos para a cidade, reforçou, também, o valor estratégico da sua fortaleza. Logo nesse mesmo ano de 1583 se iniciam obras de melhoramento na Castelo de São Sebastião, com especial destaque para algumas instalações para homens e materiais, e para o reforço da frente voltada a terra onde a muralha era baixa e desprovida de qualquer sistema protector. Com efeito, a construção do Castelo de São Filipe do Monte Brasil nasce, essencialmente, da incapacidade fisica do Castelinho, desde o início vocacionado para a defesa marítima, de albergar e proteger os homens e os armamentos que o rei de Espanha queria colocar estrategicamente a meio caminho entre a Europa e as Américas. Mas a defesa específica do porto de Angra, essa continua confiada ao Castelo de São Sebastião, tal como reconhece um século depois o Padre Maldonado: este castelo é de notável importância, e tanto que dele depende a segurança da cidade enquanto ao mar. E como confirmam os acontecimentos ocorridos e 1641 e 1642. Perante os fundados receios de que, da parte dos terceirenses, pudesse vir um movimento restaurador com o consequente ataque ao Castelo de São Filipe, o governador espanhol diligenciou para que o Castelo de São Sebastião fosse demolido. Por temer que daí fosse atacado o Castelo de São Filipe? A questão estava - foi - no controlo do porto de Angra. Primeiro, o curioso episódio da conquista do Castelinho pela companhia e pelas mulheres da Ribeirinha, com a ajudinha traiçoeira do artilheiro português ao serviço dos espanhóis, Caldeirão. Depois, as tentativas frustradas do governador estrangeiro, D. Álvaro de Viveiros, para enviar ao seu rei pedido de auxílio a partir do porto de Angra, e o desembarque aqui negado a reforços espanhóis, vindos em apoio dos citiados no Castelo de São Filipe. Com o Castelo de São Sebastião no centro de tudo isso!

Século XIX - Planta do Castelinho
A partir daí o Castelinho entra em declínio? Seguramente, não! (Ou tão só na medida em que o porto de Angra perde importância estratégica.) No reinado de D. Pedro II, em 1698, importantes obras são efectuadas na Castelo de São Sebastião. Tão importantes que na lápide evocativa dessas obras, colocada sobre o portão, é usado o termo reedificaram.


Em 1767, João Júdice, na revista que fez a todos os fortes da ilha, regista alguma ruína na fortaleza, não mais do que no Castelo de São João Baptista. É o reflexo do abandono a que a defesa militar dos Açores fora votada há muitas décadas. Como naquela data regista João Júdice, a artilharia que então por cá existia era exactamente a mesma e apenas a que os espanhóis haviam deixado em 1641. A guarnição do Castelo de São Sebastião era, então, dada pelo Castelo de São João Baptista, sob o comando de um capitão. Isto é, continuava a ter guarnição permanente. E o cargo de Capitão do Castelo era disputado, movendo influências na corte. Por este tempo o Castelo de São Sebastião terá sido objecto dos necessários melhoramentos, tal como parte da restante fortificação da ilha.

 Séc. XX - Castelinho (Tourada no Porto de Pipas)
No final do século, a partir de 1797, é grande o temor de que os Açores possam ser atacados pelas tropas francesas. Numa situação de penúria extrema de armas e munições, o armamento do Castelo de São Sebastião sempre esteve nas preocupações dos responsáveis pela defesa da ilha. Ele continuava imprescindível para a defesa da cidade. Como imprescindível se mantinha em 1822, a crer na planta do sistema defensivo da baía de Angra, desenhada por José Carlos de Figueiredo.

Castelinho (Vista aérea)
Extraordinária relevância foi dada pelos liberais no sistema defensivo mantido para contrariar qualquer tentativa de desembarque das forças absolutistas (1828-1832).

Foram executadas importantes obras na frente voltada ao mar com a construção da bateria da heroicidade; o Castelo teve governador próprio.

Com a saída das tropas liberais, ter-se-á dado início a um processo de degradação da fortaleza. Pelos anos cinquenta são propostas obras de restauro, mas uma relação de 1862 já o dá em bom estado de conservação, o que significa que ainda valia como posição estratégica a contar na defesa do porto de Angra. E um relatório do Corpo de Engenharia, datado de 1868, informa que ele estava guarnecido, tal como o Castelo de São João Baptista, de que dependeria.

Castelinho (ao fundo)
lnsubstituível na defesa da baía de Angra durante três séculos, agente do desenvolvimento da cidade cosmopolita, o Castelinho foi, entretanto, testemunha e espaço de muitos episódios da vida social e política local e regional, servindo, nomeadamente de prisão a perseguidos pela justiça ou pelos poderes públicos, e de depósito de recrutas vindos das diversas ilhas do Arquipélago nas frequentes levas, nomeadamente, do século XVIII, enquanto aguardavam embarque para o Reino, para o Brasil ou para outras paragens lusas.


Castelinho - Portão de Armas
Quando em 1885 grassou em Espanha uma epidemia de cho/era morbus e se receou, com justos motivos, que ela invadisse Portugal e pudesse chegar aos Açores, o Governo Civil do Distrito de Angra do Heroísmo pediu ao Ministério do Reino que obtivesse do Ministério da Guerra autorização para construir, no Castelo de São Sebastião, um lazareto, a fim de ali serem tratados, vigiados e saneados todos os indivíduos que chegassem à Ilha, vindos de portos suspeitos de tal epidemia. Não havendo razões que contrariassem esta pretensão, face ao clima de segurança militar que então se vivia no Arquipélago, foi ela satisfeita, e instalado o lazareto no terrapleno baixo -Bateria da Heroicidade -, com trânsito directo para o Porto das Pipas por uma pequena porta aberta na muralha.

Um relatório de 1887 regista o mau estado de conservação da fortaleza, propondo e seu encascamento e a reposição de pedras em falta nas raízes das muralhas.

1942 - Carta censurada e perfurada  (para ser desinfectada)
 expedida de Londres para Angra
Nos primeiros anos do passado século, a Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo satisfazendo a uma necessidade há muito reclamada pelos povos deste distrito encomendou um projecto (1902) e deu início à construção (1904) de um Posto de Desinfecção Terrestre e Marítimo no Castelo de São Sebastião.





A localização deste posto no Castelinho foi bem escolhida. Destinado à desinfecção de pessoas, roupas, bagagens e mercadorias que por mar chegassem, ficava mesmo ali à mão, à saída do cais do Porto das Pipas; mas concebido, também, para responder ao frequente aparecimento e desenvolvimento na Terceira de doenças de carácter classificado de epidémico, tais como febre tifóide, meningite cérebro-espinal, difterias, varíola, tuberculose, escarlatina, carbúnculo, sarampo, situava-se à distância de isolamento necessária, relativamente ao aglomerado urbano de então.

Castelinho - Brasão de Armas
Não foram, porém, pacíficas estas obras. Do projecto constava o rasgamento da muralha a Oeste, para acesso ao interior do forte, o que levou o Exército a pedir o embargo das obras. Reconhecendo que o Posto de Desinfecção era indispensável para a cidade e que o forte era o local adequado para a sua instalação enquanto razões de ordem defensiva não se sobrepusessem, o Exército opôs-se a alterações na estrutura arquitectónica, pelo seu grande valor como monumento histórico, valor este proveniente da sua antiguidade e dos feitos heroicos que a ele estão ligados.

De forma diversa se pronunciou o Presidente da Junta Geral de Angra do Heroísmo para quem o Castelo de São Sebastião [...] Como monumento histórico ou de arte é também de pouco valor, pois não possue obras de arquitectura que o recomendem, nem a ele se acham ligados factos da nossa história militar ou política que lho avolumem. E para acabar com as disputas, propunha a cedência definitiva da propriedade à Junta Geral.

Castelinho - Ponte sobre o fosso (Acesso)
A postura esclarecida e o prestígio do Exército venceram, e, por auto de cedência precária, de 10 de Julho de 1905, o Castelinho foi entregue à Junta Geral para conclusão das infraestruturas do Posto de Desinfecção, obras a todo o tempo removíveis, com reserva absoluta de intervenção nas muralhas ou outras obras defensivas sem prévia autorização do Exército.

Só em 1935 o castelo de São Sebastião voltou à posse do Exército.


Castelinho - Vigia
Por entretanto o Posto de Desinfecção ter sido transferido para outro local da cidade? Por necessidade de instalações do Exército na previsão de novo conflito armado? O estado lamentável em que se encontravam as instalações do Posto de Desinfecção, paralelamente com a construção de novas instalações algures na cidade sugere que, se tratou da dispensa do Castelo para esse fim, por falta de condições. Não só, aliás, as instalações do Posto de Desinfecção estavam degradadas, mas toda a estrutura defensiva se encontrava profundamente arruinada, passado que fora mais de meio século sem que obras de manutenção fossem feitas.

Castelinho - Vista sobre os ilhéus
Veio o Castelo de São Sebastião a acolher, sucessivamente, a Bateria de Artilharia de Defesa Móvel de Costa n.O 2, Depósito de Presos da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, Quartel das Forças Britânicas, 3.0 BE do GACA n.o 1 da Base Aérea n.o 4, Serviço de Obras de Engenharia do Comando Militar da Terceira, e Capitania do Porto de Angra do Heroísmo, ocupante até há pouco.

Para além do Castelo de São Sebastião ter sido uma presença constante e interveniente em mais de quatro séculos de vida de Angra do Heroísmo, importante é, também, no plano arquitectónico, pela sua tipologia.

Castelinho - Bateria baixa
De que há conhecimento, a primeira fortificação erguida em Angra (e nos Açores), data da segunda metade do século XV: o Castelo dos Moinhos ou de São Cristóvão. 

Necessariamente ainda de concepção medieval, pouco conhecemos da sua arquitectura, por falta de representações iconográficas credíveis. Dos pequenos fortes que se lhe seguiram no perímetro da baía de Angra, também pouco sabemos, embora, aqui, estejamos em crer que as construções já seriam muito mais adequadas às necessidades defensivas contra o poder de fogo da artilharia dos navios hostis. Mas é com a construção do Castelo de São Sebastião que Angra é dotada de uma moderna fortificação, à altura das necessidades defensivas de uma cidade que passara a estar na confluência das grandes rotas marítimas intercontinentais. Para o projectar, veio a Angra, como se disse, Tomaso Benedetto, engenheiro italiano, da pátria de Leonardo da Vinci e dos mestres construtores de fortificações no século XVI, nomeadamente Tiburcio Spanochi, o projectista do Castelo de São João Baptista do Monte Brasil.


1941 - Cartografia da Baía de Angra
As muralhas perdem a altura do castelo medieval e ganham a robustez necessária para contrariar o poder destrutivo da artilharia; as torres dão lugar a dois baluartes virados a terra, desenvolvendo-se duas ordens de baterias para o lado do mar. O interior é espaçoso, nele se erguendo até inícios do século passado, praticamente apenas a casa do Governador e a cisterna; ficando os alojamentos para o ajudante e a guarnição adossados aos baluartes; os próprios paios abriam-se sob o terrapleno dos baluartes.


1870 - Cartografia de Angra
Com objectivos exclusivamente estratégicos, quanto menos edificios comportasse, menor seria, logicamente, a destruição, em caso de ataque. Para além de ter sido concebido para ser guarnecido por ordenanças, gente do povo, com suas casas e família na cidade, que apenas ali permanecia o tempo necessário para prestar serviço. Um exemplar de excepção, pela tipologia e pelas ressonâncias históricas e sociais, do primeiro abaluartado nacional e da fortificação defensiva destas Ilhas.






Obras empreendidas pelos Monumentos Nacionais em meados dos anos noventa últimos, vieram reabilitar a antigo casa do governador e, parcialmente, o quartel do ajudante e caserna das praças. Por outras palavras, foram criadas as condições que permitiam o alojamento da Marinha nos edificios tradicionais do forte, e a remoção das construções recentes, sem qualidade estética, e perturbadores da harmonia arquitectónica e funcional do sistema defensivo. O Castelinho podia assumir plenamente a sua natural função cultural e pedagógica. Só que, pela mão do Governo da Região Autónoma dos Açores e da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, no interior é construída uma Pousada de Portugal, ficando do sistema defensivo do mais antigo edifício da cidade património mundial, referência monumental estruturante no processo da sua inclusão na lista de classificação da UNESCO, apenas as muralhas e os modestos alojamentos castrenses, transformados em mais valia ornamental do empreendimento turístico.

Texto de : Manuel Faria